Entrevista com Alexandre Vianna Montagnero

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Entrevista realizada com o Dr. Alexandre Vianna Montagnero durante o I Workshop de Terapia Cognitivo Comportamental do Triângulo Mineiro, promovido pela clínica Integrare de Psicologia Cognitivo Comportamental. O evento ocorreu no dia 19 de novembro de 2011, na cidade de Uberlândia – Minas Gerais.

Alexandre Vianna Montagnero é mestre e Doutor em Psicologia pela USP na área de processamento de informação nos transtornos de ansiedade é professor Adjunto e coordenador da Pós Graduação em Psicologia Cognitivo Comportamental na Universidade Federal de Uberlândia . Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Processamento de informação, Análise Funcional do Comportamento e processos psicobiológicos, atuando principalmente nos seguintes temas: Modelos cognitivos de ansiedade, processamento de informação emocional e padrão de escolha em situações de consumo. Para acessar o Lattes completo, clique aqui.
Neto – Para começar a entrevista, gostaria de pedir que nos contasse um pouco de sua história. Como entrou para a Psicologia e em que momento começou a se interessar pela Psicologia Cognitiva?
Olá Neto. Primeiramente, gostaria de agradecer pela oportunidade e pelo convite. Em relação à Psicologia, creio que minha história é semelhante a muitas outras. Eu comecei fazendo psicologia como quem embarcava em uma grande aventura no desconhecido. No processo, encontrei várias coisas interessantes e que renderam muitas leituras, reflexões e debates acalorados no campus da faculdade. Fiz grupos de estudo em hipnose, psicologia transpessoal e até me considerei em algum momento um Kleiniano em formação. Vejo que toda essa efervescência e dúvida devem existir ao longo da graduação, para, no fim, tornar a nossa escolha por um caminho mais consciente e maduro.  E foi assim que me aconteceu.
Lá pelo sétimo período me dei conta de que eu era um empirista e que, no fim eu tinha, como pessoa, pouca inclinação às idéias, paradigmas e abordagens sem fundamentação sólida na experimentação e replicação. Comecei a questionar os paradigmas de base intuitiva, e logo me vi no mundo das abordagens cognitivas e comportamentais; pelas quais, pouco a pouco, me apaixonei e comecei a me dedicar. Claro que este processo não foi fácil. Sou docente e percebo como esse embate interno nos alunos pode ser perturbado. Em uma aula eles escutam sobre todas as idéias profícuas e abstratas de algumas abordagens, e em outra, as evidências experimentais e os argumentos lógicos de outra – onde ele acaba se perguntando quem está certo e a quem deve seguir. E se cabe aqui uma dica, não siga ninguém. Escute, pergunte, absorva e reflita. Em um dado momento ficará mais claro qual estilo de compreensão de homem casa melhor com seu jeito de ser. O mais importante disso tudo é ter claro que a maneira que não lhe cai bem pode cair bem para outros, e que sua escolha revela muito sobre vocês e sobre seus óculos de realidade – e não sobre o que é verdadeiro ou não.
Neto – Na mesa redonda em que participou no I Workshop de Terapia Cognitivo Comportamental do Triângulo Mineiro, realizado em Uberlândia pela Clínica Integrare de Psicologia Cognitivo-Comportamental, você falou sobre as interfaces entre a Terapia Cognitiva e a Neurociência.   Que contribuições a Neurociência tem trazido para o desenvolvimento da Psicologia Cognitiva?
Muito amplas e significativas. Explicando: a nossa abordagem cognitiva é repleta de modelos teóricos ricos e complexos, mas que até pouco tempo podiam ser confirmados apenas indiretamente, por meio da observação do comportamento e se valendo de testes, escalas, inventários e observações. Por exemplo, no caso da nossa memória. Eu poderia realizar um teste de recordação de palavras e depois de múltiplas testagens com diferentes pessoas e concluir que recordamos em média um número específico e limitado de palavras, que giram em torno de 7 itens. Estes dados poderiam alimentar modelos teóricos sobre nossa capacidade de armazenamento, limites da atenção, acesso da informação, etc. Contudo, os modelos sempre esbarram no limite do que é realmente verificável e do que é uma suposição advinda da observação.  Assim, em nosso exemplo, a testagem mostra que conseguimos recordar apenas 7 itens, em média, em uma lista de palavras. Mas não prova se isso acontece porque parte da informação se deteriora, porque ela é filtrada ou por outros fatores. É aí que a Neurociência trouxe um importante avanço para a Psicologia Cognitiva, desde as pesquisas feitas com pessoas que sofreram algum tipo de perda ou limitação de parte do cérebro, até pessoas que foram monitoradas através de técnicas de imagem enquanto realizavam tarefas diversas. Nestes tipo de investigação, os limites entre a teorização e observação se tornam mais tênues, e o cientista sincero é convidado a confrontar mais diretamente o choque que pode existir entre o que ele acredita e o que ele está observando.
