Thiago Calegari fala sobre Good Behavior Game e de seus benefícios para a educação

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Uma das reclamações mais frequentes dos professores de ensino fundamental e médio refere-se aos problemas de comportamento que enfrentam dentro das salas de aula. O Good Behavior Game é uma técnica cujo um dos objetivos é tornar a sala de aula um ambiente de prevenção, desses e de outros problemas. Para falar sobre ele, convidamos o psicólogo e mestre em Análise do Comportamento Aplicada, Thiago Calegari, que tem se destacado na disseminação dessa estratégia pouco conhecida no Brasil.

Foto: arquivo pessoal

Mestre Profissional em Análise do Comportamento Aplicada pelo Paradigma – Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento, na área de processos grupais e prevenção de problemas da infância e adolescência. Sua pesquisa de mestrado consistiu na implementação e avaliação de uma versão modificada do Good Behavior Game (GBG) para promover comportamentos pró-sociais entre crianças, professoras e pais. Possui bacharelado em Psicologia pela PUC-SP e formação de psicólogo pela UNIP. Trabalhou como a) orientador educacional, aplicando estratégias analítico-comportamentais para grupos de estudos, b) coordenador de equipe multidisciplinar de saúde escolar, desenvolvendo atividades educativas para alunos de diversas faixas-etárias sobre alguns temas (uso de drogas, sexualidade e sustentabilidade ambiental), c) coordenador de grupos de orientação vocacional para jovens de ensino médio e d) coordenador de grupos de pais – em escolas – com o objetivo de se discutir questões sobre o relacionamento com os filhos. Atualmente, está trabalhando em um projeto para ampliar a disseminação do Good Behavior Game em escolas. E-mail para contato: twcalegari@gmail.com – Facebook: https://www.facebook.com/thiago.calegari.79

Comporte-se: Para começar, gostaria que explicasse, para os leitores do Comporte-se, o que é o Good Behavior Game?

Primeiramente, obrigado Esequias e Amanda pelo convite para essa entrevista. Fico muito contente por poder falar desse tema que tem pautado a minha atuação profissional nos últimos anos, um tema que eu gosto bastante e, ainda por cima, poder falar para os leitores do Comporte-se: um blog querido pela nossa comunidade!

O Good Behavior Game (ou simplesmente GBG) é um programa escolar que começou no Kansas, Estados Unidos, em 1967 com uma professora de 4º. ano (portanto, crianças na faixa etária entre 9 e 10 anos) que estava ficando frustrada com seus alunos por conta da indisciplina em sala de aula. Seu nome era Muriel Saunders. Ela tinha conseguido o emprego de professora enquanto seu marido frequentava aulas na Universidade do Kansas. Só que os professores mais antigos da escola haviam separado para eles todas as melhores crianças, deixando Muriel com um “abacaxi nas mãos”. Quando estava prestes a desistir de suas crianças, Muriel decidiu tentar mais uma vez depois que conversou com o orientador de seu marido, o Dr. Wolf (um dos co-autores do clássico Algumas Dimensões Atuais da Análise do Comportamento Aplicada). Dr. Wolf perguntou à Muriel se havia alguma ocasião na qual as crianças se comportavam bem. Embora ela inicialmente tivesse respondido “não”, ele insistiu, até que Muriel disse que havia uma atividade na qual as crianças ficavam empolgadas e se comportavam melhor. Essa atividade era uma competição de soletração de palavras. Dr. Wolf, então, acenou positivamente com a cabeça e sugeriu à Muriel: “Que tal se você fizesse uma competição entre equipes para ver quem consegue ser ‘bom’? Assim nascia o GBG.1,2 Vejam, é uma história linda que mostra como uma intervenção já consagrada atualmente – “padrão ouro” – foi concebida a partir das dificuldades do dia-a-dia de uma professora que decidiu dar mais uma chance para seus alunos (e, diga-se de passagem, para o futuro de muitas crianças), ao invés de “cair na tentação” de rotulá-los como “indisciplinados” ou meramente “fracos”.

