A FAP e a psicoterapia em grupo

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A proposta deste texto é discorrer sobre a Psicoterapia Analítica Funcional (FAP), suas contribuições e orientações gerais quanto aos cuidados necessários para o manejo de grupos psicoterapêuticos. A leitura de “Terapia Analítico-Comportamental em Grupo” (Delitti & Derdyk, 2008) me inspirou para desenvolver esse tema, pois os autores fornecem dicas de elaboração e manejo de grupos, inclusive dispondo de um capítulo específico sobre a relação entre FAP e grupos. Leitura fácil, bacana, e repleta de exemplos. Por isso, recomendo também!

Pressupostos da FAP e o contexto de grupos

A FAP, quando aplicada na psicoterapia individual, tem como focos as dificuldades interpessoais do cliente e a relação terapêutica (Tsai, Callaghan, & Kohlenberg, 2013). É a partir da relação terapêutica que se torna possível criar maneiras novas e efetivas de auxiliar clientes com dificuldades de relacionamentos interpessoais, contribuindo para que eles obtenham relações genuínas e íntimas. Para a condução da FAP, atenta-se para os comportamentos clinicamente relevantes (CRB em inglês, clinical relevant behavior), sejam tanto os comportamentos alvos de mudança – CRBs1 – quanto os comportamentos de melhora – CRBs2 (Kohlenberg & Tsai, 1991).

O ambiente psicoterapêutico individual é propício para a identificação de comportamentos clinicamente relevantes (observados na relação terapeuta/cliente), e isso também acontece no grupo. A psicoterapia em grupo pode ser um contexto potencialmente mais amplo para a emissão, evocação e consequenciação de comportamentos, pois o cliente está mais exposto a relações sociais complexas e mais similares ao seu ambiente natural. Além disso, diferentemente da terapia individual (em que o terapeuta é ambiente para a emissão de comportamentos clinicamente relevantes), os comportamentos de todos os integrantes do grupo podem ser funcionais uns para os outros (Delitti & Derdyk, 2008). Disso, tem-se que o processo de mudança clínica ocorre tanto pela conduta do terapeuta quanto pelos demais integrantes do grupo.

Assim como no contexto individual, os comportamentos clinicamente relevantes são observados a partir de conceituações de caso de cada integrante do grupo, levando em conta as topografias de comportamentos clinicamente relevantes que seriam emitidos na relação com o terapeuta, co-terapeuta (se assim houver) e outros membros do grupo. Por exemplo (Hoekstra, 2008), uma cliente com queixa de se sentir isolada, com dificuldades de interações íntimas e de ser ouvida, teve em sua conceituação de caso as seguintes topografias de CRBs1 e CRBs2 relacionadas ao grupo:

– CRBs1: falar constantemente interrompendo os outros integrantes; relatar somente conteúdos que dizem respeito ao que fez durante a semana até a psicoterapia, centrados na rotina do dia-a-dia; pedir sempre para começar a fala no grupo; falar sem pausas (o que impede que outros membros do grupo consigam entrar em um diálogo com ele).

  – CRBs2: pausar as falas, permitindo que outros membros do grupo e o terapeuta dialoguem com ela; relatar como se sente em relação aos eventos que descreve (a fim de enfatizar o relato de sentimentos e não de relatos do dia-a-dia); demonstrar consideração e aceitação do feedback feito pelo terapeuta e pelos integrantes do grupo.

As Cinco Regras da FAP (Tsai, Kohlenberg, Kanter, Holman, & Loudon, 2012) são úteis e podem ser levadas em consideração no grupo. Observar os CRBs (Regra 1), evocar os CRBs (Regra 2), responder aos CRBs (Regra 3), observar os efeitos potencialmente reforçadores do comportamento do terapeuta – e, nesse caso, dos outros clientes do grupo – em relação aos CRBs emitidos (Regra 4), e fornecer interpretações e implementar estratégias de generalização (Regra 5) assumem uma forma amplificada, pois não dependem somente do comportamento do terapeuta para ocorrerem, mas da interação entre os integrantes do grupo e da emissão mútua de comportamentos clinicamente relevantes. Levando-se em conta a importância do papel do terapeuta e do co-terapeuta na mediação do grupo, falarei a seguir sobre alguns aspectos que devemos nos atentar para conduzir uma psicoterapia em grupo com FAP.

O terapeuta em uma psicoterapia em grupo com FAP

A utilização da FAP em grupos é uma maneira de compreender os pressupostos dessa estratégia para além da psicoterapia individual, utilizando seus mecanismos e aprimorando-os num contexto amplificado. Contudo, trabalhar com a FAP não elimina a necessidade de perpassar por todas as etapas de construção de um grupo; é importantíssimo estruturar seu funcionamento, fortalecer os combinados de comportamentos cooperativos de sigilo e confiabilidade entre os integrantes, criar um ambiente de autoexposição e, predominantemente, com consequências positivamente reforçadoras (Delitti & Derdyk, 2008).

