Respondendo comentários: Prof. José Antônio Damásio Abib

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Há algumas semanas foi publicada aqui a entrevista exclusiva dada pelo Prof. José Antônio Damásio Abib ao Comporte-se durante o V Encontro Maringaense de Análise do Comportamento (leia aqui). Instigados pelas questões trazidas na entrevista, alguns leitores enviaram comentários e questionamentos, que foram prontamente respondidos pelo professor. Confira os principais abaixo:
Natalie Brito: 
“Excelente entrevista! O senhor poderia comentar sobre as possibilidades aproximação metodológica da análise do comportamento com outras formas de produção do conhecimento? 
Por exemplo, vejo que pesquisadores de linhas críticas de pensamento nas ciências sociais e humanas têm produzido pesquisas interessantíssimas sobre o “tempo”. Como você vê a possibilidade de a análise do comportamento produzir pesquisas nessa área?”

Abib:

Agradeço-lhe por pergunta tão significativa! Alguns filósofos chegam a dizer que o tempo é a questão metafísica fundamental. Concordo com eles e acredito que a análise do comportamento pode contribuir para enriquecer a reflexão e a pesquisa sobre o tempo. 


Antes de tudo sua pergunta coloca-nos diante do desafio da interpretação. Com essa menção, gostaria de lembrar que, em About behaviorism, Skinner declarou que a análise do comportamento é interpretação. Isso significa dizer que a análise do comportamento é uma hermenêutica (desenvolvi essa concepção de Skinner no texto Behaviorismo radical e interpretação, publicado em Sobre Comportamento e Cognição, 2003, v. 11, pp. 57-65). Portanto, o que direi, aqui, sobre o tempo inspira-se nessa verve hermenêutica da análise do comportamento. 
A análise do comportamento pode dizer algo sobre o tempo porque a filosofia dessa análise, o comportamentalismo radical, é um contextualismo, e a metáfora raiz do contextualismo é o evento histórico. Podemos iniciar esse exame observando que Skinner distingue entre o organismo (que seria o resultado da seleção natural, e objeto de estudo da fisiologia); o self (que seria o resultado da evolução cultural, e objeto de estudo da antropologia); e a pessoa (que seria o resultado do condicionamento operante, e objeto de estudo da análise do comportamento). A seleção natural, a evolução cultural e o condicionamento operante têm temporalidades distintas. Que é mais longa na seleção natural do que na evolução cultural e mais longa nessa última do que no condicionamento operante. 
A temporalidade no condicionamento operante (o condicionamento que constitui a pessoa) difere a depender de se a ótica é moderna ou pós-moderna. De uma perspectiva moderna, a pessoa, ou as máscaras, as personas (ser mãe, ser médico, ser professor, etc.) têm uma temporalidade maior ou menor, mas em todos os casos é menor do que a temporalidade da pessoa que estaria sempre presente por trás das máscaras, e que apareceria quando todas elas fossem retiradas, um rosto que se desvelaria com a retirada das máscaras. De uma perspectiva pós-moderna, a pessoa por trás da máscara também seria uma máscara. É bem nesse sentido que Skinner escreve: “Pessoa é derivada da palavra para máscaras através das quais os atores falavam seus versos no teatro Grego e Romano. Uma máscara identificava o papel que o ator estava desempenhando; ela marcava-lhe como um caráter. Usando diferentes máscaras, ele podia desempenhar diferentes papéis. Contingências de reforço operante têm certamente efeitos similares” (Recente issues in the analysis of behavior, 1989, p. 28, meus grifos). 
Eu gostaria de ressaltar que não há nesse trecho de Skinner qualquer referência a uma pessoa sempre presente por trás das máscaras, a um rosto, que se desvelaria com a remoção das máscaras. Mas se pessoa e máscara são assim tão próximos, é melhor dizer que só existem pessoas ou rostos. Só existem pessoas diferentes ou rostos diferentes. Somos um caleidoscópio de rostos diferentes. Somos temporalidades diferentes. Alguns rostos duram mais do que outros, giramos o caleidoscópio com velocidades e ritmos diferentes. As histórias de reforço das pessoas que somos são diferentes. Podemos escolher as pessoas que queremos ser. E podemos esculpi-las prolongando por mais tempo uma história de reforço e por menos tempo outras histórias.

