Entrevista: Pablo Fernando Souza Martins

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Entrevista realizada com Pablo Fernando Souza Martins durante o II Workshop de Terapia Cognitivo Comportamental do Triângulo Mineiro, promovido pelo Instituto Integrare. O evento ocorreu nos dias 9 e 10 de novembro de 2012, na cidade de Uberlândia (MG).

Pablo Fernando Souza Martins é graduado em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU, 2004). Especialista em Psicologia Clínica na Abordagem Cognitivo-Comportamental (UFU, 2007). Mestre em Psicologia da Saúde, com ênfase em processos cognitivos (UFU, 2010). Professor do Curso de Especialização em Psicologia Clínica na Abordagem Cognitivo-Comportamental (UFU, 2011). Psicólogo Clínico do Instituto de Psicologia da UFU. Supervisor do estágio em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental para Adultos na clínica-escola de psicologia da UFU. Sócio fundador do Instituto Integrare. Idealizador do Workshop de Terapia Cognitivo-Comportamental do Triângulo Mineiro.
Vinícius – Para começar a entrevista, gostaria de pedir que contasse aos leitores do “Comporte-se” um pouco de sua história. Como optou pelo curso de Psicologia e como se interessou pela abordagem Cognitivo-Comportamental?
Pablo – A escolha pelo curso de Psicologia aconteceu de maneira acidental. Na escola eu sempre gostei das disciplinas da área de humanas, mas até prestar o vestibular não tinha pensado em Psicologia especificamente. Prestei, passei e já no primeiro período tive uma grata surpresa. Encantei-me com o curso. O contato com a TCC veio só no 3º período quando fiz um minicurso com a Prof. Dra. Renata Lopes que tinha trazido na bagagem sua experiência com TCC em Ribeirão Preto. A abordagem não era muito conhecida em Uberlândia, poucos profissionais trabalhavam com TCC e mesmo na Universidade ela aparecia discretamente nas aulas. Depois desse minicurso, procurei a Prof. Renata e juntamente com 3 colegas, propomos a organização de um grupo de estudos. Depois disso, os alunos puderam conhecer melhor a TCC e muitos se interessaram. Eu ajudei a coordenar esse grupo por mais de três anos e quando me formei ele continuou com outros alunos. Foi um período de efervescência da TCC na Universidade Federal de Uberlândia.  E a partir do minicurso e do grupo de estudos, eu fiquei cada vez mais interessado na abordagem.
Vinícius – Quais foram os principais obstáculos e desafios que você enfrentou ao longo de sua trajetória profissional?
Pablo – Alguns obstáculos são comuns a todos os estudantes de Psicologia que se formam, principalmente aqueles que escolhem a clínica como prioridade. O fato de formarmos muito jovens nos coloca em um lugar de credibilidade questionável diante dos pacientes. Como assuntos tão complexos podem ser ouvidos e orientados por pessoas tão jovens? Outra dificuldade é a desconfiança que as pessoas ainda têm com psicoterapia. Muitas pessoas precisam e ainda não procuram esse serviço.  No meu caso, além desses obstáculos ainda tive a dificuldade financeira para abrir o consultório e mantê-lo aberto depois. É um período de muita dificuldade. Você tem que gostar muito e principalmente acreditar que está no caminho certo, ainda que demore um pouco a colher os frutos.
Vinícius – Em sua opinião, quais são os pontos fortes da terapia cognitivo-comportamental e quais são os rumos dessa abordagem?
