[Entrevista Exclusiva] Prof. Ms. Bruno Strapasson – XXI Encontro da ABPMC: Watson pode ou não ser considerado um Behaviorista Metodológico?

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Em mais uma entrevista da cobertura da ABPMC, entrevistamos Bruno Angelo Strapasson, que abordou a polêmica discussão: Watson é ou não um Behaviorista Metodológico? Confira a entrevista logo abaixo.

Bruno Strapasson possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Paraná (2004), mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela Universidade Estadual Paulista – Júlio de Mesquita Filho (2008) e é doutorando em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo. Atualmente é colaborador em pesquisa da Universidade Federal do Paraná, professor das Faculdades Integradas do Brasil e professor adjunto da Universidade Positivo. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicologia Experimental, atuando principalmente nos seguintes temas: behaviorismo radical e análise experimental do comportamento.

E.N. – O que te levou a se interessar por pesquisar a história da Análise do Comportamento?

B – Tenho me interessado verdadeiramente por história da Análise do Comportamento há muito pouco tempo e este interesse deriva da própria postura desta disciplina na investigação dos fenômenos humanos. Para entendermos quaisquer comportamentos precisamos recorrer à história do organismo que se comporta (idealmente nos três níveis de seleção). Uma vez que se interprete que a Análise do Comportamento pode ser entendida como uma prática cultural – e portanto um evento de natureza comportamental – compartilhada por um grupo limitado de psicólogos, esta deve também ser um objeto de estudo dos analistas do comportamento que, naturalmente, terão que se voltar para sua história se quiserem compreendê-la. 
Em minha formação acadêmica acabei me envolvendo na realização de análises conceituais tanto na graduação, como no mestrado e em outros trabalhos independentes, mas entendo que avaliações conceituais que envolvam análises cronológicas são pesquisas históricas apenas em um sentido muito amplo de história. Esse tipo de trabalho não se assemelha muito ao que os historiadores vêm fazendo em suas pesquisas e prefiro chamá-las apenas de análises conceituais. A análise conceitual é muito importante na medida em que permite identificar compromissos teóricos de uma proposição (explícitos ou não), bem como avaliar a coerência entre as proposições teóricas apresentadas, entre as proposições e os compromissos filosóficos e entre a teoria apresentada com outras teorias, dentre outros objetivos comuns. É a esse tipo de estudo que eu tenho investido em boa parte da minha carreira. 
O interesse por pesquisas históricas propriamente ditas surge por outros motivos e é bem mais recente. Minha graduação foi na Universidade Federal do Paraná e morei minha vida toda em Curitiba, entretanto, estudei na UNESP, em Bauru, e atualmente estudo na USP. Quando conheci esses contextos fiquei interessado na diferença do que se fazia sob o rótulo de Análise do Comportamento nessas diferentes cidades e ao mesmo tempo me dei conta que não conhecia profundamente o percurso da Análise do Comportamento em minha cidade. Decidi então iniciar um projeto de pesquisa histórica sobre a Análise do Comportamento em Curitiba. Tal projeto está em curso, estou descobrindo muitas coisas interessantes, mas aqui não é o lugar para apresentar os resultados dessa pesquisa. Comento sobre esse projeto apenas para responder à sua pergunta indicando que é apenas muito recentemente que tenho me envolvido num projeto de pesquisa histórica.

E.N – Boa parte da literatura sobre a história do Behaviorismo define Watson como Behaviorista Metodológico, tese esta, contestada por você. Em que momento de sua trajetória acadêmica/ profissional você a contestou pela primeira vez e como chegou a isso? 
B – Na minha graduação eu também achava que Watson era o exemplar mais emblemático do Behaviorismo Metodológico. Fui ensinado e pensar assim. A referência a Watson ser behaviorista metodológico era evocada, em geral, para criar um parâmetro de comparação ao qual poderiam ser aplicadas as críticas injustas (são positivistas, são mecanicistas, reduzem a atividade humana ao comportamento observável, etc.) comumente direcionadas à Análise do Comportamento e que, defendiam os professores, só eram aplicáveis ao Behaviorismo Metodológico de Watson. Dada essa caricatura e ao mesmo tempo a importância histórica que era dada a Watson, decidi ler o manifesto behaviorista. Fiquei surpreso, contudo, quando percebi no manifesto algumas falas que dariam margem a interpretações alternativas e, incentivado por um grande amigo, o professor Alexandre Dittrich, comecei a ler outros textos do autor. Quanto mais eu lia a obra de Watson, mais forte ficava a impressão de que se cometia com ele os mesmos erros que alguns diziam ser cometidos com a Análise do Comportamento (ou pelo menos boa parte deles). Ainda que existam diferenças marcantes, há muito mais similaridades entre a obra de Watson e a obra de Skinner que a maioria dos analistas do comportamento imagina. 
É preciso notar, entretanto, que a noção de que Watson não é um behaviorista metodológico é valida apenas para alguns sentidos dessa expressão. É verdade que a crítica me parece plausível para os usos mais comuns que se faz do conceito, mas há usos que são defensáveis. Watson não me parece ser um behaviorista metodológico quando essa expressão faz referência a algum compromisso com um dualismo de substâncias (mente-corpo). Por outro lado, não vejo grandes problemas em dizer que Watson priorizou o método em comparação com a expressão de seus compromissos filosóficos, ou mesmo em dizer que primeiro se preocupou com o estabelecimento de uma metodologia científica para apenas posteriormente fazer proposições mais afirmativas sobre o funcionamento do comportamento ou se pronunciar sobre a subjetividade humana. Se alguém defender que, por esses motivos, Watson é um behaviorista metodológico eu não contestaria tal proposição. 

E.N. –  Que variáveis contribuíram para a construção e disseminação deste equívoco?