Pedro Sampaio: 

“Não acho que a crença no progresso da humanidade com base na ciência seja algo a ser abandonado. O idealismo excessivo, esse sim tipicamente moderno, fruto do deslumbrado das conquistas científicas, deve ser abandonado. A palavra “progresso” também é problemática e bastante relativa, mas se por ele entendemos que progresso seria encontrar maneiras menos dispendiosas de recursos naturais para conseguirmos nossas coisas, planejar e efetuar ações de modo a produzir menos mal-estar e mais bem-estar (como o trânsito, a poluição do ar, menor desigualdade social, mais oportunidades de acesso à cultura, etc.), maneiras mais eficazes de conseguir algo (como de fato conseguimos tratar bem fobias sociais, transtornos ansiosos, TOCs, ensinar uma independência antes inimaginável a portadores de atrasos de desenvolvimento diversos, entre infinitos outros) e também descrições de mundo que permitam compreendermos, prevermos e agir sobre nossos objetos de estudo (como a seleção natural permitiu uma compreensão diferente da diversidade da vida, como a mecânica quântica supriu algumas lacunas da mecânica clássica, etc.), AÍ SIM – ufa! – acho legítimo acreditarmos em progresso pela ciência.
A ciência pode não ser, sozinha, o tetrapharmakos da humanidade, mas até então não há razões para desacreditarmos que ela é o melhor que tem para conseguir o que almejamos, seja lá o que for. 
A desconfiança com relação à ciência é sempre legítima – e mais, é científica – , mas o excesso é fruto de compreensões ingênuas sobre o que vem a ser ciência, principalmente a partir de pensadores por vezes chamados de “pós-modernos”, como alguns que o Abib inclusive recomenda. É curioso que a análise do comportamento permita que o Abib veja o problema deles em relação à psicologia, rejeitando, por exemplo, um dos maiores ídolos pós-modernos: Lacan. Mas exatamente o que Lacan é a para a psicologia, esses são para outras áreas e o cerne do erro é o mesmo. 
O erro é tomar espantalhos do que quer criticar como a coisa de fato, derrubar esse espantalho e acreditar estar atacando bem o que o espantalho representa (uma falacia conhecida e cerne do pensamento pós-moderno). Um exemplo é a própria visão de ciência e o uso de expressões que acabaram virando inócuos adjetivos morais, como taxar algo de “positivista”, “reducionista”, “cientificista” e outros, sem saber muito bem a que estão se referindo. Da mesma forma, apropriar-se de conceitos de outras áreas, que eles nem seus leitores compreendem bem, para extrapola-los indevidamente na tentativa de justificar suas teses, frequentemente absurdas. Algo que Lacan fazia com a topologia e linguística, e que hoje é feito com mais frequência com a mecânica quântica. 
Há muito pouco a se ganhar na leitura dos “pós-modernos”. Pode-se ganhar com relação à demonstração da ciência como fenômeno social e agência de controle (como demonstra Latour e outros), a circularidade política e quem de fato tem poder nela (como aponta Bourdieu e outros), a arte e literatura como parte de um saber científico (como coloca Deleuze e outros), entre algumas outras (poucas) coisas. Com toda essa parte da fala do Abib eu concordo e acho importante a Análise do Comportamento debater mais isso. Mas tudo isso também já foi apontado, estudado e debatido por pensadores que não são “pós-modernos”. Inclusive feito de maneira MUITO melhor. 
Não é em vão que só existem três locais em todo o mundo onde essa corrente de pensadores tem influência e é considerada relevante: na França, na Argentina e no Brasil. Nada coincidentemente, os mesmos países onde ainda sobrevive a psicanálise. Isso se deve à influência da INTELLIGENTSIA francesa na academia brasileira.”
Abib:

Penso que há somente um aspecto desse texto que se relaciona com a entrevista que concedi a Esequias Neto. Antes de apreciá-lo gostaria de apontar alguns equívocos e vaguezas que atravessam esse texto. 