Como exemplo dessa argumentação, podemos voltar aos exemplos da memória. Já existiram modelos teóricos clássicos e muito bem conhecidos, e estudos que apostavam que nós tínhamos apenas uma memória de curto prazo e uma de longo prazo; uma espécie de grande armazenador de informação. Contudo, o estudo com pessoas lesionadas e com voluntários saudáveis em tarefas e de memória, mostrou que, na verdade, temos vários locais de armazenamento no cérebro, para diferentes tipos de informação. Estes dados ajudaram a fortalecer alguns modelos e a aposentar outros.
O caminho contrário também é comum na ciência cognitiva. Um modelo teórico pode carecer de apoio empírico, e ao ser investigado com técnicas de neuroimagem, se revelar surpreendentemente verdadeiro e preciso, como é o caso do modelo de memória de trabalho de Alan Baddeley. Na Psicoterapia isso também tem sido verdadeiro. Muitas técnicas, paradigmas e estratégias que utilizamos nos diferentes transtornos, tem sido sondadas ao longo do processo de diagnóstico e de tratamento com técnicas das neurociências; o que tem sido de enorme proveito, pois elas contribuem para ver a semelhança de funcionamento cerebral em dadas condições, permitindo também ver quais intervenções são mais eficientes em produzir mudanças em cada tipo de problema. Esses dados tem sido de enorme valia no tratamento do TOC, do estresse pós-traumático, do TDAH, entre outros, pois toda a dinâmica do processo, agora pode ser observada em cada pessoa de maneira inequívoca, ou seja, através da observação de seu aparato cerebral.
Neto – Hoje gostaria de pedir também que nos falasse um pouco das fronteiras estas duas áreas. Existem zonas de conflito ou discordância entre os dados produzidos na Neurociência e aqueles produzidos nas pesquisas em Terapia Cognitiva?
Esses conflitos existem e são muito bem vindos nas áreas experimentais. Se um modelo não consegue resistir à testagem e replicação, ele deve ser revisto. Assim, a abordagem quase matemática e de precisão avançada da neurociência é vital para validar os modelos da abordagem cognitiva, mas vale ressaltar que a neurociência precisa ser alimentada de idéias, dados e elementos para serem investigados. Além disso, os resultados podem ser um completo mistério, ou seja, os dados revelados podem não se enquadrar em nenhuma teoria – o que nos convida a criar, rever e refinar nossa visão de homem. Assim, a meu ver, longe de ser um problema, os choques de dados só ajudam as duas áreas a crescerem.
Neto – Você mencionou também que os Psicólogos Comportamentais de maneira geral perderam uma grande oportunidade ao ignorarem parcialmente o conhecimento produzido pela Neurociência.  Como isto afetou o desenvolvimento da abordagem?
Desde sempre, os behavioristas foram criticados pelo pouco acesso ao universo dentro da pele do ser humano. O universo privado, como nos adverte Skinner, está sujeito às mesmas leis e dinâmicas e, por isso, deve ser estudado. Contudo, a forma de estudo escolhida não passou pela neurociência, pelo menos não de maneira predominante ou decisiva. Pessoalmente, acho que a abordagem está muito bem assim e tem se destacado, produzido e trazido contribuições muito profundas mesmo sem aderir a esse conhecimento. Contudo, penso em como seria se houvesse essa adesão. Pensando que o modelo de seleção por consequências argumenta que as marcas da filogenia ficam registradas no aparato fisiológico da espécie, porque não conhecer isso a fundo e usá-lo como ferramenta para a análise de problemas? Alguns teóricos irão argumentar que isso deve ser feito sim, mas pelo Fisiologista e não pelo Psicólogo. Novamente, são visões de homem e de mundo e cada um procura contribuir à sua maneira.
Neto –  Para finalizar, gostaria de pedir que deixasse alguns conselhos ou dicas para quem se interessa pelo estudo da Terapia Cognitiva.
Coordeno o curso de especialização em Psicoterapia Comportamental e Cognitiva na Universidade Federal de Uberlândia, e entre os mais de 40 alunos da turma atual – vindos de várias cidades da região -, percebo uma grande sede por conhecimento prático, por eficácia e por explicações claras e fundamentadas empiricamente sobre a dinâmica das psicopatologias. Creio que se um aluno tem esse perfil, ou seja, busca uma abordagem baseada em evidências e com foto no pensamento, crenças e aparato de processamento de informação, sem dúvida encontrará na abordagem cognitiva um grande aliado.
A literatura internacional e a pesquisa de base e aplicada são amplas. Basta lembrar que a Terapia Cognitiva é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde como terapia de escolha para uma diversidade de transtornos graves, e também como uma das terapias mais utilizadas nos Estados Unidos. O número de publicações trazidas para o português tem crescido significativamente nos últimos anos, bem como os grupos de trabalho espalhados pelo Brasil criando estratégias adaptadas à nossa realidade cultura. Em suma, o aluno ou profissional interessado nesse paradigma encontrará um universo rico e vibrante de conhecimentos em constante aprimoramento e atualização. Para todos os apaixonados pela fundamentação empírica e generalização na Psicologia, a TCC é um delicioso convite.

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