Quem são os Anonymous e como podemos analisar funcionalmente suas práticas?

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    Texto elaborado em conjunto por Elayne Esmeraldo Nogueira e Esequias Neto



    Quem são os Anonymous? Esta é a pergunta que tem tirado o sono do governo e da mídia nos últimos meses. Vários ataques a sites oficiais, sites de grandes empresas de mídia e de instituições financeiras tem sido atribuídos ao coletivo, que cada vez mais, vem ganhando a simpatia popular. Embora poucos saibam do que realmente estamos falando quando nos referimos a eles, uma coisa é certa: os Anonymous entraram para a história.
    Este texto propõe uma visão analítico-comportamental das práticas dos Anonymous, e, porque não, da prática cultural “Anonymous”, partindo de uma análise skinneriana do contexto social em que vivemos e do surgimento desse grupo! Para isso, vamos começar falando das práticas culturais e das Agências de Controle na visão analítico-comportamental.

    Skinner e as agências de controle
    Skinner (1987) afirma que os grandes problemas sociais são fruto de práticas culturais de alguns grupos que são mantidas por consequências a curto prazo, mas que, a longo prazo, são desastrosas para um grupo maior de pessoas. Para a resolução desses problemas, o autor explica que, muitas vezes, propõe-se uma “conscientização”, ou seja, mostrar às pessoas que consequências seus comportamentos estão gerando. No entanto, muitas vezes a estratégia não é eficaz, pois quando se mostram as consequências contingentes aos comportamentos, elas já o controlam por uma história de reforçamento. O que dificulta ainda mais a mudança, é que quando se propõe agir de outra forma, os novos reforçadores ainda não estão presentes para controlar o novo comportamento.
    O autor lembra ainda que, para seguir conselhos e sugestões de mudanças de comportamento, uma pessoa tem que ter em seu repertório o comportamento de seguir regras. Além disso, os conselhos oferecidos acerca de problemas sociais são descrições de consequências relativamente distantes da emissão de comportamentos, o que diminui a probabilidade de serem seguidos. Ressalta também que determinados comportamentos são ainda mais difíceis de serem modificados, pois embora apresentem consequências punitivas a longo prazo, no momento, são mantidas por consequências reforçadoras.
    Dessa forma, Skinner (1987) propõe que sejam arranjadas contingências imediatas para controlar a emissão desses comportamentos. Ressalta que frequentemente isso é realizado pelas discussões éticas em nossa cultura, e alguns comportamentos que seriam naturalmente reforçados, passam a ser punidos socialmente, ao serem denominados de “vergonhosos”. Nesse sentido, Skinner sugere que os estudiosos do comportamento humano desenvolvam trabalhos que tornem capaz a predição e o controle dos comportamentos de pessoas em grupo, a fim de serem desenvolvidas soluções para os problemas sociais.
    Skinner (1953/2003) dedica metade das sessões de seu livro Ciência e Comportamento Humano ao comportamento de pessoas em grupo, sendo uma delas destinada à questão das agências controladoras, que, segundo ele, são o governo, a religião, a psicoterapia, o controle econômico e a educação. Para o autor, essas agências controlam o comportamento humano de um modo especial, pois frequentemente são grupos mais organizados que o restante da população, exercendo sobre ela o poder de reforçar ou punir seus comportamentos. Em suas palavras:

    “Uma agência controladora, juntamente com os indivíduos que controla, constitui um sistema social, (…) e nossa tarefa é dar conta do comportamento de todos os participantes. Dever-se-á identificar os indivíduos que compõem a agência e explicar porque têm o poder de manipular as variáveis que a agência emprega. E também analisar o efeito geral no controlado, e mostrar como isso leva à retroação reforçadora que explica a continuação da existência da agência.” (Skinner, 2006, p. 365).

