Aspectos respondentes e operantes na abordagem analítico-comportamental da ansiedade

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    Parece ser senso comum relacionar problemas de saúde a supostos processos psicológicos que envolvem as emoções. Afinal de contas, quem ainda não ouviu falar que fulano contraiu câncer porque era muito estressado ou que a ansiedade de sicrano seria a causa de sua gastrite? Vamos então fazer uma breve introdução ao fenômeno “ansiedade”, a partir de uma leitura analítico-comportamental.
    Apesar das emoções terem ocupado papel central em outras abordagens psicológicas, seu estudo foi, de início, rejeitado na Análise do comportamento por não terem sido vistas como eventos comportamentais (Forsyth e Eifert, 1996). O pouco interesse dos primeiros analistas do comportamento em investigar as emoções, segundo os autores, estaria relacionado à prevalência do behaviorismo metodológico e do positivismo lógico.
    Uma das conseqüências dessa postura inicial foi a falta de uma definição conceitual precisa de ansiedade na área da Análise do comportamento, o que, na perspectiva de Friman, Hayes e Wilson (1998), dificultou sua investigação, pois não parecia adequado abordá-la a partir de uma conceituação pouco consistente com os princípios do comportamento (Skinner, 1953/1989).
    Para evitar a utilização de um termo que possa suscitar interpretações internalistas, os analistas do comportamento costumam evitar a referência à “ansiedade”, preferindo fazer menção ao “comportamento ansioso”, para reforçar a idéia de que se trata de um fenômeno comportamental. Também é consenso, entre os teóricos behavioristas, o tratamento das emoções enquanto classes de relações funcionais. Sua análise depende, portanto, da investigação das condições ambientais envolvidas na descrição das condições sentidas.
    As primeiras elaborações teóricas da Análise do comportamento sobre a ansiedade foram feitas a partir do modelo de condicionamento respondente, onde a ansiedade é vista como uma resposta condicionada sob controle de estímulos antecedentes que passam a controlar tal resposta em função de seu pareamento com estímulos aversivos incondicionados (Forsyth e Eifert, 1996). Como exemplo, poderíamos pensar em uma pessoa que reage à imagem de um pavio aceso contraindo-se e tapando os ouvidos (respostas originalmente incondicionadas que passam a ser condicionadas em função do pareamento entre o estímulo inicialmente neutro – pavio – e a explosão propriamente dita).
    O modelo respondente explicaria algumas respostas de ansiedade frequentemente relatadas, tais como mãos suadas, boca seca e taquicardia, dentre outras. Também esclareceria como tais respostas podem ocorrer mesmo na ausência do estímulo aversivo, já que cada vez mais estímulos condicionados podem adquirir a função de eliciá-las, constituindo uma longa cadeia de eventos pré-aversivos aos quais o indivíduo torna-se mais sensível, ou seja, mais responsivo de forma ansiosa. Na clínica, isso pode ser facilmente observado nos relatos do cliente ansioso, que identifica mínimos detalhes relacionados aos estímulos temidos, apesar de se encontrar em uma situação segura.
    Skinner (1953/1989) chamou a atenção para o fato de que as alterações emocionais relacionadas à ansiedade só irão ocorrer se houver, entre o estímulo pré-aversivo e o próprio estímulo aversivo, um intervalo de tempo suficientemente grande. Caso contrário, a resposta de esquiva pode ser rapidamente emitida, produzindo, ao contrário, respondentes menos aversivos.
    Ampliando a explicação respondente para o fenômeno da ansiedade, Skinner (1953/1989) procurou analisá-la também enquanto um efeito de uma relação de contingência operante. Neste caso, a presença de alguma condição antecedente presente, quando da ocorrência de uma resposta consequenciada por um estímulo aversivo, produziria dois efeitos de longo alcance no repertório: a eliciação de fortes respostas emocionais e a interferência na frequência de outros operantes, tais como a redução de outros operantes presentes quando da apresentação do estímulo pré-aversivo e o fortalecimento de respostas que resultaram na retirada ou redução do estímulo aversivo.
    Além das respostas de fuga e esquiva diretamente fortalecias pelas contingências que produzem, Skinner (1953/1989) argumentou ser possível a produção de outras respostas ansiosas no repertório de um indivíduo, uma vez que as circunstâncias envolvidas no surgimento de uma resposta fóbica, por exemplo, teriam efeito também sobre várias outras respostas de esquiva que não apenas aquela que produzira o atraso ou a evitação da contingência aversiva. Isso significa dizer que uma única experiência aversiva pode provocar mudanças no repertório como um todo, mesmo após a remoção do estímulo aversivo.
    A relevância da observação clínica dos efeitos operantes da ansiedade pode indicar um prejuízo funcional muito maior, quando se cogita a possibilidade de que a mesma suspenda temporariamente outras atividades que produziriam outros reforçadores. Um exemplo de tal fenômeno é a sensação de paralisação ou freeze, que algumas pessoas relatam quando percebem algum sinal de que um estímulo aversivo poderá ocorrer.
    Um segundo efeito disruptivo do comportamento ansioso no repertório do indivíduo dá-se com o aumento de respostas de fuga e esquiva, levando-o a gastar mais tempo e dedicação na emissão de tais respostas, que poderá culminar com um padrão comportamental evitativo frente às mais diferentes condições ambientais.
    Podemos concluir que o potencial de prejuízo funcional gerado por uma exposição intensa a condições ansiogênicas é imenso, especialmente se considerarmos que efeitos respondentes e operantes produzidos por tal experiência podem se somar.
    Uma análise da ansiedade com base nos modelos respondente e operante auxilia na compreensão do tipo de queixa mais frequente nos consultórios psicológicos, mas não é suficiente para explicar todos os processos comportamentais a ela relacionados. É preciso reconhecer que quando falamos em “comportamento ansioso”, estamos reunindo em uma grande categoria de eventos respostas produzidas por diferentes tipos de relações comportamentais (Tourinho, 2006). Portanto, além dos processos aqui analisados, a análise do comportamento ansioso deve ser estendida para o campo das relações comportamentais com participação de componentes verbais, que poderão ser discutidas em outra ocasião. Para o leitor que tenha maior interesse no tema, sugiro a leitura de Coêlho & Tourinho (2008) e Ferreira, Tadaiesky, Coêlho, Neno & Tourinho (2010), que aprofundam tal discussão.
    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
    Coêlho, N. L.; Tourinho, E. Z. (2008). O conceito de ansiedade na Análise do comportamento. Psicologia: Reflexão e Crítica, 21(2), 171-178.
    Ferreira, D. C.; Tadaiesky, L. T.; Coêlho, N. L.; Neno, S.; Tourinho, E. Z. (2010). Perspectivas em Análise do comportamento, 1 (2), 70-85.
    Forsyth, J. P. e Eifert, G. H. (1996). The language of feeling and the feeling of anxiety: contributions of the behaviorisms toward understanding the function-altering effects of language. The Psychological Record, 46, 607-649.
    Friman, P. C.; Hayes, S. C.; Wilson, K. G. (1998). Why behavior analysts should study emotion: the example of anxiety. Journal of Applied Behavior Analysis, 31, 137-156.
    Skinner, B. F. (1989). Ciência e comportamento humano. São Paulo, SP: Martins Fontes. (Publicado originalmente em 1953).
    Tourinho, E. Z. (2006). Private stimuli, covert responses and private events: Conceptual remarks. The Behavior Analyst, 29(1), 13-31.

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