Outro ponto que merece atenção: geralmente, clientes que aderem à psicoterapia em grupo almejam serem compreendidos, ouvidos e auxiliados pelos outros integrantes do grupo para além do terapeuta, normalmente tendo conhecimento de que receberão feedback dos demais. Isso pode ser uma característica facilitadora para a utilização da FAP. Porém, do mesmo modo, a inserção da estratégia deve ser gradativa, com a finalidade de diminuir a probabilidade de gerar resistência por parte dos integrantes (Delitti & Derdyk, 2008).

A condução de uma psicoterapia em grupo requer flexibilidade, trocas genuínas e sensibilidade ao processo de mudança clínica. O terapeuta pode hipotetizar sobre o que está sendo reforçador para o grupo a partir da observação dos CRBs (Regra 1). Ao descrever sobre o que está sendo reforçador, o terapeuta pode evocar comportamentos clinicamente relevantes (Regra 2) e respondendo contingentemente aos comportamentos emitidos no grupo (Regra 3). Para fazer isso, seguindo o exemplo acima, o terapeuta pode dizer o quanto gosta quando a cliente pausa sua fala e deixa que o grupo fale (Hoekstra, 2008). Pode, também, responder contingentemente por meio de uma autorrevelação de como se sente quando a cliente expõe seus sentimentos ao invés de se ater a conteúdos diários: “(…) sinto que agora estamos conseguindo conhecer você realmente, atrás de todas essas palavras” (Hoekstra, 2008, p. 191). O pedido de feedback dos membros do grupo quanto ao que o terapeuta estava sentindo pode, nesse caso, aumentar o contato da cliente com os outros integrantes.

Com a inserção gradativa da FAP no grupo (após sessões iniciais para conceituações de caso coerentes e identificação dos potenciais CRBs que surgirão nas sessões), é importante que o terapeuta esteja atento e avalie continuamente suas reações e a dos demais integrantes do grupo quanto às condutas uns dos outros (Delitti & Derdyk, 2008). Assim, passa-se a observar os efeitos pontencialmente reforçadores do ambiente em relação à emissão de comportamentos clinicamente relevantes (Regra 4). É importante que o terapeuta esteja atento, já que alguns comportamentos (tanto seus quanto dos integrantes do grupo) podem ter função punitiva e não reforçadora, devendo haver o responder contingente a essas situações.

O fornecimento de interpretações sobre os comportamentos clinicamente relevantes (Regra 5) pode ocorrer pela postura do terapeuta em relatar hipóteses sobre a função do comportamento do cliente na interação com o grupo. No mesmo exemplo apresentado aqui, o terapeuta pode dizer “quando você fala, outras pessoas podem ter dificuldade de interagir com você. Parece para mim que isso se torna bastante solitário. Posso oferecer uma hipótese?” (Hoekstra, 2008, p. 192). A partir disso, pode fornecer outras interpretações que digam respeito ao comportamento da cliente de relatar somente conteúdos do dia-a-dia, deixando de enfatizar como realmente se sente, o que pode dificultar a interação com os outros integrantes. A interpretação da função do comportamento da cliente pode diminuir a frequência de relatos do dia-a-dia (CRB1), facilitando a conexão com os outros integrantes (CRB2). Novamente, o pedido de feedback sobre essa interpretação, para que outros membros do grupo digam, pode ter função naturalmente reforçadora para os comportamentos de melhora da cliente.

A implementação de estratégias de generalização (que também contempla a Regra 5) deve ser utilizada com atenção e cuidado, uma vez que os comportamentos apresentados pelo cliente podem ser semelhantes em sua forma no ambiente natural, mas é importante que sejam semelhantes em sua função. O foco no aqui-agora cria condições para que haja correspondência entre o dizer (interpretações) e o fazer (comportamentos emitidos na sessão), presumindo-se daí a generalização de comportamentos de melhora para fora do grupo. Observando esse aspecto, o treino e a repetição se tornam importantes para obter variabilidade comportamental (Delitti & Derdyk, 2008). Tarefas de casa devem ser propostas no grupo levando em conta sua função, assim como na psicoterapia individual.

No setting grupal, os terapeutas podem observar, mais facilmente, os comportamentos dos clientes na relação de uns com os outros. Oportuniza-se, com isso, intensa auto-observação e descrição de seus comportamentos, bem como consequenciação por parte dos próprios clientes no aqui-agora da sessão, potencializando a interação entre ambientes grupo e extra grupo (Delitti & Derdyk, 2008).

Referências

Delitti, M., Derdyk, P. (2008). Terapia analítico-comportamental em grupo. Santo Andre, SP: ESETec.

Hoekstra, R. (2008). Functional analytic psychotherapy for interpersonal processgroups: abehavioral application. International Journal of Behavioral Consultation and Therapy, 4, 188-198.

Kohlenberg, R. J. & Tsai, M. (1991). Psicoterapia Analítica Funcional: Criando Relações Terapêuticas Intensas e Curativas. Santo André, SP: ESETEc.

Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J. W., Holman, G. I. & Loudon, M. P. (2012).Functional analytic psychotherapy: distinctive features. Hove and New York: Routledge.

Tsai, Callaghan, G. M., & M., Kohlenberg, R. J. (2013). The use of awareness, courage, therapeutic love, and behavioral interpretation in functional analytic psychotherapy. Psychotherapy, 50, 366-370.

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