Entrevista Exclusiva – Prof. Dr. Caio Miguel

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O professor Caio Miguel formou-se em psicologia pela na PUC-SP e obteve seu mestrado e doutorado em Análise do Comportamento pela Western Michigan University sob orientação do professor Jack Michael. Atualmente, ele é professor e diretor do programa de Pós-Graduação em Análise do Comportamento da California State University em Sacramento. O professor Caio Miguel foi editor chefe da revista The Analysis of Verbal Behavior (2008-2011) e serve como membro do conselho editorial de quase todas as principais revistas da área, incluindo o Journal of the Experimental Analysis of Behavior, Journal of Applied Behavior Analysis, The Behavior Analyst e Psychological Record. O professor já ministrou mais de 100 palestras sobre comportamento verbal na América do Norte, América do Sul e Europa, além de ter publicado dezenas de artigos científicos sobre comportamento verbal, relações derivadas e análise de sistemas comportamentais.

Neto – Para começar, gostaria que falasse um pouco de sua trajetória profissional. Como tornou-se Analista do Comportamento e o que te atraiu na área de Comportamento Verbal e Desenvolvimento Atípico? 

Caio Miguel – Fiz graduação na PUC em SP e logo no primeiro semestre me interessei pela análise do comportamento após cursar a disciplina da professora Maria Amalia Andery. A partir daí, me juntei ao pessoal do Laboratório de Psicologia Experimental e comecei a fazer iniciação cientifica. Na época, não existia pós-graduação em analise do comportamento na PUC e, portanto, todas as pesquisas do laboratório estavam sendo conduzidas por alunos de graduação por meio dos projetos de iniciação cientifica e dos trabalhos de conclusão de curso. Fui bastante influenciado pelas ideias da Amalia e da Téia sobre behaviorismo radical e, principalmente, comportamento verbal. Em 1996 e 1997, fomos para a ABAI apresentar nossos trabalhos e conheci muita gente importante como o Dick Malott e o Jack Michael, que sugeriram que eu fosse fazer pós-graduação na Western Michigan. Eu estava interessado em OBM e tinha feito um trabalho de conclusão de curso na área de operações estabelecedoras – dois tópicos pouco explorados no Brasil naquele tempo. Fazia sentido ir embora pra aprender algo novo.

Enquanto estive na Western Michigan (1998-2004), trabalhei nos laboratórios do Jack Michael (que foi meu orientador), da Alyce Dickinson, do Jim Carr e da Linda LeBlanc. Enquanto o Jack fazia pesquisas básicas com humanos na área de comportamento verbal, a Alyce trabalhava com analise de sistemas comportamentais (OBM) e, tanto o Jim quanto a Linda trabalhavam com pesquisas aplicadas com autistas. Assim, acabei trabalhando em projetos de OBM e conduzindo vários estudos em comportamento verbal com crianças autistas durante o minha estada em Kalamazoo. Trabalhei diretamente aplicando procedimentos comportamentais com crianças com autismo em uma escola publica sob supervisão do Dick Malott, fui terapeuta no Centro de Autismo da WMU sob supervisão da Linda LeBlanc e dei consultoria em treino de linguagem juntamente com o Carl Sundberg (irmão do Mark Sundberg). Esses foram os anos dourados da análise do comportamento aplicada: Um aumento absurdo de demanda por profissionais, surgimento do BACB, bastante financiamento de pesquisa, etc.

No útimo ano do doutorado, fui convidado a trabalhar como consultor no programa de intervenção precoce do St. Amant Centre, vinculado a Universidade do Manitoba no Canadá. Trabalhei lá por um ano enquanto terminava a tese (fazia ponte aérea entre Kalamazoo e Winnipeg). Conheci minha esposa no Canadá, que também é analista do comportamento. Quando terminei o doutorado fui trabalhar como supervisor da pré-escola no New England Center for Children onde aprendi muito, não só na área clínica, mas também como fazer pesquisa aplicada em uma instituição. Depois de dois anos de trabalho clínico intenso, resolvi prestar concurso para professor e atualmente sou diretor do programa de mestrado em Análise do Comportamento da California State University, na capital do estado. Quem quiser conhecer mais sobre meu trabalho, pode visitar o website do Laboratório de Comportamento Verbal (www.caiomiguel.org).

