As “supercrianças” e a permissividade parental

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Resolvi realizar uma discussão com o texto da Elayne, publicado anteriormente, com o título “uma reflexão analítico-comportamental sobre as super-mães” (clique aqui para ter acesso ao texto). 
Nele, a Elayne fala sobre o cansaço das “supermães” de hoje ao lidar com seus filhos e ter várias tarefas paralelas e, também, da necessidade de mudança dessas práticas culturais. Discussão muito interessante. Concordo com os argumentos da autora e, por isso, busco um aprofundamento da discussão iniciada por ela. 
Acredito que devemos tomar cuidado para que os excessos de tarefas dos pais não os tornem permissivos e gerem padrões comportamentais de “supercrianças”. O que chamo de “supercrianças” aqui são as crianças “reis” ou “rainhas”, que mandam em casa, ou cujos pais não suportam ver chorar, por exemplo. Para explicar um pouco do desenvolvimento desse repertório, devo falar do comportamento de chorar, do sentimento de sofrer e da relação entre crianças e educadores nessas situações. 
Quem aqui nunca teve acesso aos pais, que chorosos na fase de adaptação escolar dos seus filhos, ficaram apreensivos na porta da sala de aula porque a criança está chorando nos primeiros dias? Ou que nunca chegou para alguém que estava chorando e disse: “calma, tudo vai melhorar”? Emitimos tais comportamentos, pois desenvolvemos uma sensibilidade ao sofrimento alheio, talvez com resquícios filogenéticos, interagindo com a nossa história de vida e com um aspecto cultural muito forte: o de que sofrer é ruim. 
Mas sofrer não é ruim? Claro que é. A situação de sofrimento elicia respondentes e, ao mesmo tempo, serve de ocasião para emissão de comportamentos de fuga e esquiva. E um grande problema é quando o sofrer se torna mais operante do que respondente. Uma criança pode sofrer porque se machucou ou porque tiraram uma boneca dela, ou ainda porque seus pais foram trabalhar. Há uma diferença muito grande nos três casos citados. No primeiro, sem me delongar em discussões sobre a origem da sensibilidade à dor, temos um estímulo que elicia uma resposta dolorosa. No segundo e no terceiro, há respondentes em jogo, mas o comportamento de sofrer, na forma de chorar, é controlado também por reforço negativo. A criança o faz para retirar algo aversivo do seu meio (para mais informações sobre as relações comportamentais, recomento a leitura de MOREIRA e MEDEIROS, 2007). 
E quem disse que a criança não pode se frustrar? Seja porque perdeu a chupeta, ou porque vai largar a mamadeira, ou porque não ganhou a Barbie? Aí é que entra o papel dos educadores, como observadores da função do comportamento dos seus filhos. Qualquer mãe sabe bem distinguir um choro de cólica e um choro de esquiva das suas crianças. Não acredito que argumentos sobre a acumulação flexível do capital e as ‘multitarefas’ são desculpas válidas para justificar o fato de reforçarem comportamentos de birra dos seus filhos. Weber (2007) chama esse comportamento dos pais voltado à educação de seus filhos de “investimento parental”. 
E digo mais… ao reforçar os comportamentos de birra das crianças, os pais provavelmente fortalecerão os repertórios de oposição do seu filho. Darei um exemplo prático para ilustrar. Mãe e filho estão brincando de montar um quebra-cabeça juntos. A criança diz: “não xei montar mamainha. Quelo ota bincadêla”. A mãe acha linda a fala do filho (e é linda mesmo) e reforça o comportamento de sair da brincadeira, sem desafiá-lo ou questioná-lo. 
Não quero, com esse post, cumprir um papel de polícia dos educadores e nem pedir para que os pais avaliem suas ações 24 horas por dia. Acredito que dosar afeto e limites na maior parte do tempo em que se está com a criança já é um passo grandioso no desafio que é a educação. Conheço demais as olheiras dos pais, que, ao terem filhos, nunca mais dormiram 8 horas de sono, ou que se privam muitas vezes de cuidados pessoais em detrimento dessa pessoinha. Mas acredito que o nosso papel, como estudiosos da educação e da análise do comportamento seja o de alertá-los quanto a uma conduta permissiva frente à educação de suas crianças. 
Pais que têm o estilo educativo permissivo são aqueles que “têm um baixo nível de exigência e muita responsividade (…). Valorizam o filho, oferecem coisas materiais em excesso, consideram os sentimentos, as opiniões e as necessidades do filho, mas deixam suas próprias opiniões e necessidades de lado” (WEBER, 2007, p. 65). A autora diz ainda que “as crianças educadas por pais permissivos tendem a possuir um pior desempenho nos estudos e apresentar comportamentos anti-sociais” (idem). 
Para ilustrar o exposto, semana passada, estava em um restaurante e, em outra mesa, havia um casal com uma criança. Esta, que tinha cerca de 4 anos, estava chorando e dizendo que queria brincar com o I-phone de sua mãe e esta dizia “você passou o dia no computador, não pode”. A criança chorou mais um pouco, rasgou os guardanapos da mesa, levantou-se e correu por todo restaurante e a mãe, constrangida, deixou-a brincar com o I-phone. Detalhes: havia um parquinho cheio de crianças brincando ao lado e os pais não conversaram 1 minuto sequer enquanto estavam no restaurante. 
Pode ser que essa mãe estivesse muito cansada, pois passou o dia trabalhando, ou que a criança estivesse doente ao ponto de não poder brincar no parquinho… Mas tais argumentos não podem servir de regra para a educação. Como diz minha amiga Elayne, vamos repensar nas práticas culturais que levam a essa sobrecarga. 
Finalizo o texto com perguntas para esses “supereducadores”, e incluo aqui as “superavós”, que passam o dia cuidando dos netos. Cadê o investimento parental desses educadores? A qualidade de vida virou sinônimo de possuir tecnologias? Você é capaz de oferecer condições para tudo aquilo que exige de suas crianças (responsabilidade, estudo, moralidade, obediência)? 

Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed.

Weber, L.N.D. (2007). Eduque com carinho: equilíbrio entre amor e limites. Curitiba: Juruá.

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