    Skinner (1953/2003) afirma que um dos grupos mais obviamente interessados no controle do comportamento humano são as agências governamentais. Historicamente, os governos agem de forma a aumentar ou diminuir a frequência dos comportamentos dos governados, criando teorias e princípios que justifiquem tal prática. O autor propõe a análise dos processos comportamentais pelos quais o governo exerce esse controle. Para isso, torna-se necessário o estudo e a análise do comportamento do governado e como esse comportamento mantém o controle por parte do governo.
    Skinner traz que uma das principais formas de controle do comportamento humano por parte do governo é  se utilizando da punição, logo, uma vez que um grupo de pessoas esteja no poder, provavelmente, vai se utilizar da punição para aí se manter. É interessante notar que o uso da punição por parte do governo é uma técnica que se mantém há muito tempo, mesmo que o grupo que está nessa posição mude, posto que o que mantém o uso dessa técnica é comportamento dos governados. O efeito da punição é o de enfraquecimento dos comportamentos considerados inadequados para o governo. Dessa forma, o governo pune e seu comportamento de punir é reforçado positivamente pelo comportamento da população.

    Diante do que foi apresentado, é possível observar que o controle exercido pelo governo em nossa sociedade é semelhante ao que descreve Skinner, apesar de sua descrição ter sido realizada na década de 50. A maioria dos atos governamentais visa uma diminuição dos comportamentos realizados em massa pela população. As greves e manifestações muitas vezes são enfrentadas pela polícia com o objetivo de dispersão popular. Outra prática relativamente comum aos governos é a extinção dos comportamentos populacionais de lutar pela resolução dos problemas. É possível observar, por exemplo que um sentimento de desilusão vem crescendo nas pessoas. As nossas formas de lutar não são consideradas, as nossas manifestações contra os atos governamentais não são ouvidas. Talvez, pelo que disse Skinner (1953): o governo e as outras agências de controle “(…) são geralmente mais bem organizadas que o grupo como um todo e, frequentemente, operam com maior sucesso”. Nesse sentido, é preciso que a população seja organizada para emitir o que Skinner denominou de contracontrole, que será exposto a seguir.

    Contracontrole diante do controle exercido

    Skinner (1953, 1974) adverte que o uso da punição ocasiona uma série de efeitos colaterais, como a eliciação de respostas emocionais, diminuição de outros comportamentos e o fato do comportamento punido muitas vezes só diminuir na presença do punidor. O autor chama a atenção ainda para um efeito colateral em especial: o contracontrole. O contracontrole é o comportamento do organismo de tentar escapar ao controle quando está sendo utilizada a coerção. Nas palavras de Skinner (1985)

    “Os que são assim controlados passam a agir. Escapam ao controlador – pondo-se fora de seu alcance, se for uma pessoa; desertando de um governo; apostasiando de uma religião; demitindo-se ou mandriando – ou então atacam a fim de enfraquecer ou destruir o poder controlador, como numa revolução, numa reforma, numa greve ou num protesto estudantil. Em outras palavras, eles se opõem ao controle com contracontrole” (Skinner, 1974)

    Diante disso, como analisar o comportamento do governo nos últimos anos e o surgimento dos Anonymous?
    Anonymous como contracontrole

    Segundo os próprios ativistas que se denominam Anonymous, seu objetivo é lutar contra a corrupção e contra o controle governamental e social que ferem os direitos humanos ou que causem sofrimento e dificuldades à maior parte da população mundial. De acordo com um vídeo¹ disponível no youtube, denominado o que são os anonymous e qual seu plano, 22 mil crianças morrem por dia devido à pobreza, situação que atinge 1 bilhão de pessoas no mundo. Paralelamente a isso, o armamento mundial cresce assustadoramente e foram gastos quase 1,6 trilhões de dólares em 2010, representando um crescimento de 50% desde 2001.
    Para os Anonymous, as agências de controle “Governo”, em todo o mundo, são responsáveis por esses dados. E é contra essas agências e seus atos que tentam lutar. Dessa forma, não é difícil comparar os anonymous ao conceito de contracontrole da Análise do Comportamento. Os primeiros ativistas inspiraram-se no filme “V de vingança” que traz uma célebre frase: “O povo não deve temer seu governo. O governo deve temer seu povo.”. O povo teme seu governo devido ao controle aversivo. Mas o governo é que deve temer seu povo, que tem o poder de contracontrole.
    Os anonymous são famosos midiaticamente por hackearem sites do governo, entretanto, nem todos os atos que lhe são atribuídos são de sua autoria. Segundo os ativistas, quaisquer atos que venham a prejudicar uma massa trabalhadora fogem a seus objetivos e ideais. Os sites hackeados do governo cuja autoria é reivindicada pelos anonymous tem o objetivo de chamar a atenção da população para a corrupção e outros atos governamentais relacionados ao órgão responsável pelo site. Como exemplo desses sites, temos os ataques em 2010 às empresas de cartão de crédito, quando, na ocasião, essas empresas haviam bloqueado um site que divulgava informações comprometedoras do governo americano. Outro exemplo são os recentes ataques aos bancos brasileiros, cujo objetivo foi chamar atenção das pessoas aos cortes orçamentários e a corrupção em nosso país. Um outro exemplo das ações dos Anonymous no Brasil, foram os ataques realizados aos sites dos governos da Bahia e do Rio de Janeiro em apoio a greve dos policiais militares e bombeiros.