Em primeiro lugar, transcrevo esta afirmação: “A desconfiança com relação à ciência é sempre legítima – e mais, é científica -, mas o excesso é fruto de compreensões ingênuas sobre o que vem a ser ciência, principalmente a partir de pensadores por vezes chamados de “pós-modernos”, como alguns que o Abib inclusive recomenda” (meu grifo). Minhas referências à ciência foram a filósofos da ciência, como Popper, Kuhn, Feyerabend, Lakatos, Morin. Logo, deveria ser explicado em que sentido esses filósofos têm uma visão ingênua da ciência. Tampouco me referi à ciência com base em autores pós-modernos e, muito menos, principalmente a partir deles (não que a ciência não possa ser avaliada criticamente sob a ótica do pensamento pós-moderno, mas não é esse o meu foco na entrevista). Tampouco se diz quais são os autores pós-modernos que eu teria recomendado em minhas referências à ciência. Observe-se também que a palavra “excesso” é usada sem qualquer explicação. Devemos simplesmente acreditar que há “excesso” porque está dito que há “excesso”. 
Em segundo lugar, transcrevo esta afirmação: “É curioso que a análise do comportamento permita que o Abib veja o problema deles rejeitando, por exemplo, um dos maiores ídolos pós-modernos: Lacan”. Embora não se saiba precisamente o que significa a expressão, “o problema deles”, a referência ao nome de Lacan é de todo improcedente. Pois não há qualquer evidência na entrevista de que eu esteja rejeitando o pensamento de Lacan. Nem também de que o esteja aceitando. Trata-se de um comentário gratuito. 
Em terceiro lugar, o texto dedica-se a acusar Lacan e autores pós-modernos, atribuindo-lhes visões equivocadas sobre a ciência, deslocando, mais uma vez, a discussão sobre a ciência para a esfera dos pós-modernos, e ignorando, mais uma vez, o debate no contexto da filosofia da ciência. Por fim, refere-se a outros autores que teriam analisado “MUITO melhor” temas correlatos; mas mantém sua coerência: mais uma vez, não explica suas afirmações, não explica em que consiste esse “MUITO melhor”. Devemos simplesmente acreditar que é “MUITO melhor” porque está dito que é “MUITO melhor”. 
O aspecto desse texto que se relaciona com a entrevista refere-se ao progresso da ciência. Evidentemente, negar os benefícios da ciência no curso da história do Ocidente seria obscurantismo. Não se trata de fechar os olhos ao óbvio. Mas destacá-los seria ocioso. Trata-se, isto sim, de mostrar os resultados da metanarrativa iluminista, dessa história universal, que, como toda história universal, parece fadada ao fracasso. E o que foi que fracassou na filosofia da história iluminista? A crença na emancipação da humanidade com base no desenvolvimento da razão e da ciência. Essa crença, esteio do pensamento moderno, significa que o desenvolvimento da razão e da ciência libertaria o homem da pobreza, da miséria e da injustiça social. Entretanto, o filósofo francês Jean-François Lyotard (1986/1987) assinalou que foi o desenvolvimento da razão e da ciência, e não a sua ausência, que possibilitou guerras mundiais, totalitarismos, a riqueza do Norte e a pobreza do Sul, o neo-analfabetismo, a desculturação produzida pela crise da escola, o desemprego, o despotismo da opinião e dos preconceitos reproduzidos pela mídia e o subdesenvolvimento. Diz Lyotard que a esse desenvolvimento “já não ousamos chamar-lhe progresso” (p. 115). Mencionei em Teoria moral de Skinner e desenvolvimento humano (2001) que o filósofo alemão Theodor Adorno, não só inquiriu sobre o que poderia ser a educação após Auschwitz, mas que também defendeu a necessidade inadiável de modificar as condições que conduzem à barbárie. Nesse mesmo texto escrevi que Lyotard declarou que “depois de Theodor Adorno, usei o termo ‘Auschwitz’ para significar quanto a matéria da história ocidental recente parece inconsistente relativamente ao projeto ‘moderno’ de emancipação da humanidade” (p.112). Cabe ressaltar ainda que é nesse mesmo sentido que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma, no seu livro Modernidade e Holocausto, que o Holocausto não foi, como frequentemente se pensa, um ato irracional de extermínio, mas, ao contrário, um fruto da racionalidade e da ciência moderna. E, por fim, cabe salientar que, na atualidade, os vínculos da ciência estão tão arraigados com o neoliberalismo que ela se transformou em tecnociência: uma ciência que não é mais alimentada pelos mistérios do mundo, mas, isto sim, uma ciência cevada pela tecnologia, pela indústria capitalista, e pela sociedade de consumo.