N – Observando o desenvolvimento da análise do comportamento nos EUA, na sua opinião, quais aspectos, práticas ou variáveis foram importantes para que esta ciência tenha alcançado o atual patamar de produtividade teórica e aplicada em que se encontra?
C. M. – Eu acho que os analistas do comportamento nos EUA acharam um nicho que ainda não havia sido explorado. Ao invés de competirem em áreas dominadas por outros profissionais, começaram a atuar com uma população negligenciada (ex., indivíduos institucionalizados). Enquanto outros profissionais haviam desistido desses clientes, analistas do comportamento mostraram que não havia limites no que esses clientes poderiam aprender. O mesmo aconteceu na área do autismo. O trabalho de Ivar Lovaas foi fundamental. Ele mostrou que crianças podiam aprender várias habilidades sociais e de comunicação, diferentemente do que os médicos acreditavam. Além disso, publicou estudos mostrando a eficácia e superioridade do tratamento comportamental se comparado a outros tratamentos. Mas os maiores aliados da análise do comportamento foram (e ainda são) os consumidores. Uma legião de pais de crianças autistas começou a exigir do governo que seus filhos recebessem o tratamento mais efetivo. A demanda criou um mercado de trabalho para analistas do comportamento e definiu a profissão. Hoje, a maioria dos centros de formação em análise do comportamento está nos departamentos de educação e não nos de Psicologia. Além disso, temos nosso próprio código de ética, certificação profissional (BCBA) e, em muitos estados, o tratamento comportamental é reembolsado pelo seguro saúde.

Outra área de muito sucesso é a de segurança comportamental (safety). Lembrem-se que aqui, analista do comportamento não é necessariamente psicólogo. O título de psicólogo é dado somente àqueles profissionais com doutorado em psicologia clínica. Assim, existem várias atividades (ex. diagnóstico) que eu não posso exercer já que meu doutorado não é em psicologia clínica, e sim em analise do comportamento. Por esse motivo, não posso, por exemplo, prestar a prova de licenciatura clínica que me daria o direito a clinicar. Além disso, a maioria dos cursos de pós em psicologia clínica aqui oferecem uma formação eclética e não comportamental, por isso muito poucos analistas do comportamento são, também, psicólogos e vice-versa, o que é bem diferente do Brasil. Nos Estados Unidos, a separação entre psicologia e análise do comportamento já ocorreu há muito tempo no âmbito da prática.

N – Comparando aos Estados Unidos, como você avalia o desenvolvimento da Análise do Comportamento no Brasil? O que pode favorecer para que ela cresça ainda mais?  

Já estou fora do Brasil há 13 anos, então nem sei se tenho informações suficientes pra fazer comparações, mas pelo pouco que sei, por meio de interações com parceiros de pesquisa e alunos brasileiros (bolsa sanduiche), acho que é preciso aumentar a demanda para a análise do comportamento. Minha impressão é de que os analistas do comportamento no Brasil ou fazem pesquisa básica ou viram PSICOterapeutas. E a grande verdade é que não existe uma grande demanda pra nenhuma dessas práticas. As pesquisas básicas são pouco divulgadas e poucos são os pesquisadores que publicam internacionalmente – assim o impacto que as pesquisas brasileiras têm no exterior é pequeno. Por exemplo, meus alunos não citam nenhum artigo brasileiro porque eles não lêem em português. Então, quem é o consumidor dessas pesquisas? A língua universal na ciência é o inglês, quer queiramos ou não. Apesar de não ter dados suficientes, eu não acredito que exista demanda para tanto psicólogo clinico no Brasil. O analista do comportamento clínico acaba competindo com psicólogos de todas as outras formações. Ou seja, todo mundo que se forma em psicologia, independente da abordagem, compete no mesmo mercado. Isso pra mim, significa que o analista do comportamento clínico e o psicanalista são funcionalmente equivalentes – se a população/consumidor não vê a diferença, é porque não deve ter diferença. Eu, particularmente, não vejo diferença alguma, e olha que eu tenho muitos colegas trabalhando com RFT e ACT. Eu sempre tive dúvidas se a terapia comportamental no Brasil pode ser definida como análise aplicada do comportamento de acordo com os critérios propostos por Baer, Wolf e Risley em 1968. As interpretações são comportamentais, mas em muitos casos os procedimentos são derivados de outras práticas mais tradicionais. Eu sei que esse tópico é controverso, mas existem centenas de outros analistas do comportamento que pensam como eu.

Outro ponto importante: a análise do comportamento no Brasil me parece muito ideológica e pouco pragmática. Ninguém vai convencer alguém de que a análise do comportamento é superior a outra abordagem por meio de debates, mas sim por meio de dados de pesquisas controladas que mostrem essa superioridade. Sei que há algum um tempo, alguém (um médico ou psicólogo) levantou a discussão de que outras abordagens (ex., psicanálise) também deveriam ser listadas como efetivas (e financiadas) no tratamento do autismo. A comunidade comportamental brasileira elaborou uma resposta que defendia os pressupostos Skinnerianos e discutia concepções incorretas sobre a análise do comportamento, ao invés de enviar uma lista de estudos que mostram a efetividade da análise comportamental no tratamento do autismo. Eu queria ver os estudos que mostram que o tratamento psicanalítico é superior ao comportamental, mas eles não existem. Como dizemos aqui: “Show me the data!”

