Ensaio acerca de meias verdades comuns sobre Behaviorismo Radical e Análise do Comportamento na área educacional

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Maria Ester Rodrigues
Ilustrando com o caso da Psicologia “Interacionista” x “Não Interacionista”: Uma falsa questão [1]
As relações entre filosofia e sua sub-área, a epistemologia, bem como as relações entre epistemologia e psicologia são, certamente, mais complexas do que resumir a história da explicação do conhecimento pelo empirismo, racionalismo e um interacionismo “redencionista”. A história do conhecimento humano não pode ser resumida à relações de predominância (ou exclusividade) absoluta do sujeito, no caso do racionalismo e/ou objeto, no caso do empirismo. Além do mais, embora não seja o objeto dos presente escrito, seria possível afirmar que existem muitas formas de empirismo, de racionalismo e mesmo interacionismo.
Qualquer teoria e teórico em psicologia assume o fato de que nem o conhecimento é “representação absoluta” do objeto e nem é “imposição absoluta” do sujeito, uma vez que a Psicologia surgiu como ciência no final do século XIX, data posterior ao declínio das filosofias puramente empiristas e racionalistas (sécs. XVII e XVIII).
Após Kant (1724-1804), a relação ou interação entre sujeito e objeto de conhecimento instaurou-se na história da filosofia, da epistemologia e do conhecimento humano como ponto pacífico, com influências permanentes. Como decorrência do avanço da história da filosofia e da epistemologia não é possível dizer, portanto, que exista uma psicologia puramente empirista ou puramente racionalista, exceto na crença de alguns autores, devido principalmente a desconhecimento.
Mesmo a ênfase de teorias e teóricos em polos distintos de um continuum na relação sujeito-objeto não torna possível defini-los como interacionistas ou não interacionistas, sem incorrer em hipersimplificação e em consequente equívoco conceitual e epistemológico. Nenhuma teoria psicológica atual desconsidera a importância das relações indivíduo e seu entorno em seu processo de desenvolvimento.
Não pretendendo me alongar nos princípios de cada autor ou teoria, é evidente que alguns autores em psicologia possuem vinculações mais ou menos explícitas com filosofias ou filósofos particulares. Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934), por exemplo, vincula-se explicitamente ao materialismo histórico-dialético. Jean Piaget (1896-1980) assume influências explícitas de Immanuel Kant. Este último, por ser Kantiano e por ter sido Kant o responsável pela inauguração do “interacionismo” na história da epistemologia, trata-se de um teórico da Psicologia que se auto-intitula interacionista, embora não seja o único a assumir a existência de interação entre objeto e sujeito do conhecimento). Já B. F. Skinner (1904-1990), segundo especialistas notórios, vincula-se à filosofia Pragmatista nos moldes americanos (Charles Peirce, William James etc.).
Não podemos confundir postulados de uma teoria psicológica com postulados da filosofia numa relação direta e unívoca. Também não nos parece correto interpretar uma outra teoria (que não a por nós adotada) com base apenas nossos próprios pontos de vista e sem nos reportar ao postulados da(s) teoria(s) de que falamos.

O caráter ativo e interativo do comportamento

Poderíamos ilustrar as meias verdades acerca da vinculação psicologia/matrizes epistemológicas com qualquer outra teoria psicológica, entendendo que tais matrizes se refiram a algo mais do que o mero encaixe em empirismo, racionalismo e interacionismo. Porém, o behaviorismo radical é frequentemente alvo de apresentação incorreta, especialmente na formação de educadores. 
O Behaviorismo é apresentado como exemplo de teoria “não interacionista”. Porém, é possível destacar inúmeras afirmações de Skinner que contradizem tal suposição: “Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez são modificados pelas consequências das suas ações” (Skinner, 1957 p. 1). A afirmação citada demonstra a incompatibilidade com a noção de um sujeito passivo ou de psicologia “não-interacionista”, uma vez que implica em ação do indivíduo sobre o meio e em interação com o mesmo. Portanto, o Behaviorismo vê seu objeto de estudo: o comportamento operante executado por um sujeito como ativo e interativo por natureza.
Indo além, o comportamento operante se refere a uma parte da atividade total de um organismo vivo (como respirar e digerir) e é o que o indivíduo está fazendo em interação com o mundo físico e social “…é aqui que um organismo está fazendo… É aquela parte do funcionamento de um organismo envolvido em agir sobre ou em interação com o mundo” (Skinner, 1938) . Não existe nada de unilateral na asserção do autor acerca do comportamento humano ou que retire do indivíduo seu caráter ativo e seu caráter interativo na relação com o mundo.
Embora alguns utilizem a expressão “interação indivíduo-ambiente”, esse sujeito não pode ser outra coisa senão um sujeito “comportante”. Para Matos (2001)

