Introdução ao controle de estimulos – Percepção e atenção

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    A análise do comportamento em seus estudos demonstra que existem duas relações importantes a se considerar no estudo do comportamento humano. Com as noções de comportamento operante e respondente, fica claro que a relação entre uma resposta e sua consequência e da resposta às condições ambientais em que ela foi emitida são muito importantes.
    Sidman (1986) afirma que:
    “O reconhecimento da contingência de dois termos como uma unidade de análise, por mais simples que pareça, deve ser considerada como um marco no desenvolvimento da análise comportamental. O comportamento que parecia controlado por eventos futuros, uma anomalia científica problemática, poderia agora ser visto como tendo sido gerado por contingências passadas. Uma importante área da cognição, o  “propósito”, foi pela primeira colocado sob um bom arranjo cientifico. Não era mais necessário invocar “expectativas”, “antecipações” ou “intenções” hipotéticas para trazer os determinantes do futuro para o passado ou o presente; poderse-ia, ao invés disso, indicar as contingências reais que tinham ocorrido.” (p.217)

    Com o paradigma operante, a análise do comportamento pode contar com uma ferramenta importante para o seu desenvolvimento conceitual. Sidman (1986) afirma que a unidade de três termos só veio confirmar e ampliar as possibilidades abertas pelo desenvolvimento conceitual da Análise do Comportamento. Alguns fenômenos como a Percepção e a Atenção, são citados por Sidman junto com outros comportamentos considerados complexos pela psicologia como, abstração, solução de problemas, formação de conceitos etc…
    A Análise do Comportamento com seu corpo teórico se propõe a investigar tais eventos considerados complexos entendendo que para tal é necessário se observar a relação entre uma classe de respostas em relação a uma classe de estímulos. Conhecemos essa área de conhecimento como “Controle de Estímulos”.
    Para falar em percepção e atenção, devemos ter claros os conceitos básicos da análise do comportamento. A percepção pode ser entendida como um operante controlado por um estímulo antecedente. Como é um operante, é correto afirmar que tal controle sobre influências de diversas variáveis, principalmente quando nos referimos ao histórico de reforçamento e/ou punição de um organismo.
    Faggiani (2009) dá um exemplo interessante onde o contexto determina o controle de estímulos quando diz:
    “Um lenhador, por exemplo, que aprendeu sobre diferentes tipos de madeira durante sua profissão, provavelmente percebe a árvore em termos financeiros. Um casal de namorados pode perceber a árvore como um espaço romântico para estender uma toalha e dizer palavras de amor. O lenhador e os namorados percebem a árvore de forma diferente, pois ela está relacionada com consequências e respostas distintas para eles.” (p.02).
    Concluímos que percepção é comportamento operante e está diretamente ligada a relação organismo-ambiente. Um dos erros mais comuns que percebo nas aulas de psicologia da percepção, é que o professor foca demais em apenas estruturas neurológicas, como se a percepção fosse apenas o trabalho dos órgãos dos sentidos como visão e audição em relação a uma estrutura cerebral que os lê e interpreta. Entendo que os professores têm diferentes formas de passar o conteúdo e tais diferenças devem ser respeitadas, porém sabemos que os estudos neuroanatômicos não levam em conta os fenômenos psicológicos e comportamentais e sem esses estudos, com certeza existe uma grande defasagem no entendimento do que chamamos de percepção e pior que isso, os alunos são prejudicados em um entendimento integral da questão.
    Skinner brilhantemente fala sobre isso em About Behaviorism (1976) quando fala:
    “Uma pessoa não é um espectador indiferente a absorver o mundo como uma esponja, (…) Não estamos simplesmente “cientes” do mundo ao nosso redor: respondemos a ele de maneira idiossincráticas por causa daquilo que aconteceu quando estivemos em contato com ele. (…) Tem sido salientado, com frequência, que uma pessoa que percorreu um caminho quando passageiro não consegue encontrá-lo tão bem quanto uma que tenha dirigido por ele igual número de vezes (…). Ambos foram expostos aos mesmos estímulos visuais, mas as contingências foram diferentes. Perguntar por que o passageiro (…) não “adquiriu o conhecimento do caminho” é perder de vista a questão importante (…). As grandes diferenças naquilo que é visto em diferentes momentos em uma dada situação sugerem que um estimulo não pode ser descrito em termos puramente físicos. Tem sido dito que o behaviorismo falhou por não reconhecer que o que é importante é “como a situação aparece para uma pessoa ou como uma pessoa interpreta uma situação” ou então “ que significado em situação tem para uma pessoa”. Entretanto para investigar como uma situação aparece para uma pessoa, ou como ela interpreta, ou que significado ela tem para a pessoa, devemos examinar seu comportamento com relação a tal situação, incluindo suas descrições dessa situação, e esse exame só pode ser feito em termos de sua história genética e ambiental (…) pessoas vêem coisas diferentes quando expostas a contingências de reforçamento diferentes” (pp. 82,83,85,86,88)
    Então, para a Análise do Comportamento não existe diferenciação entre o que é conhecido por atenção ou percepção. Tanto um quanto o outro fazem parte e apenas se trata de controle de estímulos. Skinner (1965) diz que a atenção é uma relação de controle, e esse controle se dá entre uma resposta e um estímulo discriminativo.
    Então amigos leitores, vou deixar uma pergunta para vocês (que vou responder no próximo texto).
    Segundo os pressupostos teóricos da Análise do Comportamento, quando falamos em atenção e percepção, devemos enfatizar o sujeito e supormos que ele é o iniciador autônomo de suas respostas ou então devemos enfatizar o ambiente e supor que ele se impõe sobre o sujeito?
    Referências
    AZEVEDO, T. M; ANDERY, M. A; MICHELETTO, N. ; GIOIA, P. S. – Discriminação e generalização: O comportamento humano complexo. Sério et col. (2004). Controle de Estímulos e Comportamento Operante. 
    FAGGIANI, R. (2009) – Conceitos básicos da Análise do Comportamento. 
    Diponivel em http://www.psicologiaeciencia.com.br/conceitos-basicos-de-ac-parte-7-contexto-controle-de-estimulos (visualizado em 20/09/2012)
    SIDMAN, M. (1986) “Funcional analysis of emergent verbal classes” em THOMPSON, T. e ZEILER, M. D.(orgs). Analysis and integration of behavior units. Hilssdale, NJ, Erlbaum.
    SKINNER, B.F. (1976). About behaviorism. New York, Vintage. 
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    Marcelo Souza
    Psicólogo especialista em Análise do Comportamento pela Universidade de São Paulo / HU-USP. Pesquisador do Centro para o Autismo e Inclusão Social da Universidade de São Paulo IP-USP. Psicólogo estagiário do Programa de Pós Graduação Stricto Sensu (nivel mestrado) do Instituto de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo / IP-USP. Monitor da Prof. Dra. Martha Hubner no curso de especialização em Terapia Comportamental da Universidade de São Paulo / HU-USP. Psicólogo do Programa de Orientação ao Aluno da Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP. Professor convidado do curso de Fundamentos da Terapia Comportamental Clinica do InPA-EAD, ministrando as disciplinas " Análise Funcional do comportamento e Conceitos Básicos da Análise do Comportamento".
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