Em termos de objetivos e procedimentos, o GBG é uma estratégia lúdica de gerenciamento de sala de aula e de promoção de autorregulação, co-regulação e regulação de grupo (uma “brincadeira”, como sugeriu uma das professoras que participaram da pesquisa que conduzimos na cidade de Barueri4). Apesar de algumas variações terem ocorrido ao longo de sua história, em geral a professora combina, em conjunto com as crianças, alguns comportamentos que não podem ser feitos no momento em que o jogo está rolando. Ele é implementado pela própria professora e jogado durante alguma atividade em sala de aula e em alguns dias da semana, incialmente por um período muito curto (por exemplo, dez minutos). As crianças são divididas em equipes de quatro ou cinco membros. Durante o jogo, caso a professora observe alguma criança fazendo um dos comportamentos que não deveriam ser feitos, ela marca um ponto contra a equipe daquela criança. Ao fim do dia vencem as equipes que acumularam menos pontos ou que acumularam abaixo de um critério (por exemplo, quatro pontos ou menos). Às equipes que vencem é concedida uma premiação, que pode ser a entrega de algo tangível (por exemplo, adesivos), permissão para fazerem alguma coisa que em geral as crianças são impedidas de fazer (como sair mais cedo para o recreio ou imitar sons de animais dentro sala de aula) ou participarem de alguma atividade extra planejada pela professora.

Portanto, o GBG não é um “currículo” dividido em módulos ou um conjunto de lições ou discussões sobre comportamentos positivos para a sala de aula (embora refletir sobre esses comportamentos possa acontecer em alguns momentos). Ele é, na verdade, um procedimento para a aquisição e fortalecimento de habilidades em crianças e professoras que contribuem para tornar a sala de aula um ambiente saudável, produtivo e mais feliz para todos, substituindo assim os ciclos de coerção que normalmente são vivenciados por elas. E é justamente esses ciclos de coerção que ajudam a formar o caminho para o desenvolvimento de muitos problemas psicológicos e de comportamento. 2,3

Comporte-se: Recentemente você concluiu um mestrado que fazia uso de uma versão modificada do Good Behavior Game com o objetivo de promover comportamentos pró-sociais entre alunos, professores e pais. Como foi a experiência?

Isso. Foi uma pesquisa aplicada que conduzi lá no Paradigma com o Candido Pessôa e a Roberta Kovac – meus orientadores à época. Trabalhamos com duas turmas de crianças de terceiros anos e quatro professoras de uma escola da rede municipal da cidade de Barueri.4 Foi uma experiência positiva em dois sentidos. No primeiro deles, o GBG produziu resultados promissores do ponto de vista da pesquisa. Os dados de observação direta que coletamos com o auxílio de três graduandas de Psicologia da UNIP do campus de Alphaville mostraram aumentos na incidência e prevalência de comportamentos pró-sociais, definidos pelas crianças como: Ajudar o Colega com a Lição, Pedir Desculpas, Emprestar o Material para o Colega e Brincar com o Colega durante o Recreio. Ao mesmo tempo, pudemos observar que a incidência de comportamentos antissociais permaneceu estável e próxima a zero. Além disso, observamos uma mudança positiva em relação a como as crianças imaginavam que se comportariam em diferentes situações sociais do cotidiano através da aplicação de uma versão simplificada do Inventário de Habilidades Sociais do Almir e da Zilda Del Prette.5 Fizemos essa aplicação em algumas crianças participantes do GBG (ou seja, grupo experimental) e em algumas crianças de uma escola próxima que não estavam participando da pesquisa (ou seja, grupo controle), comparando posteriormente os resultados em ambos os grupos. Por fim, outra medida que utilizamos mostrou que as professoras avaliaram positivamente o projeto.