“Keller e Schoenfeld, em seu clássico Princípios de Psicologia (1950/1966), colocam como objeto da Psicologia o estudo do comportamento ‘em suas relações com o ambiente’ (behavior in its relations to environment, p. 3), e elaboram afirmando que ‘o comportamento sozinho, dificilmente poderia ser considerado como um objeto de estudo pra uma ciência’ (idem, p. 3). Assim, ao mesmo tempo que reconhecem que o comportamento não pode ser estudado isoladamente, e que portanto o objeto de estudo da Psicologia deve ser a interação, afirmam, não obstante, que existe comportamento e existe interação.

Contraste-se essa afirmação com a anterior de Skinner, ‘behavior is that part of the functioning of an organismo which is engaged in acting upon or having commerce eith the outside world’. Comportamento é uma maneira de funcionar do organismo, uma maneira interativa de ser. Comportamento é interação, comportamento não `mantém` uma relação de interação”. (p. 49)

Em outras palavras não se pode dizer que exista interação entre um indivíduo e um ambiente. Existe comportamento e comportamento é a própria interação entre um indivíduo organismo/sujeito/indivíduo e ambiente ou entorno físico e social. Portanto, comportamento é interação.

REERÊNCIAS

Skinner, B. F. (1957). Verbal Behavior. New York: Applenton-Century-Crofts.

Neto, Esequias C. A. (2012). A Análise do Comportamento é uma abordagem tecnicista? https://comportese.com/2012/04/a-analise-do-comportamento-e-uma-abordagem-tecnicista/ 
MATOS, M.A. (2001). Com o que o Behaviorismo Radical trabalha? Em Banaco R.A. (org.) Sobre Comportamento e Cognição. (v.1) Santo André – SP. EseTec, 2001. p. 49

[1] Apontamentos originalmente realizados para discussão do Projeto Político Pedagógico do curso de Pedagogia no colegiado do referido curso, UNIOESTE – Campus Cascavel, em 2007.

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Maria Ester Rodrigues
Maria Ester Rodrigues é Doutora em Educação: Psicologia da Educação (2005) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PED PUC SP (PPG Conceito 5 CAPES), sob a orientação da Profa. Dra. Melania Moroz. Concluiu o Mestrado em Educação: Psicologia da Educação, no mesmo programa, sob a mesma orientação, em 2000. Concluiu Especialização Lato Sensu em Psicologia Clínica na Universidade Federal do Paraná em 1996 e graduou-se em Psicologia pela mesma Universidade em 1990. É Professora Adjunta Nível D na Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE, Campus Cascavel. Tem experiência na área de Educação e Psicologia, com ênfase em Psicologia da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: formação de professores,contribuições da análise do comportamento à educação, Ensino de Psicologia da Educação. É pesquisador do Laboratório e Grupo de Pesquisas: “Educação e Sociedade” - GEDUS-CCH/UNIOESTE, coordenando a linha de pesquisa intitulada “Contribuições da Psicologia à Educação e Formação Docente”. Também é pesquisadora do grupo "Bases Psicológicas da Educação" - PPG-PED PUC/SP, atuando na linha de pequisa "Contribuições do Behaviorismo Radical à Educação". Autora do livro: Mitos e Discordâncias: Relatos de ex-analistas do comportamento. São Paulo: ESETec, 2011 e outros.
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