Sobre a (in)explicação do massacre em Realengo

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A tragédia no Realengo deixou o brasileiro sedento por uma explicação racional e conclusiva do que pode levar alguém a invadir uma escola, matar 12 crianças, ferir diversas outras e se suicidar quando confrontado pela Polícia. E quem sabe, se tivesse sobrevivido, destruir um dos maiores símbolos brasileiros, o Cristo Redentor, conforme noticiou o jornal O Tempo [aqui], de Minas Gerais. 
Mas a verdade é que não existe uma explicação racional e conclusiva para isto. O máximo que qualquer especialista em comportamento humano, criminalística, psicopatologia ou qualquer outra coisa pode fazer, é levantar hipóteses. Algumas mais condizentes com as evidências do que outras, mas apenas hipóteses. 
A Psicóloga e Analista do Comportamento Ana Arantes, com formação, mestrado em Educação Especial e concluindo do doutorado em Psicologia: Comportamento e Cognição pela UFSCar publicou um excelente texto a respeito, no qual discute esta busca desenfreada por uma explicação e a maneira como os profissionais tem se portado diante dela. Quem quiser ter acesso ao texto completo, poderá acessá-lo por meio deste link [aqui]. 
A autora discute também uma das hipóteses mais plausíveis apresentadas até o momento, que é a de que Wellington era portador de Esquizofrenia. Apresentando dados oficiais sobre a prevalência da doença, ela explica que se de fato a mãe do garoto tiver sido portadora de esquizofrenia, existem grandes chances de que ele também seja. São 10% maiores as chances de desenvolvê-la entre parentes de primeiro grau de pessoas que a possuem. 
Ana Arantes alerta, no entanto, que não há e nem nunca houve o diagnóstico da doença em Wellington, e mesmo que houvesse, ela não poderia ser tomada como explicação para seu comportamento. De acordo com os dados transcritos pela autora, apenas 6,4% dos portadores de esquizofrenia e doenças afins se tornam violentos ou cometem algum tipo de crime, principalmente quando a doença é associada a álcool e outras drogas. Ela compara com os índices de criminalidade e violência entre usuários abusivos (apenas) de álcool, que chegam a 10%. Portanto, se ele de fato é esquizofrênico e agiu como agiu governado por um delírio, não foi a esquizofrenia ou delírio em sí que o fizeram cometer este crime, pois outros 93% dos portadores de esquizofrenia (que também deliram) não fazem nada parecido. 
Conforme explica Ana Arantes:
A história de interações do atirador com seu ambiente físico e social é mais determinante de seu comportamento do que o fato dele ser ou não doente mental, porque é dessa experiência que ele tira o repertório para constituir o delírio e as alucinações” que poderiam vir a influenciar seu comportamento, se é que isto aconteceu. 
A leitura do texto indicado é de extrema importância para quem busca não se deixar levar por explicações levianas sobre o comportamento do rapaz, que se proliferam em tom de verdades acabadas através da mídia. 

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7 COMENTÁRIOS

  1. Esses psicólogos, que aparece na mídia para “explicar” o comportamento de Wellington, parecem ter faltado às aulas de ética. Além disso, não devem ter nenhuma noção de epistemologia para conhecer os limites da sua prática.

    Muito Bom o texto da Ana Arantes.
    Recomendo!
    Bom post Neto.

    Abraço

  2. O texto dela está de fato muito bom! Pois é, esses milhares de pitacos pra nada servem, a não ser para tentar minimizar a ansiedade das pessoas (ou não). Mas, antes de tentar analisar o ocorrido pelas poucas informações vinculadas, outras discussões poderiam ser feitas. Alguém comentou no texto da Ana que deveriam discutir mais sobre o fácil acesso as armas, sobre a violência, e eu acrescento, até mesmo sobre doenças mentais e falta de atenção que possuem… Enfim, acho que esse tipo de discussão seria mais produtiva do que análises precipitadas.

  3. A Ana é muito boa mesmo! Foi uma das primeiras opiniões sobre o tema que considerei de responsáveis.

    Sobre as explicações de nossos “especialistas”, não são só as pessoas que querem ouví-las. Certamente estes especialistas também tem seu interesse em ter as atenções voltadas para sí e suas teorizações sobre o rapaz. É um bom marketing.

  4. Muito bom mesmo o texto dela! De fato, esses milhares de pitacos para nada servem, a não ser para diminuir a ansiedade das pessoas, ou aumentá-la. Alguém comentou no texto da Ana que seria mais interessante discutir sobre o porte ilegal de armas e o fácil acesso a elas, sobre violência, e eu concordo e acrescento, até mesmo sobre doenças mentais e a falta de atenção que possuem… Enfim, creio que esse tipo de discussão seria mais produtiva do que ficar fazendo análises precipitadas.

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