    Entretanto, os anonymous não podem ser considerados simplesmente um grupo de hackers. Os ataques mencionados acima não constituem a maior parte de suas manifestações, apenas são as mais divulgadas pela mídia. As manifestações em prol da chamada “primavera árabe” tiveram grande apoio dos ativistas. Em nosso país, houve o apoio a diversas passeatas e protestos em diversos estados e cidades. Uma rápida busca no youtube com as palavras “Passeatas Anonymous” traz vídeos de vários destes protestos, que ao contrário do que aconteceu nos países árabes e no Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, não reuniu uma grande quantidade de pessoas. Aparentemente os Anonymous brasileiros não estão no mesmo ritmo dos americanos e europeus, que com ataques mais efetivos, tem promovido mudanças mais práticas na sociedade e gerado efeitos mais significativos em relação à mobilização social.

    Há ainda um site criado pelos Anonymous brasileiros, o CorrupçãoLeaks, que foi desenvolvido com o objetivo de facilitar a denúncia de corrupção em nosso país. De acordo com os ativistas Hackers que coordenam o site, as denúncias devem ser enviadas junto a algum tipo de evidência ou prova que garanta a sua veracidade, para então, membros ligados aos Anonymous ou jornalistas parceiros possam investigar e tornar públicas as denúncias. O site está em plena atividade e várias investigações já estão sendo realizadas.
    Nas ações mencionadas, é possível observar que os comportamentos dos anonymous podem ser analisados como contracontrole aos diversos controles exercidos pelos governos nos diferentes países. Tratam-se de tentativas de escapar ao controle aversivo e chamar a atenção da população à coerção presente em nossa sociedade. Nesse sentido, parece mesmo que os ativistas conhecem a visão de Skinner sobre o controle, que nos chamou a atenção de que quanto maior a organização e o número de pessoas de um grupo, maior é o seu poder. No caso dos anonymous, quanto maior for o número de pessoas reunidas sob esses ideais e quanto maior for sua organização, maior será sua capacidade de contracontrolar o governo.

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    Psicólogo com especialização em Terapia Comportamental pelo ITCR (Campinas, SP), formação em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) e FAP (Terapia Analítica-Funcional) pelo Instituto Continuum (Londrina/ PR) e aluno do curso de formação em DBT (Terapia Comportamental Dialética) do Behavioral Tech | A Linehan Institute (Seattle, EUA). É sócio-diretor da Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento, em Patos de Minas/ MG, onde atende a adultos em terapia individual e de casais, coordena grupos de estudos sobre Terapias Comportamentais e fornece supervisão clínica a outros terapeutas comportamentais. Coorganizou dois livros de Terapia Comportamental: Terapia Comportamental: Dos Pressupostos Teóricos às Possibilidades de Aplicação (Esetec, 2012) e Depressão: Psicopatologia e Terapia Analítico Comportamental (Juruá, 2015). É fundador e diretor geral do Comporte-se: Psicologia e Análise do Comportamento.
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