Édipo Arrasado

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    Édipo arrasado (Oedipus Wreck) é o nome do terceiro episódio de um filme coletivo intitulado “Contos de Nova Iorque” (New York Stories), dirigido por Woody Allen, famoso diretor nova iorquino. O filme, de 1989, conta ainda com episódios dirigidos por Martin Scorcese e Francis Ford Copolla, que retratam um pouco da realidade multifacetada da conhecida metrópole americana.
    O episódio conta a história de um advogado (Sheldon Millstein, representado por Allen) que não consegue se libertar de sua mãe judia. Ela interfere em todos os aspectos de sua vida, seja profissional ou pessoal, costumando falar para os outros todos os defeitos e intimidades do filho, envergonhando-o recorrentemente. O filme começa com Sheldon se queixando da mãe ao terapeuta.
    Ao ser convidada pelo filho para ir a um espetáculo de mágica, a Sra. Millstein é convocada para participar do conhecido truque em que deve entrar em uma caixa que a faz desaparecer, devendo reaparecer em seguida. O problema é que acaba sumindo sem que ninguém saiba onde fora parar.
    A reação inicial de Sheldon, embora sutil, é de satisfação, mas o alívio momentâneo proporcionado pelo sumiço da mãe cede espaço à angústia e vergonha sem fim, quando a mesma reaparece poucos dias depois nos céus de Nova Iorque para continuar a interferir na vida do filho, só que agora tendo toda a cidade como testemunha de seus “cuidados maternos” e de fatos constrangedores da vida do filho.
    Minha curiosidade inicial a respeito do filme estava em saber em que medida um comportamento tão inadequado como aquele apresentado pela Sra. Millstein poderia espelhar um padrão real do comportamento da mãe de Woody Allen. Caso fosse um retrato próximo da realidade, talvez estivesse aí um forte argumento para justificar a lenda ou realidade de que o diretor é um cliente cujo processo psicanalítico é interminável.
    Outra questão por mim suscitada a respeito do filme era imaginar as contingências que controlariam o interesse em expor um drama familiar tão intenso ao grande público. Afinal de contas, quem de nós se sente a vontade para escancarar seus conflitos familiares?
    O filme ganhou uma nova dimensão para mim após ter assistido ao documentário Wild Man Blues, de 1997. O documentário que retrata a turnê de Woody Allen com seu grupo de jazz tradicional de Nova Orleans pela Europa, e em sua parte final revela um momento de intimidade do diretor e músico com seus pais, irmã e sua atual companheira, a filha adotiva de sua ex-esposa Mia Farrow.
    Allen foi acusado por Mia que, aliás, atua em Édipo Arrasado, de abusar sexualmente de um dos filhos adotivos e de ter um caso com sua outra filha Soon-Yi, adotada em um ex-casamento dela. A primeira acusação foi considerada infundada pela justiça, mas Woody Allen e Soon-Yi passaram a viver juntos, provocando na mídia insinuações de que se trataria de um incesto.
    Ao assistir ao documentário e conhecer a verdadeira matriarca e um pouco do seu comportamento frente ao marido, ao filho e à nora, as contingências que poderiam ter controlado a escolha do argumento e do roteiro de Édipo arrasado puderam começar a serem compreendidas. Afinal de contas, o documentário revela uma mãe extremamente autoritária e bem mais difícil de se lidar que a personagem do filme.
    De origem judia, de acordo com o diretor, os métodos severos de educação da Sra. Königsberg (sobrenome verdadeiro da mãe de Allen) o fizeram ter uma infância triste, mas sua relação com a mãe ainda parece ser difícil. Um exemplo dos problemas dessa relação pode ser observado no documentário anteriormente citado. A mãe do diretor lamenta que seu filho tenha escolhido uma profissão voltada para o espetáculo, pois, em sua opinião, ele deveria ter seguido a carreira de farmacêutico, uma carreira “respeitável”. Seu pai parece concordar com essa opinião, ao afirmar que o filho poderia ter contribuído mais tendo sido um bom farmacêutico que como diretor de cinema.