Em segundo lugar, a experiência foi positiva porque uma das modificações que propusemos nessa versão foi a participação de outras organizações da cidade de Barueri na organização de atividades recreativas para crianças como forma de premiação para os desafios que elas iam cumprindo durante o jogo. Não foram utilizadas premiações tangíveis. Tivemos duas Secretarias Municipais, ONGs, bombeiros, escoteiros, o Conselho Municipal de Políticas Sobre Drogas e biblioteca organizando e executando essas atividades. Da forma como eu vejo, o que fizemos foi operacionalizar um conceito de trabalho em rede dentro do município com um objetivo bem claro, específico e coerente com o modelo de prevenção de Ambientes Nutridores proposto por Anthony Biglan e colaboradores2,3: prevenir problemas psicológicos e comportamentais através do reconhecimento (ou reforçamento) de comportamentos pró-sociais em crianças e professoras.

De modo geral, o que a experiência nos mostrou é que todos os envolvidos – professoras, crianças e as demais instituições participantes – pareceram ter gostado do trabalho. Eu me lembro de uma participante que, ao final do projeto, pediu mais desafios para serem cumpridos (pois nossa versão envolveu alguns desafios que as crianças e professoras precisavam cumprir). Eu me lembro também de uma menininha do quarto ano que frequentemente me perguntava sobre quando a turma dela participaria do projeto. Infelizmente, eu ainda estou devendo essa para ela. Outras crianças de outras turmas, ainda, queriam participar das colagens que eram feitas nos murais que montamos no pátio com a ajuda de alguns grafiteiros de uma ONG do bairro. Até hoje esses murais permanecem lá. Em uma troca de e-mails, um colaborador me disse certa vez: “Deus abençoe o Projeto GBG”. À época, duas matérias foram publicadas no Diário Oficial da cidade falando sobre o trabalho. Ao fim do ano passado, visitei as salas que haviam participado do GBG e ouvi de um menino que eu era “o melhor professor do mundo”. Vejam, eu não sou e não fui professor dele (risos), mas o que eu fiz foi arranjar condições de reforçamento positivo! Se isso faz de uma pessoa “o melhor professor do mundo”, então eu acredito que todos os professores são excelentes professores em potencial. Recentemente, em uma conversa pessoal, uma das professoras que participaram do projeto me disse que o GBG poderia ajudar a sua atual sala de aula.
Enfim, foi um trabalho encarado com muita seriedade e engajamento por parte de todos os envolvidos. Ele poderia ter sido um bom trabalho de mestrado, mas foi melhor justamente por ter tanta gente (e boa!) envolvida.

Comporte-se: Uma pesquisa feita pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, divulgada em reportagem da Folha de São Paulo, apontou que 59% dos alunos relatam que aprendem mais quando fazem atividades em grupo. De que forma o Good Behavior Game poderia ajudar a promover esse tipo de atividade no ambiente escolar?

Por definição, o GBG é um procedimento que envolve um arranjo de condições interdependentes de grupo. Isso quer dizer que todas as crianças na sala de aula, durante o jogo, devem seguir os mesmos critérios e que suas ações trazem as mesmas consequências para todos os colegas da equipe – inclusive para ela. É um trabalho coletivo.

Um dado importante que tivemos com a pesquisa em Barueri é que a subcategoria de comportamento pró-social que esteve na base do aumento total de comportamentos pró-sociais praticados pelas crianças foi Fazer a Lição com o Colega. Essa subcategoria foi nomeada pelas crianças como Ajudar o Colega com a Lição – como mencionei anteriormente. Entretanto, por questões práticas de mensuração comportamental, as observadoras e eu passamos a registrar quaisquer instâncias que sugeriam que uma criança estava fazendo a lição com a outra (porque muitas vezes era difícil identificar o que elas estavam conversando umas com as outras durante uma atividade). Eu lembro de uma criança – um menininho – que começou a fazer a lição em companhia de outros colegas mais frequentemente após o início do GBG. Isso me deu a dica de que poderia ser importante mensurar essa subcategoria da forma como mensuramos até o fim da pesquisa. Então vejam: temos uma evidência de que a nossa versão do GBG colocou as crianças em companhia umas das outras e, nessa interação, elas fizeram a lição. Creio que esse dado já responde, em parte, a demanda apontada pelos alunos na pesquisa feita pela Secretaria de Educação de São Paulo.

