Plasticidade cerebral: pesquisadores aprofundam estudos sobre troca de informações entre células-tronco neurais

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Em 2000, uma equipe de neurocientistas testou uma ideia incomum. Como já sabiam que estresse e depressão levam à morte de neurônios – particularmente no hipocampo, uma área cerebral crucial para a memória –, os pesquisadores deram antidepressivos a ratos estressados, esperando que a melhora no humor protegesse alguns desses neurônios hipocampais. Surpreendentemente, ao verificar o resultado algumas semanas depois, a equipe descobriu que além de o hipocampo dos roedores ter sobrevivido intacto, ele tinha produzido neurônios completamente novos – muitos deles. Mas esse é só o começo da história.
No fim de 2009, outra equipe de pesquisadores levantou a mesma hipótese e a imprensa anunciou a descoberta com manchetes que diziam “Antidepressivos criam novas células cerebrais” – ainda que nem todos concordassem com essa conclusão. Ainda assim, se o princípio se aplicava ou não a humanos, uma pergunta muito mais básica pedia uma resposta: Como, exatamente, o cérebro forma novas células?
Um chute razoável seria: “por meio de sinapses”. Afinal, é assim que muitos neurônios se comunicam: a informação eletroquímica é transmitida de um neurônio para a ponta de outro, continuamente. Existem, porém, duas exceções significativas a esse sistema. A primeira foi descoberta há poucos anos, conforme cientistas aprofundaram os estudos a respeito do papel das neuroglias (também conhecidas como “glias”), células sem sinapses que muitos achavam servir apenas de apoio estrutural para os neurônios. Um estudo de 2008 mostrou, porém, que as glias ajudam a controlar o fluxo sanguíneo cerebral, e pesquisas em 2010 demonstraram que algumas glias – células conhecidas como astrócitos – respondem ativamente a certas mensagens neurotransmissoras.
A segunda exceção à regra da sinapse é ainda mais misteriosa, principalmente por ser uma descoberta recente: como relata o periódico Nature, uma equipe liderada por Hongjun Song, da Escola de Medicina da Johns Hopkins University descobriu que células-tronco neurais “ouvem” os sinais químicos perdidos que “vazam” das sinapses.
É possível pensar nas células-tronco neurais como uma espécie de “embrião neural”: dependendo das condições do ambiente, elas podem se desenvolver em neurônios ou em glias. E a parte estranha da maneira como essas células se comunicam é: elas não respondem a um único sinal, mas ao “clima” geral do ambiente – a sensações crônicas de estresse, por exemplo. Como forma de resposta, elas podem se transformar em neurônios ou em glias – ou mesmo levar o cérebro a produzir células completamente novas.
As células-tronco neurais parecem estar particularmente interessadas no químico GABA (ácido gama-aminobutírico), um neurotransmissor envolvido com a inibição de sinais de outros neurônios. Quando cientistas bloqueiam artificialmente os receptores GABA dessas células-tronco, as células “acordam” e começam a se replicar – mas quando os sinais GABA chegam aos receptores, as células-tronco permanecem adormecidas.
“Nesse caso”, explica Song, “a comunicação GABA mantém as células-tronco cerebrais na reserva. Então, se não precisamos delas não as usamos”. Em resumo, o “vazamento” de sinapses não é um desperdício – na verdade, ele é essencial para as habilidades que o cérebro tem de se modelar. E isso traz algo bem interessante: não são apenas sinais individuais que transmitem informações neurais, mas experiências inteiras. Nesse aspecto, o cérebro – de ratos ou humanos – é diferente de qualquer computador.

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