Pablo – Acho que o ponto forte da TCC é sua eficácia e principalmente a possibilidade de se estudar e de comprovar tal eficácia. A psicologia precisa demonstrar sua utilidade assim como o produto de toda ciência. Digo sempre para os meus estagiários e alunos que não tenho nenhum compromisso em defender por defender a abordagem. Mas tenho o compromisso, sobretudo ético, de utilizar na minha profissão os melhores procedimentos de intervenção para o paciente. E esses procedimentos precisam ser testados e aprovados por pesquisas. E a TCC faz isso muito bem. É impensável que depois de tantos avanços em todas as áreas do conhecimento, a psicologia ainda faça uso de quaisquer técnicas e intervenções com as quais não se comprovou a eficácia. Outra característica importante da TCC é o seu caráter educativo.  Instrumentalizar o paciente com ferramentas que o possibilite caminhar sozinho é muito importante. Fundamentada em teorias da aprendizagem humana que têm características universais, a TCC possibilita generalizar de alguma forma, a partir da teoria, suas intervenções. E a maior prova disso são os diversos estudos em países e culturas diferentes que verificaram a eficácia da abordagem.
Daqui para frente a TCC sofrerá cada vez mais influência das neurociências, o que não é ruim. Essa área do conhecimento pode dar uma grande contribuição à psicoterapia. E vice-versa. Para tratar de problemas tão complexos que nos chegam em psicoterapia vamos ter que dialogar muito com outros profissionais. Não só médicos, biólogos, farmacêuticos, enfermeiros, fonoaudiólogos, mas também sociólogos, filósofos e educadores. O mundo passa por mudanças muito rápidas e quanto mais cabeças pensando nas melhores soluções para os nossos problemas, melhor para todo mundo. Outro caminho que precisamos percorrer é o da prevenção, tema ainda pouco debatido em vista de sua importância. Políticas públicas de prevenção de transtornos mentais precisam ser fortalecidas. Muitos problemas poderiam ter sido minimizados e mesmo evitados se tivéssemos agido mais cedo durante o desenvolvimento da pessoa.
Vinícius – O Workshop de Terapia Cognitivo-Comportamental, promovido pelo Instituto Integrare, já está em sua segunda edição, tendo seu sucesso comprovado pelo feedback positivo recebido do público. Sob que contingências esse Workshop foi criado? Quais são os objetivos desse evento?
Pablo – A ideia de organizar um Workshop surgiu em uma reunião da equipe do Instituto Integrare. Debatíamos justamente sobre a importância e os rumos que a TCC tomaria, quando surgiu a ideia de um evento. Era o primeiro na região do Triângulo Mineiro. Isso nos deixava lisonjeados e ao mesmo tempo com muita responsabilidade. Tínhamos que fazer um bom evento. Nosso objetivo foi convocar alunos e profissionais das áreas da saúde para debater a importância da psicoterapia nos tratamentos de saúde em geral. Promover um diálogo como esse é uma oportunidade de minimizar preconceitos e aproximar as diversas áreas do conhecimento. Dessa forma, além de apresentar e divulgar a abordagem, o Workshop convidou a todos para um conjunto de reflexões: A importância de se trabalhar com uma abordagem baseada em evidências; Qual era o limite da técnica? Como poderíamos aperfeiçoar as intervenções? Enfim, já no primeiro evento quase trezentas pessoas compareceram e foi um grande sucesso.
O evento marcou definitivamente o espaço da TCC em Uberlândia, o que nos deixou muito felizes. Agora estamos na segunda edição, e o interesse de alunos e profissionais nos dão a certeza de que a abordagem ocupou um espaço importante na região do Triângulo Mineiro.
Vinícius – Para finalizar, gostaria de pedir que deixasse algumas orientações para quem deseja iniciar os estudos na abordagem cognitiva-comportamental.
Pablo – Antes de tudo é preciso gostar de clínica. E gostar de clínica é gostar de gente. Nosso principal objetivo é ajudar as pessoas. Esse é o foco e isso é mais importante que o resto. Mas só conseguiremos ajudar alguém de fato se estivermos bem preparados e utilizando procedimentos estudados e aprovados. Se você ainda é aluno da graduação, procure fazer pesquisas e se organizar em grupos de estudos sobre a abordagem. Quanto mais contato você tiver com o assunto mais preparado você vai se formar. Para os profissionais, procurem os cursos de Formação e Especialização na área. Existem muitos cursos bons no país. Leituras individuais de artigos, teses, livros e de blogs como o Comporte-se podem ajudar bastante.

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