Agora, quando ouvimos falar em “aprendizagem em grupo”, podemos pensar em pelo menos dois tipos de aprendizagem. Podemos pensar na aprendizagem de conteúdos acadêmicos – que pode ser facilitada durante as discussões com o grupo de pares – e na aprendizagem de comportamentos sociais – tanto pró-sociais como antissociais – que também é facilitada pelo grupo de pares. A demanda apresentada pelos alunos na matéria da Folha, muito provavelmente, está se referindo ao primeiro tipo de aprendizagem em grupo. A demanda é legítima, mas só acho importante termos em mente que nem sempre essas atividades funcionam como deveriam funcionar, pois são ocasiões que muitas vezes provocam barulho excessivo na sala de aula e conversas não pertinentes à atividade, e onde muitos alunos acabam fazendo mais e outros menos – ou até nada – desfavorecendo a aprendizagem. Se os alunos estão sentindo falta dessa estratégia de grupo, isso pode ser um sinal de que os professores estão evitando o uso dela, mas precisamos entender também o porquê de eles estarem evitando – caso a minha análise esteja correta. Dentro de uma perspectiva preventiva de problemas psicológicos e de comportamento – o que também inclui o sucesso acadêmico como fator de proteção – o GBG atua no grupo de pares no sentido de dar às crianças um senso de propósito, um ideal a ser alcançado durante as atividades de sala de aula que também envolve produtividade. Isto pode ser feito através do estabelecimento de comportamentos importantes para a sala de aula. Mesmo que o estabelecimento desses comportamentos possa não envolver comportamentos acadêmicos específicos, é muito provável que envolva comportamentos importantes para o clima da sala de aula e isso pode ter um efeito indireto sobre a aprendizagem, entendem? Para vocês terem uma ideia do que eu estou falando, há uma versão do GBG chamada PAX Good Behavior Game que utiliza um kernel comportamental que emprega uma linguagem multissensorial (“ver, ouvir, fazer e sentir”) para encorajar as crianças a expressarem seus sentimentos e aspirações para, juntas, construírem “a melhor e mais maravilhosa sala de aula”. Este e os outros kernels previstos na implementação do PAX Good Behavior Game têm o objetivo de promover regulação e co-regulação do comportamento das crianças. Dito de outra forma, esses kernels procuram ensinar às crianças habilidades para adequarem seu comportamento em relação ao grupo de pares e à professora – o que pode favorecer a produtividade e a aprendizagem em sala de aula. Na pesquisa em Barueri – pensando nesse contexto de grupo de pares – o provimento de atividades recreativas para as crianças teve o intuito de oferecer a elas outras ocasiões para a aprendizagem de habilidades pró-sociais. Essa foi uma das razões pelas quais optamos em não trabalhar com premiações tangíveis.

Comporte-se: Em sua opinião, essa ferramenta poderia ajudar a prevenir problemas de comportamento de crianças e adolescentes, caso fosse utilizada em larga escala na rede de ensino brasileira?