Rodrigo César:

“Excelente entrevista, embora curta. Senti falta de perguntas sobre a teoria da equivalência de estímulos, uma vez que o Abib não a considera uma teoria condizente com a epistemologia do Behaviorismo Radical. Teria sido interessante tb perguntá-lo sobre a questão determinismo vs indeterminismo dentro do BR, já que ele foi orientador tanto da Carolina Laurenti (defensora do indeterminismo), quanto do Alexandre Dittrich (defensor do determinismo). Pena o Neto não ter aberto um tópico para o povo formular perguntas para o Abib…”

Abib:

Agradeço-lhe por suas indagações sobre assuntos tão complexos. 


1. Para sondar a eventual relação da teoria de equivalência de estímulos com o comportamentalismo radical o modus operandi é similar ao que sugeri com vistas a indagar a possível relação, seja da psicoterapia analítico-funcional, ou da terapia de aceitação e compromisso, com o comportamentalismo radical. É necessário verificar, não só se a teoria de equivalência de estímulos é solidária com o conceito de radicalização do comportamento, mas também se é possível aproximá-la do comportamentalismo radical nas esferas da ontologia, epistemologia e antropologia. 

2. Com relação à questão do determinismo versus indeterminismo no comportamentalismo radical, eu diria que o texto de Skinner fornece evidências suficientes para ambas as leituras. Eu gostaria de lembrar que Skinner foi um psicólogo conectado com o seu tempo, tendo escrito ao longo de seis décadas, bastante atento à recepção de sua obra, como pode ser verificado nas respostas que endereçou aos seus críticos, não só em About behaviorism, mas também em The Behavioral and Brain Science (1984). Uma vida criativa, como foi a dele, em um contexto intelectual intenso, como o do século XX, com debates tão variados, travados com seus críticos, é natural e auspicioso que possa ser lido sob óticas filosóficas diversas.   Para complicar as coisas, tensões filosóficas não podem ser solucionadas no âmbito da pesquisa empírica. Filosofias envolvem concepções de mundo, visões de homem, teorias do conhecimento, filosofias morais, etc. Os critérios de decisão e escolha buscam sua luz na ontologia, antropologia, epistemologia e ética. Fazemos perguntas como, ‘qual é a concepção de mundo’, ‘de homem’, ‘de conhecimento’, ‘de ação moral’, desta filosofia ou daquela outra? A hora das decisões e escolhas chega após tais indagações. E, penso, há um elemento pessoal ineliminável envolvido em toda escolha filosófica. Que vem à tona quando nos perguntamos se estamos ou não de acordo com essa ou aquela concepção de mundo, homem, conhecimento, ética. 

Em tempo: orientei a dissertação de mestrado de Carolina Laurenti. Sua tese de doutorado foi orientada pelo filósofo, Prof. Dr. Mark Julian Richter Cass, do Departamento de Filosofia da UFSCar. Participei da banca examinadora da tese de doutorado de Carolina.

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