    Quando o assunto voltou-se para a infância e adolescência de Allen, sua mãe falou que o mesmo vivia trancado em seu quarto e se preocupava com aquilo, mas conta isso de forma insensível, apontando o quanto seu filho parecia ser diferente dos demais garotos. Neste momento Allen criticou abertamente a postura de seus pais em sua educação e revelou profunda mágoa ao relembrar que apanhava diariamente. Em resposta à ironia do filho em relação à opinião dos pais sobre sua escolha equivocada de profissão, com o dedo em riste, sua mãe retrucou categoricamente: “Não pense em nenhum momento que você é o que é por você mesmo.”
    Continuando a se queixar, ao mesmo tempo em que ironizava as posições da mãe, Allen expressou sua hipótese de que ela preferiria que tivesse casado com uma mulher judia. Sua mãe concordou e disse que achava errado que tivesse escolhido uma “chinesa”. E concluiu, a despeito da presença de Soon-Yi na mesa (que nem mesmo é chinesa, mas de origem coreana), dizendo que esta era a sua opinião.
    É curioso observar como a Sra. Königsberg parece manter suas convicções e opiniões a respeito do filho intactas desde o tempo em que o mesmo ainda morava com ela. Suas observações o minimizam enquanto pessoa, tratando-o como um filho sem a capacidade de ter opiniões próprias e divergentes das suas. Sua fala parece a de quem tem a verdade, não importando avaliar pontos de vista alheios. Neste contexto familiar, parece-me claro como Woody Allen não conseguiu impor-se para seus pais como uma pessoa madura e profissional competente, apesar de todo o respeito e admiração que conquistou do público e da crítica especializada. Não é de se estranhar, portanto, um sentimento de revolta e um desejo de se fazer respeitado por eles.
    Entretanto, diante da impossibilidade de conseguir produzir uma mudança no comportamento da mãe e da condição aversiva gerada por essa impotência (o que provavelmente deve ser um tema recorrente em suas sessões de análise), uma alternativa que lhe resta seria, pelo menos, alterar a situação de forma imaginária. E nada melhor que o cinema, enquanto campo de seu conhecimento e controle, para poder mudar a forma de contar a história de sua vida.
    Como é aceito em uma explicação externalista da criatividade, contingências reais são a fonte de informações, ideias e sentimentos para a produção artística. Mais especificamente, Skinner esclarece que “freqüentemente manipulamos materiais no mundo que nos cerca para gerar ‘novas idéias’ quando nenhum problema definido está presente” (Skinner, 1953/1989, p. 245).
    É neste sentido que podemos inferir que Édipo arrasado é um filme verdadeiramente autobiográfico que teve a função de apresentar uma solução parcial para os problemas de Woody Allen na sofrida convivência com uma mãe. Escrevê-lo e produzi-lo certamente colaborou para a presença de eventos privados que concorreram com sentimentos de tristeza, raiva e impotência, produzindo um estado privado menos aversivo. Seria a alternativa viável frente à sua falta de controle para alterar a realidade.
    Allen parece abordar o conflito mãe-filho apresentando uma solução ideal para seus problemas: a morte da mãe é amenizada com o seu súbito “desaparecimento”, evitando a exposição clara e direta de um sentimento de vingança e ódio, geradores de culpa e punição social.
    O mesmo tipo de contingência aversiva contribuindo para processos artísticos criativos pode ser observado a partir da consulta à biografia de diversos compositores e da comparação com sua produção artística. Produzir filmes, músicas ou poesias sobre eventos que nos fazem sofrer pode ter a função de aliviar respondentes aversivos. Afinal de contas, quando a realidade nos parece imutável, nada nos impede de imaginá-la de outra forma. De preferência com um final feliz.
    REFERÊNCIAS
    Beaucaire, J.E., Doumanian, J., Meier, K.B. (produtores) & Kopple, B. (diretora) (1997). Wild man blues [Filme em DVD].
    Scorsese, M., Coppola, F.F. e Allen, W. (1989). New York stories [Filme em DVD].
    Skinner, B. F. (1989). Ciência e comportamento humano (J. C. Todorov e R. Azzi, Trad.). São Paulo, SP: Martins Fontes. Publicado originalmente em 1953.

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