Meu palpite é que sim, que vale a pena apostar nela! (risos). O que temos nas mãos é uma “promessa” advinda de um conjunto grande e amplo de evidências – inclusive interculturais – que mostram os efeitos positivos de curto e longo prazo do GBG sobre diversos problemas de comportamento, tais como abuso e dependência de drogas (incluindo o álcool), experimentação e uso diário de tabaco, comportamento antissocial, procura para tratamento de problemas emocionais, ideação e tentativa de suicídio e o sobre desenvolvimento de déficit de atenção e hiperatividade.6,7,9,10,11 Além disso, existe alguma evidência de que o uso do GBG tem um efeito sobre o comportamento do professor no sentido de fazê-lo elogiar seus alunos com mais frequência e fazer menos comentários negativos8. E mais: o GBG não apenas previne problemas de comportamento, ele promove comportamentos que são úteis para a convivência em comunidade, para a aprendizagem e flexibilidade psicológica (ou resiliência, como algumas pessoas chamam). Uma coisa interessante que aconteceu na história do GBG foi que, além de passar por estudos de caso-único desde os anos 60, ele começou a ser estudado em delineamentos de grupo em meados dos anos 80, o que de certa forma dá sustentação para a fomentação de políticas públicas para sua disseminação. O GBG já está em expansão em alguns países e, no Brasil, esforços desse tipo estão sendo feitos desde 2013 pela Flora Lorenzo, Darlene Cardoso e outras profissionais da Coordenadoria de Saúde Mental do Ministério da Saúde que trabalham na adaptação cultural e implementação de uma versão do GBG conhecida no país como Jogo Elos – Construindo Coletivos em treze municípios, se não me engano. Além disso, o Diego Mansano Fernandes e eu estamos envolvidos em algumas conversações para começarmos a trabalhar, também aqui no Brasil, com o PAX Good Behavior Game. No artigo que meus orientadores e eu escrevemos para a edição do ano passado do Boletim Paradigma, nós falamos em “fomentar o desenvolvimento de uma ciência preventiva no país” e tudo isso que vem acontecendo, pensou eu, faz parte desse processo. Bem recentemente, a Livia Fernandes – que é orientanda de mestrado da Profa. Dra. Mônica Gianfaldoni lá na PUC-SP – qualificou seu projeto de pesquisa aplicada com o GBG. Ou seja, o GBG parece estar ganhando o interesse de diversos psicólogos comportamentais aqui no Brasil – o que é muito importante para o desenvolvimento da tal ciência preventiva que mencionei.

Comporte-se: Por fim, quais são os principais desafios enfrentados para uma possível implementação desse tipo de programa no Brasil?

Ao invés de me concentrar nos desafios, eu gostaria de comentar um pouco sobre o que o Diego e eu estivemos fazendo para avançar com o GBG.

A despeito do fato da Educação Brasileira ainda tirar pouco proveito do conhecimento prático produzido pela Ciência do Comportamento, apesar da crise econômica e política pela qual o país passa e que impõe limites sobre alguns gastos públicos, apesar da descontinuidade de projetos quando há trocas de governos e embora os professores tenham sido levados a acreditar que eles podem fazer menos pelas crianças do que de fato são capazes de fazer para salvar o futuro delas e que eles devem se limitar apenas a ensiná-las a ler e escrever, nossa experiência diz que ainda podemos continuar tentando (risos).

Essa pergunta logo me faz pensar em uma política pública e quando pensamos em políticas públicas, eu lembro dos vereadores, prefeitos e secretários. A menos que tenhamos pessoas de dentro da Administração Pública que “comprem a ideia” – como felizmente aconteceu com o Elos – o caminho inicial para a disseminação tem de ser outro. Políticas públicas não se fazem apenas com políticos eleitos; qualquer cidadão preocupado com questões que afetam a sociedade e procuram trabalhar para a amenização dessas questões pode desempenhar um papel importante.

Em nossa experiência nesses últimos sete meses, recorrer ao poder público não tem funcionado. Além dos obstáculos que qualquer leitor do Comporte-se pode imaginar, o GBG é um projeto relativamente novo no país, com uma disseminação ainda pequena e sem resultados robustos para a realidade brasileira. Foi exatamente isso que eu quis dizer quando falei que o que temos é uma “promessa”. Portanto, um trabalho de convencimento inicial precisa ser feito. O Diego e eu temos feito isso através da apresentação da pesquisa que fizemos em Barueri e dos dados obtidos com as pesquisas em outros países, sobretudo as que mostram os efeitos de longo prazo do GBG. Mas talvez isso não seja convincente por si só, pois o nosso país não possui a prática de resolver problemas a longo prazo. Portanto, aliada a essa estratégia, temos também tentado enfatizar os efeitos positivos de curto prazo, o que é outra vantagem do GBG. Por exemplo, o fato de crianças se engajarem, cada vez mais, em comportamentos pró-sociais e professores, cada vez menos, em técnicas coercitivas para lidarem com seus alunos já são indícios de que alguma prevenção está em curso, e isso pode ser conseguido já em algumas semanas com o GBG. O investimento para a implementação do GBG também é algo procuramos ressaltar, visto que a razão custo/benefício ou retorno de investimento é favorável (pelo menos na experiência de outros países). Em implementações iniciais ou “projetos-pilotos”, os custos podem ainda serem menores e já representam um importante passo rumo à disseminação, pois um professor devidamente capacitado para aplicar o GBG pode se tornar um agente multiplicador.