Bem, primeiramente é importante notar que a identificação de Watson como um behaviorista metodológico, no sentido criticado acima, é um fenômeno caracteristicamente brasileiro. Não é comum encontrar autores estrangeiros que afirmem que Watson era dualista. Isto posto, me dediquei a responder a essa pergunta analisando a literatura brasileira sobre o assunto. Cheguei à conclusão de que pelo menos três fatores contribuíram para essa disseminação no Brasil. O primeiro, o qual já mencionei, é que Watson vai explicitar textualmente seus compromissos filosóficos apenas depois de já ter ganhado notoriedade por suas proposições. Isso permitiu que muitas especulações fossem feitas sobre suas posições, muitas delas indevidas, antes de ele explicitar a adoção de algum compromisso filosófico. Coincidentemente, no Brasil, os textos mais conhecidos de Watson são justamente aqueles que deixam espaço para especulações. O segundo é o modo como Skinner comenta a obra de Watson e o que ele chama de Behaviorismo Metodológico. Até onde eu conheço a obra de Skinner, ele nunca vinculou explicitamente Watson ao Behaviorismo Metodológico. Além disso, ele diz textualmente que Watson não é dualista. Todavia, ao comentar o desenvolvimento do behaviorismo, frequentemente Skinner fala de Watson e na sequência comenta o Behaviorismo Metodológico sem deixar claro que estava mudando de interlocutores. Entendo que esse modo de redigir o texto pode facilmente induzir o leitor a pensar que ambos são a mesma coisa. 
Por fim, os autores nacionais têm feito frequentes referências a um texto de Maria Amélia Matos publicado no primeiro volume da coleção Sobre Comportamento e Cognição no qual ela menciona Watson como um autor emblemático de um Behaviorismo Metodológico calcado no positivismo lógico e no dualismo mente-corpo. Admiro muito o trabalho da professora Maria Amélia Matos, sua contribuição para o desenvolvimento da Análise do Comportamento no Brasil é grande e definitiva, entretanto, como já deve estar claro, eu discordo dessa interpretação em específico. Não tenho clareza, contudo, do que a levou a interpretar Watson desse modo. 


E. N. – Como os autores de outros países definem Watson?

O behaviorismo de Watson é chamado frequentemente de Behaviorismo Clássico ou, simplesmente, de Behaviorismo Watsoniano. Mas a proposta de Watson já foi chamada, inclusive, de Behaviorismo Radical. Fora do Brasil Watson é conhecido principalmente por seu radicalismo fisicalista (o mundo é constituído apenas de eventos físicos de modo que não existem eventos mentais, espirituais ou de quaisquer outras naturezas não físicas), pela proposição de que os objetivos a previsão e controle do comportamento deveria guiar a psicologia e pela defesa de que, se quisermos que a psicologia seja vista como uma ciência, deveremos adotar os critérios clássicos das ciências naturais. Sobre outros aspectos há muita controvérsia na interpretação da obra de Watson.
E. N.  – Poderia fazer um resumo dos motivos pelos quais não devemos considera-lo Behaviorista Metodológico? 

B – O conhecimento da obra de Watson tem, hoje, apenas um interesse histórico (ainda que isso não seja pouco). Usamos a referência a ele para compreender como a Análise do Comportamento chegou ao que é hoje. Na identificação de similaridades e discrepâncias entre teorias fica mais claro o que caracteriza nossa própria prática e evidenciam-se compromissos teóricos que não estavam necessariamente claros. Quando comparamos a Análise do Comportamento a caricaturas de teorias psicológicas aumentamos muito a chance de acabarmos com uma caricatura pouco útil de nosso próprio referencial teórico. 
Além disso, é sabido que a Análise do Comportamento é alvo de inúmeras críticas, na maioria delas injustificadas, mas quando redirecionamos injustamente a Watson (ou a qualquer outro autor) uma crítica endereçada inapropriadamente à Análise do Comportamento estamos cometendo o mesmo erro dos nossos críticos.

E. N. – Maior parte das referências brasileiras tratam Watson como Behaviorista Metodológico. Poderia indicar fontes de pesquisa para interessados em conhecer a crítica a esta visão? 
Como produto do estudo que fiz da obra de Watson acabei publicando três textos especificamente sobre a relação entre Watson, o Behaviorismo Metodológico e o dualismo mente-corpo. Seguem abaixo as referências a esses textos. Entretanto, para compreender melhor a obra de Watson indico também a leitura do livro Modern Perspectives on John B. Watson and Classical Behaviorism de Todd e Morris, o número especial sobre Watson na Acta Comportamentalia (vol. 3, 1995) e, principalmente, as obras do próprio autor, indico quatro delas como mais importantes. 
Strapasson, B. A. & Carrara, K. (2008). John B. Watson, behaviorista metodológico? Interação em Psicologia, 12, 1-10.
Strapasson, B. A. (2012). A caracterização de John B. Watson como behaviorista metodológico na literatura brasileira: possíveis fontes de controle. Estudos de Psicologia (Natal), 17, 83-90. 
Todd, J. T.; Morris, E. K. (1994). Modern perspectives on John B. Watson and classical behaviorism. Westport: Greenwood Press.
Ribes-Iñesta, E. (ed.) (1995). Acta Comportamentalia, 3, número monográfico. 
Watson, J. B. (1913). Psychology as a behaviorist views it. Psychological Record, 20, 158-177.
Watson, J. B. (1920). Is thinking merely the action of language mechanisms? British Journal of Psychology, 11, 87-104.
Watson, J. B. (1925). Behaviorism. London: Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. (Texto original publicado em 1924).
Watson, J. B. & MacDougall, W. (1929). The battle of behaviorism: Na exposition and na exposure. New York: W.W. Nornton & Company.

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