N – O Brasil vive um movimento social e político em prol da inclusão de pessoas com deficiência nas Escolas Públicas. Em se tratando de Transtornos Invasivos do Desenvolvimento, o que se observa é que muitos professores e gestores enfrentam dificuldades para trabalharem com estes alunos em sala de aula. Existe algum programa que facilite este processo nos Estados Unidos? Quanto aos professores e gestores que as recebem em suas escolas, existe algum tipo de formação especial? Como funciona?

C. M. – Inclusão é um movimento ideológico que surgiu na área de educação especial. Um movimento de anti-discriminação. Se o aluno tem as habilidades necessárias para aprender em uma sala de aula de uma escola pública, então ele deve ser incluído. Mas incluir por incluir é contra-produtivo. Se a criança não tem imitação motora generalizada, comportamento de ouvinte, nomeação, atenção conjunta, só como exemplos, não vai aprender em uma estrutura educacional que é baseada na normatização. Na escola comum, as crianças têm que se adaptar ao currículo. Já na escola comportamental, o currículo é adaptado à criança. Nosso objetivo, claro, é que as crianças sejam completamente integradas e inclusive, percam o diagnóstico. Mas existe uma hierarquia de habilidades sociais, acadêmicas e de comunicação que precisam ser ensinadas e que são pré-requisitos pra frequentar uma sala de aula com crianças típicas. Jogar um aluno que não tem os pré-requisitos pra aprender, incidentalmente, em uma sala de aula da escola pública é irresponsável – esse aluno acaba sendo expulso da escola ou institucionalizado. Entretanto, crianças com deficiência têm que ter os mesmos direitos que crianças típicas – o direito a educação. Se a educação tradicional não funciona com essas crianças, então a escola pública é responsável por oferecer um método que funcione, ou seja, o método comportamental. Por isso, tantas escolas públicas por aqui contratam ou subcontratam analistas do comportamento, ou financiam os custos de escolas especiais que tem uma melhor infraestrutura para atender crianças autistas.


 
N – Pensando sobre os estudos que vem sendo realizados na área de Comportamento Verbal, o que de mais relevante tem sido produzido sobre as dificuldades específicas de crianças com Autismo em iniciar interações sociais por meio de respostas verbais?  

C.M. – Eu sugiro dar uma olhada nos artigos do JABA e do TAVB. Existe uma literatura abundante nessa área. Dois tópicos de pesquisa relevantes são: 1) ensino de mandos usando “como”, “quem”, e “onde” para ações verbais por parte do ouvinte, e 2) ensino de respostas intraverbais. A maioria dos estudos em comportamento verbal vem usando crianças com autismo como sujeitos (veja Marcon-Dawson, Vicars, & Miguel, 2009). Acho que o tópico do momento é comportamento intraverbal. Em um de nossos estudos recentes, descobrimos que a modalidade do estímulo (auditiva ou visual) que deve ser utilizada nos procedimentos transferência de controle para o ensino do comportamento intraverbal, depende da história de reforçamento que cada individuo teve com tal modalidade. Até recentemente, se assumia que crianças autistas eram mais sensíveis a estímulos visuais, ou seja, que a eficácia do procedimento de ensino dependia de características do sujeito e não do ambiente. Esse é apenas um dos resultados mais interessantes que produzimos nesse último ano, e agora precisamos replicá-lo.

N – Poderia falar um pouco, também, sobre as contribuições dos estudos com treinos de ‘falas espontâneas” como iniciadoras de interação social? Quais tem sido os principais avanços nesta área?

C. M. – Essa pergunta e ótima porque cria a oportunidade pra eu criticar o conceito de “falas espontâneas.” O termo “espontâneo” sugere indeterminação. Entretanto, todo o operante é discriminado e, portanto, eu não permito que meus alunos usem o termo espontâneo de forma alguma (pelo menos na minha presença). O que os pesquisadores estão se referindo quando usam o termo espontâneo, é a sensibilidade comportamental a variáveis presentes no ambiente natural. Ou seja, dada a oportunidade, a criança emite um mando novo (ou mando mágico como definido pelo Skinner) sem dica do experimentador/professor. No caso, variáveis motivacionais, mais a presença do ouvinte (SD) controlam a emissão da resposta. O mando novo ocorre quando a criança possui um repertório generalizado de emissão de mandos, além de possuir um repertorio básico de tatos. Ou seja, a criança já aprendeu que a estrutura “eu quero ____” produz consequências mediadas especificas. Se um objeto (ex., boneca) controla a emissão de um tato, na presença de uma operação motivacional que estabelece boneca como reforçador, a criança emite a estrutura “eu quero” mais o tato “boneca” (na presença da mesma), que resulta na nova frase “eu quero boneca.” Os estudos na área de cadeias interrompidas (interrupted chains) lidam com emissão de mandos novos. Existe também uma literatura interessante na área de Pivotal Response Training e Natural Language Paradigm. Nessas duas áreas, se enfatiza o ensino no ambiente natural da criança, utilizando-se vários estímulos e terapeutas na tentativa de promover generalização. Vale a pena também dar uma olhada nos estudos sobre multiple-exemplar instruction (MEI).