Uma das características marcantes da pesquisa em Barueri – como já mencionei anteriormente – foi a participação de outras instituições além da escola. Essa estratégia me permitiu conhecer e trabalhar com muitas pessoas da cidade. Em janeiro de 2016 eu fiz uma reunião com diversas Secretarias Municipais de Barueri e também convidei o Promotor da Vara da Infância e Juventude – o Dr. Wakim – que é um promotor bem engajado, que leva muito a sério o trabalho que faz e vê com bons olhos o emprego de métodos científicos para melhorar a vida do público com o qual trabalha. Ele havia conhecido o GBG em um módulo de um curso sobre dependência química que fez na UNIFESP. Durante essa reunião, ele sugeriu que eu também convidasse as ONGs da cidade para participarem do GBG. Eu acatei a recomendação dele e, hoje, estamos em contato com uma delas para tentarmos viabilizar a parceria com o PAX Good Behavior Game que eu mencionei. Como o GBG traz a “promessa” de aliviar problemas de saúde pública que afligem a nossa sociedade, e como muitas ONGs já trabalham no sentido de reduzir esses problemas, o Diego e eu pensamos que poderia ser uma boa ideia “correr atrás delas” e buscar apoio.

Outra estratégia que eu particularmente tenho adotado é divulgar, ao máximo e para o maior número de pessoas, o que é o GBG e no que ele pode ajudar, inclusive em conversas informais. Não raro eu aproveito um assunto do cotidiano, uma notícia, e faço um paralelo com o GBG. No último dia 4, por exemplo, fui convidado por um colega meu, o Adriano Beat, que é o atual presidente do Conselho Municipal de Juventude daqui de Barueri para participar de uma reunião e, na ocasião, pude apresentar o GBG para um colegiado. Em maio fui convidado pelas pessoas de uma igreja para dar uma palestra sobre o seriado 13 Porquês e na ocasião também pude falar da pesquisa que fizemos e como o GBG e a noção de Ambientes Nutridores poderia prevenir os problemas enfrentados pela protagonista da série, a Hannah Baker. Ao final do ano passado alguns funcionários da Secretaria de Educação de Barueri foram remanejados e mesmo desempenhando uma função para a qual eu não tinha estudado, eu consegui falar da minha pesquisa para um grupo de professores em um horário de HTPC. Basicamente, o que tem motivado essas minhas pequenas ações é “levar a mensagem do GBG aos quatro cantos” (risos). É provável, contudo, que um trabalho mais consistente e junto aos professores deva ser feito, por uma simples razão: são eles quem, de fato, sofrem na pele as dificuldades do dia-a-dia da sala de aula – tal como a professora Muriel Saunders.

E por falar em professores – e já encaminhando nossa entrevista para os “finalmentes” – algo que tem me deixado muito surpreso e otimista com a nossa abordagem é que eles não estão se opondo a termos como “reforço” ou “reforçar” – pelo menos na minha experiência. Muito do nosso baixo ibope na Educação, penso eu, foi provocado por uma associação errônea do “Behaviorismo” com a punição, mas a noção de Ambientes Nutridores, por exemplo, faz essa associação cair por terra. Nem aquelas colocações polêmicas do tipo “reforço é suborno” eu tenho presenciado. Da forma como eu vejo, isso nos deixa mais à vontade para falarmos da nossa Ciência, que é boa e pode ajudar na prática. E mesmo que os professores ainda não estejam totalmente conscientes do poder benéfico que eles têm (“O Poder de Uma Pessoa”, como diria o Dennis Embry), alguns deles que eu conheci durante a minha jornada até aqui mostraram boa-vontade em querer ajudar suas crianças da melhor forma possível. Isso é um requisito importante e o GBG pode ajudá-los nessa empreitada!

