O comportamento religioso

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O sinal da cruz dos cristãos, o prostrar-se dos muçulmanos durante as orações, a cerimônia de circuncisão realizada pelos judeus e o jejuar, realizado por diversos grupamentos religiosos, são exemplos do que a nossa cultura designa como comportamento religioso. Esses comportamentos integram o repertório comportamental de diversos indivíduos que compartilham um ambiente social comum, o qual pode ser uma cultura, enquanto grupo social, ou seus produtos, tais como literatura, arte, política, tecnologias ou sistema de produção. 
Em uma perspectiva analítico-comportamental, o comportamento religioso pode ser entendido como qualquer comportamento verbal ou não verbal que envolve a formação de relações de causalidade entre eventos físicos e eventos que, supostamente, não obedecem às leis naturais. 
Como apontou Skinner (1953/1981), relações comportamentais que envolvem o controle verbal são mais propensas a envolver a formação de relações de causalidade entre eventos independentes entre si. Segundo esse autor, comportamentos cujo reforço é socialmente mediado provem contingências únicas. Contrariamente, para o caso de comportamentos cujo reforço é mecanicamente produzido pela resposta, tais como “arremessar um objeto”, a consequência (nesse exemplo, “objeto longe”) ocorre inevitavelmente, sempre que a resposta ocorrer. Entre a contingência única e a contingência que recorre inevitavelmente, conforme destacou Skinner (1953/1981), “há um contínuo que não pode ser dividido rigidamente em nenhum ponto para se distinguir entre ‘superstição’ e ‘fato’” (pág. 333). Em outros termos, relações entre eventos que se repetem de forma relativamente uniforme e com maior recorrência tornam mais prováveis que descrições precisas dessas relações sejam produzidas. Relações entre eventos que ocorrem poucas, ou até mesmo apenas uma única vez, por outro lado, possibilitam a elaboração de descrições imprecisas e, algumas vezes, místicas, visto que podem relacionar de forma causal eventos que são independentes. 
Essa análise da susceptibilidade à formação de relações acidentais por parte de fenômenos comportamentais que envolvem variáveis verbais lança luz à compreensão dos processos comportamentais que possibilitam a formação e manutenção de crenças e mitos religiosos. Assim, é provável que uma parcela das fontes de controle do comportamento religioso provenha desse tipo de relação acidental entre variáveis funcionalmente independentes, relacionadas apenas verbalmente. 
Apesar de, possivelmente, relações acidentais participarem das contingências que controlam a ocorrência dessa classe de comportamentos, destaca-se que a presença do controle verbal possibilita uma série de relações contingentes que exigem cautela à análise do comportamento religioso tendo por base exclusivamente a noção de seleção acidental ou comportamento “supersticioso”, aos moldes do que foi descrito por Skinner (1948). Tal apontamento remete-nos a uma segunda consideração para a análise de comportamentos religiosos: esses são eminentemente sociais. 
Conforme destacou Herrnstein (1966), os padrões comportamentais religiosos são produtos de uma aprendizagem social. Segundo o autor, o processo de “aculturação” – ou seja, o extensivo processo educacional que antigos membros de uma cultura oferecem aos novos membros – parece incluir a aprendizagem de superstições (p. 45), o mesmo valendo para comportamentos religiosos. Além de aprendidos socialmente, comportamentos religiosos parecem ser, em grande medida, mantidos por consequências mediadas socialmente, seja por um grupo, por outro organismo ou pelo próprio sujeito que se comporta, sob controle de aprendizagens sociais anteriores. Essas consequências podem vir na forma de reforços positivos (ex. prestígio no grupo), reforços negativos (ex. esquiva de supostas punições divinas), punições positivas (ex. críticas do grupo social ou do próprio sujeito que se comporta), punições negativas (ex. perda de títulos ou funções no grupo) ou extinção (ex. ostracismo social para membros “desviantes”). 
Assim, o controle social parece exercer um papel fundamental na instalação e manutenção de comportamentos religiosos, estabelecendo relações de contingência entre o responder e uma série de consequências que, ao longo da vida do indivíduo exposto à aprendizagem dessas relações, se tornaram muito importantes. 
Em suma, diversas variáveis podem ser apontadas como importantes fontes de controle do comportamento religioso, incluindo variáveis verbais, outros tipos de controle social e relações acidentais, as quais podem, isoladamente, influenciar mais ou menos o comportamento, a depender da instância comportamental em análise. 
Referências 
Herrnstein, R. J. (1966). Superstition: a corollary of the principles of operant conditioning. In W. K. Honig (Ed.), Operant Behavior: areas of Research and Application (pp. 33-51). New York: Appleton-Century-Crofts. 
Skinner, B. F. (1948). “Superstition” in the pigeon. Journal of Experimental Psychology, 38, 168-172. 
Skinner, B. F. (1981). Ciência e Comportamento Humano. (J. C. Todorov & R. Azzi, Trads.). São Paulo: Martins Fontes, 5ª. ed. (Originalmente publicado em 1953).