N – Geralmente o treino de habilidades verbais e não verbais em indivíduos com desenvolvimento atípico ocorre em ambientes controlados e existe dificuldade em se promover generalização para ambientes naturais. Gostaríamos de saber sua opinião sobre que rumos a pesquisa deve tomar para que esta dificuldade seja superada.

C. M. – Não podemos ensinar em ambientes controlados e esperar que a generalização vá ocorrer automaticamente. Esse método e conhecido por aqui como “train and hope” e nenhum profissional que se preza faz isso. Existem vários métodos para se garantir generalização. Por exemplo, o uso de exemplares múltiplos, instruções diversas, professores diferentes e ensino em ambientes variados. Se o individuo tem dificuldades em aprender em ambientes variados, com estímulos múltiplos, primeiramente, ensinamos em ambiente controlado e aos poucos (sistematicamente) vamos introduzindo variáveis novas. Comportamentos ou repertórios só podem ser considerados aprendidos quando a criança é capaz de exibí-los no ambiente natural.

N – Para finalizar, poderia deixar alguma dica ou conselho para quem deseja seguir o caminho da pesquisa em Análise do Comportamento?  

C. M. – Precisamos criar soluções comportamentais para problemas que afligem a sociedade e estão em pauta como obesidade, educação especial, segurança no trabalho e treinamento de animais. Precisamos aproveitar oportunidades para divulgar nossa ciência na mídia. Portanto, sugiro selecionar um problema socialmente relevante e desenvolver uma linha de pesquisa que vise resolvê-lo. Precisamos de analistas do comportamento ousados, de pesquisas que quebrem tradições e de colaborações internacionais. Minhas experiências colaborando com a Profa. Martha Hubner da USP e, mais recentemente com o Prof. Celso Goyos (e seus alunos) da UFSCar foram fantásticas. Em janeiro, o Prof. Goyos vai trazer os maiores nomes da análise do comportamento na área de autismo para a Escola São Paulo de Ciência Avançada. Espero que o evento influencie novos pesquisadores. Estarei por lá e espero conhecer alguns dos seus leitores.

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5 COMENTÁRIOS

  1. “o analista do comportamento clínico e o psicanalista são funcionalmente equivalentes – se a população/consumidor não vê a diferença, é porque não deve ter diferença. Eu, particularmente, não vejo diferença alguma, e olha que eu tenho muitos colegas trabalhando com RFT e ACT. Eu sempre tive dúvidas se a terapia comportamental no Brasil pode ser definida como análise aplicada do comportamento”
    Neto, isso quer dizer que ele NÃO considera o uso da ACT como análise do comportamento?

  2. Parabéns pela excelente entrevista, Neto. E muitíssimo obrigado pela oportunidade, P
    Dr. Caio Miguel.

    Gostaria de saber se existe alguma escola modelo de ensino formal desenvolvida por Analistas do Comportamento nos EUA.

    Abraços,

    Rodrigo Oliveira

  3. “O analista do comportamento clínico acaba competindo com psicólogos de todas as outras formações. Ou seja, todo mundo que se forma em psicologia, independente da abordagem, compete no mesmo mercado. Isso pra mim, significa que o analista do comportamento clínico e o psicanalista são funcionalmente equivalentes – se a população/consumidor não vê a diferença, é porque não deve ter diferença.”

    A resposta a esse embate está no que ele comentou adiante: precisamos mostrar nossos dados. Precisamos fazer um trabalho diferenciado e mostrar seus resultados à comunidade — científica e geral. As pessoas costumam não procurar analistas do comportamento para tratar de seus comportamentos disfuncionais, mas psicólogos em geral. Caindo “nas mãos erradas”, difunde-se a ideia de que a psicoterapia não é algo claro e efetivo. (Não estou desconsiderando o trabalho dos profissionais das demais áreas, mas acredito que a análise do comportamento ofereça tratamentos diferenciados e mais efetivos.)

    Excelente entrevista, Neto. Pelas palavras do Caio Miguel, temos muito serviço pela frente.

    Abraços.

  4. Acho que vale a pena re-ler Baer, Wolf and Risley (1968) e verificar se a pratica clinica comportamental se encaixa nos 7 criterios que definem a analise aplicada do comportamento. Seria um topico interessante de discussao.

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