“Enrolar” nas tarefas de casa: análises sobre a procrastinação infantil

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Recentemente, foi divulgado um vídeo no qual Roberto Banaco fala sobre o comportamento de procrastinação no programa Sem Censura. Imediatamente, lembrei-me de algumas crianças que frequentam meu consultório, comumente intituladas pelos seus pares sociais de “enrolonas”, pois usam todos os artifícios para adiar ou procrastinar uma tarefa.

De acordo com Kerbauy (1997, apud Hamasaki e Kerbauy, 2001, sp), “procrastinar é o comportamento de se adiar tarefas, de se transferir atividades para “outro dia” que não o atual; deixar de fazer algo ou – ainda – interromper o que deveria ser concluído dentro de um prazo determinado”. As autoras afirmam, ainda, que esse tema tem sido pouco explorado em pesquisas e dividem as pesquisas em três assuntos principais: o procrastinar em hábitos de estudo, em pesquisas clínicas ou na vida cotidiana.

Atento Para o fato que muito tem chamado minha atenção, o de procrastinar as tarefas ou atividades escolares. Mas porque será que isso acontece? Examinarei, agora, as prováveis variáveis controladoras desse comportamento, tendo como base a minha experiência clínica e alguns estudos na área.Em primeiro lugar, devemos nos questionar se a procrastinação reflete uma habilidade adquirida pela criança ou falta de habilidades de resolução de problema e de autocontrole. Observo que esses dois pontos se complementam nos hábitos de estudo e vejamos o porquê. Seguindo o raciocínio do primeiro ponto, a procrastinação aparece como uma habilidade de adiar alguma tarefa, engajando-se em comportamentos concorrentes com o fazer a tarefa. Como exemplos comuns temos a criança que comumente conversa com outras pessoas no lugar de fazer a tarefa, ou exibe outros comportamentos mais “bizarros”, como o mostrado no vídeo abaixo:

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=cqNuccpv9-0&fs=1&source=uds]

No vídeo, fica implícito que a criança passa a “cortar o cabelo” enquanto faz a atividade. Certamente, o cortar o cabelo é um comportamento que concorre com o fazer a tarefa e seja ele adequado ou não, é um comportamento novo que a criança está aprendendo. E é impressionante: em situações como essa, de adiamento, a criança faz qualquer coisa, menos se engajar na atividade acadêmica: joga o material escolar no chão, desenha no caderno, conversa com os colegas ou com outro adulto (é, nessa hora elas adoram conversar) aponta o lápis inúmeras vezes, enfim, a criatividade impera… para ilustrar toda essa variabilidade comportamental gosto de um vídeo no qual o Bob Esponja tem que fazer a redação, mas procrastina, ou “flauteia”, como diz no desenho, várias vezes:

http://www.videolog.tv/video.php?id=608896

O outro ponto importante sobre o comportamento de procrastinação é a ausência do repertório de autocontrole. Skinner, no livro ciência e comportamento humano (1953/2000, p.252) define autocontrole ocorrendo quando “o indivíduo vem a controlar parte de seu próprio comportamento quando uma resposta tem consequências que provocam conflitos – quando leva tanto a reforço positivo quanto a negativo”.

Assim, no comportamento de autocontrole, o sujeito abre mão de uma consequência em curto prazo por consequências em longo prazo. No caso do comportamento de procrastinação acadêmica, a criança abre mão de emitir comportamentos com alto custo de resposta, mas com consequências reforçadoras em longo prazo, para emitir comportamentos com consequências reforçadoras ou menos aversivas em curto prazo.

Operacionalizando o que escrevi acima, temos algumas variáveis em comum nesse caso de procrastinação:

  • · Há um alto custo de resposta e, provavelmente, aversivo, na tarefa;
  • · Em longo prazo geralmente há consequências reforçadoras (como o elogio das professoras e dos pais, o passar de ano, o aprender);
  • · Há atividades concorrentes que envolvem consequências reforçadoras em curto prazo.

O alto custo de resposta geralmente é um problema muito comum criado pelas escolas, que tentam atender às nossas práticas culturais competitivas e, para isso, propõem tarefas exaustivas e enormes para as crianças. Não era raro eu receber crianças do infantil com tarefas de dez páginas por dia! Esse modelo certamente deve ser repensado, pois as tarefas de casa realmente, e com razão, têm tomando muito tempo das crianças, não as deixando se engajar em atividades lúdicas por exemplo.

Quanto às consequências reforçadoras em longo prazo, temos um problema aí: a insensibilidade do comportamento a reforçadores de longo prazo. O repertório de autocontrole, por ser algo aprendido, ainda está “em construção” para a maioria das crianças. Realmente, é muito raro elas ficarem sob controle dessas consequências de longo prazo e, por isso, muitos educadores programam consequências arbitrárias de curto prazo, como “se você estudar vai sair no final de semana”. Não é errado a programação dessas consequências, no entanto, faz-se necessário lembrar que essas consequências devem ser bem organizadas, de forma que sejam esvanecidas (retiradas gradualmente) com o tempo.O ideal é que as crianças estudem no tempo correto, tenham uma rotina, adquiram autonomia e o próprio estudar seja uma atividade naturalmente reforçadora (reforçador natural). Para isso, no entanto, devemos repensar as práticas culturais de escolarização, que envolvam: 1. Programação de contingências individuais e gradativas[1], 2.Organização do local e dos hábitos de estudos, controlando estímulos de forma que aumente a probabilidade de a criança se concentrar na atividade; 3. Repensar e refazer as práticas culturais dos conteúdos de estudo para as crianças; 4. Promoção de ajudas lúdicas e prazerosas para o estudo da criança, que serão retiradas gradualmente, a fim de que aprenda a ser autônoma; 5. Ensinar a criança a seguir regras com consequências lógicas. Muita coisa, hein? Será possível mesmo todo esse controle de estímulos? Talvez seja pouco provável enquanto a educação for massificada e sujeita às regras do capitalismo e competição de mercado…

Referências HAMASAKI, Eliana Isabel de Moraes; KERBAUY, Rachel Rodrigues. Será o comportamento de procrastinar um problema de saúde?. Rev. bras.ter. comport. cogn., São Paulo, v. 3, n. 2, dez. 2001 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452001000200005&lng=pt&nrm=iso>.

SKINNER. Ciência e Comportamento Humano. Brasília: Ed. UnB/ FUNBEC, (1953), 1970.

[1] Vide o programa desenvolvido por Skinner e Keller, intitulado PSI.

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