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13 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom o texto, Natália. Aliás sou suspeita para falar deles…
    Parabéns e obrigada, sempre, pela disponibilidade e ajuda.

  2. A religiosidade é realmente um fenômeno complexo que envolve mais variáveis do que é possível abordar em um texto. Uma das variáveis é a busca de sentido, propósito para a vida de um modo geral e para circunstâncias específicas. Esta variável também envolve o comportamento verbal já mencionado, mas de uma forma diferente!

  3. 2 – Porém, reconheço que uma resposta conclusiva é impossível, até o momento, de ser alcançada. Pelo fato de que, atualmente, ainda precisarmos recorrer a alguma crença mundana para encontrá-la/afirma-la.

    Mas, enquanto teólogo, que não é precisa ser necessariamente um religioso, eu possuo uma resposta pessoal. Mas como pessoa dotada de razão sou obrigado a questionar minha própria conclusão. O Resultado, também pessoal, em teoria, é: não existe qualquer possibilidade de afirmar como será ou como não a vida eterna sem adotar um partido de Fé.

    Acredito que seja uma “resposta” extremamente objetiva, mas que desqualifica minha própria resposta, pois obriga, a quem se interessar, a uma reflexão sobre o que é a verdade.

    Visto que é neste ponto que pesa a máxima da Crença. Não a Fé antagônica a Razão. Porém a Fé que, segundo meu entendimento, é a crença naquilo em que se quer, ou realmente, acreditar ser a verdade’. Pois, para alguns convém acreditar que a vida eterna esta na salvação concedida pela Grande Batata Branca Estelar, outros na reencarnação eterna, na ressurreição para uma vida na eternidade, ainda outros no desaparecimento da identidade ou na união universal dela, da identidade, pela eternidade na Terra/céu/inferno/cosmos. Enfim, para responder a esta questão, segundo minha opinião, e ter alguma certeza do que se esta afirmando, a pessoa precisa, necessariamente, acreditar, ter Fé, em algo! Partindo do pressuposto que todo ser humano possui uma possibilidade de escolha daquilo em que acreditar.

  4. 3 – Mas a palavra Fé é fortemente associada à fé religiosa; “Fé (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia) é a firme opinião de que algo é verdade, “sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação”, pela absoluta confiança que depositamos nesta ideia ou fonte de transmissão.“ (Wikipédia, fé); antagônica a Razão, impossibilitando-a de ser entendida, também, com um fruto da atividade racional/lógica de um individuo, adotando-se exclusivamente a ciência cética, ateia, como exclusiva detentora da verdade, razão “Razão é a capacidade da mente humana que permite chegar a conclusões a partir de suposições ou premissas” (Wikipédia, razão). Mas, a Terra já foi considerada chata, e isto fora a verdade em muitas épocas, segundo meu entendimento, as pessoas possuíam Fé de que a Terra era chata porque a ciência, diretamente influenciada por alguma religião ou crença vigente, assim dizia. Ou seja, as pessoas possuíam Fé na razão, lógica, da época, ou a crença que a ciência é ou fora a única detentora de alguma verdade absoluta, que antigamente fora concomitante com a crença religiosa, que formava a noção de verdade da época em questão.

    Digressões a parte, a Fé, como principio de crença e não como antagônica a razão, é hoje dividida, superficialmente, em duas facções de partidos, Ateus e Religiosos. Em que os Ateus possuem sua Fé na ciência comprovadamente empírica enquanto os Religiosos aceitam respostas mesmos cientificas. De maneira torpe, uma pessoa tem “Fédemenos ou Fédemais” em algo que responda suas dúvidas ou em algo que as convençam de outra forma.

  5. Olá Gabriella,

    Concordo com você quanto à complexidade do fenômeno e dificuldade de abordar, em um único texto, todas as variáveis que o controlam (se é que isso seria possível. rs). Gostei da sua consideração em relação à “busca de sentido”. Tentarei tocar nesse ponto em textos futuros.
    Um abraço!

  6. Olá Natália Marques.

    Concordo totalmente com a Gabriela Visquetti em seus dois comentários. Ainda acrescento com a anedota de que a religião é uma “procura pela pergunta fundamental” cuja resposta “sabemos que é 42!”.

    (Eu respondi erroneamente seu post. Não era para esse texto que havia escrito esta resposta que tu se referiu.);

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