Bom, essas são algumas coisas que me ocorrem quando converso sobre o GBG ou Ambientes Nutridores. Agradeço mais uma vez a vocês, Esequias e Amanda, pela oportunidade, espero ter contribuído com o blog e ajudado os leitores do Comporte-se a entenderem um pouquinho sobre o que é o GBG. Espero também ter aguçado a curiosidade de vocês. (risos)

Deixo abaixo algumas referências sobre o assunto e meu e-mail, caso alguém queira entrar em contato. Abraços a todos e todas.

E-mail: twcalegari@gmail.com

Referências

1. Barrish, H. H., Saunders, M., & Wolf, M. M. (1969). Good Behavior Game: effects of individual contingencies for group consequences on disruptive behavior in a classroom. Journal of Applied Behavior Analysis, 2, 119-124.

2. Biglan, A. (2015). The Nurture Effect: How the Science of Human Behavior can improve our lives and our world. Oakland, CA: New Harbinger Publications, Inc.

3. Biglan, A., Flay, B. R., Embry, D. D., & Sandler, I. N. (2012). The critical role of nurturing environments for promoting human well-being. American Psychologist, 67(4), 257-271.

4. Calegari, T. W. (2016). Good Behavior Game: Avaliação de uma estratégia lúdica e multi-interativa em ambiente escolar para promover comportamenatos pró-sociais entre crianças, professores e pais. (Dissertação de Mestrado), Associação Paradigma – Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento, São Paulo. Disponível em https://docs.wixstatic.com/ugd/fdb184_26f287736e464bf8805c0dd8b1538ace.pdf

5. Del Prette, A., & Del Prette, Z. A. P. (2005). Sistema multimídia de habilidades sociais de crianças. São Paulo: Casa do Psicólogo.

6. Kellam, S. G., & Anthony, J. C. (1998). Targeting early antecedents to prevent tobacco smoking: findings from an epidemiologically based randomized field trial. American Journal of Public Health, 88(10), 1490-1495.

7. Kellam, S. G., Brown, C. H., Poduska, J. M., Ialongo, N. S., Wang, W., Toyinbo, P., Petras, H., Ford, C., Windham, A., & Wilcox, H. C. (2008). Effects of a universal classroom behavior management program in first and second grades on young adult behavioral, psychiatric, and social outcomes. Drug and Alcohol Dependence, 95, 5-28.

8. Leflot, G., van Lier, P. A. C., Onghena, P., & Colpin, H. (2010). The role of teacher behavior management in the development of disruptive behaviors: an intervention study with the Good Behavior Game. Journal of Abnormal Child Psychology, 38, 869-882.

9. Poduska, J. M., Kellam, S. G., Wang, W., Brown, C. H., Ialongo, N. S., & Toyinbo, P. (2008). Impact of the Good Behavior Game, a universal classroom-based behavior intervention, on young adult service use for problems with emotions, behavior, or drugs or alcohol. Drug and Alcohol Dependence, 95, 29-44.

10. Van Lier, P. A. C., van der Sar, R. M., Muthén, B. O., & Crijnen, A. A. M. (2004). Preventing disruptive behavior in elementary schoolchildren: impact of a universal classroom-based intervention. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 72(3), 467-478.

11. Wilcox, H. C., Kellam, S. G., Brown, C. H., Poduska, J. M., Ialongo, N. S., Wang, W., & Anthony, J. C. (2008). The impact of two universal randomized first- and second-grade classroom interventions on young adult suicide ideation and attempts. Drug and Alcohol Dependence, 95, 60-73.

12. Saldaña, Paulo. Em SP, alunos do município querem tecnologia, mas rejeitam reforço, 2017. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2017/07/1903081-em-sp-alunos-do-municipio-querem-tecnologia-mas-rejeitam-reforco.shtml>. Acesso em: 21 de jul. 2017.

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