Empatia: Aprendendo e Ensinando

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Muitos pais, ao buscarem psicoterapia para as crianças, se mostram preocupados com relação à falta de empatia observada nos filhos. “Acho que a vida protegida o faz insensível…” é a fala de um pai que já levou o filho a um abrigo para doar seus brinquedos na tentativa de mobilizá-lo. Talvez a empatia seja a habilidade social mais lembrada hoje em dia, provavelmente por estar associada à boa qualidade das relações e também pela provável constatação de que anda um pouco escassa em nossa sociedade.

Ter empatia é comumente entendido pela metáfora de “colocar-se no lugar do outro”. De acordo com Del Prette & Del Prette (2001) é ser capaz de reconhecer, identificar, nomear e “sentir” como o outro se sente diante de alguma situação, ou circunstância. É quando uma pessoa discrimina uma situação que outra pessoa esteja vivendo e reage de modo a expressar entendimento e compreensão. Comportar-se assim, com sensibilidade, tende a fortalecer vínculos de amizade, melhorar a comunicação, diminuir sentimentos de culpa ou vergonha, produzir alívio, aumentar a probabilidade de compartilhar dificuldades, sofrimentos ou conquistas.

 

Comportar-se de modo empático é uma habilidade que – como todas as outras – pode ser aprendida. Muitos adultos, no passado impacientes com birras infantis, se veem mais compreensivos com outros pais depois de terem seus próprios filhos. Isso ocorre porque passam a entender, por experiência própria, que muitas vezes as crianças fazem birra no supermercado e nem sempre é possível contornar a situação. Assim como crianças choram no avião, ou no restaurante. De forma semelhante, pessoas dizem sentirem-se muito mais compreensivas com a situação daquelas que sofrem ao perder um animal de estimação somente depois que têm o seu próprio, ou seja, somente depois e experimentar ter um animal conseguem sentir a falta dele em sua vida.

De acordo com Skinner (1991), evidentemente, é bem mais fácil se ensinar a nomear algo observável, por exemplo, mostrando ou apontando um objeto e pronunciando o nome dele, do que ensinar a se sentir como o outro se sente – assim como é difícil ensinar outras coisas mais abstratas, como os outros sentimentos, ou estados corporais, “uma dor aguda”, “uma pontada”. É difícil ensinar a ser sensível, pois é uma tarefa que requer tempo, dedicação e especialmente cuidado, pois nosso dia a dia é cheio de pequenos eventos que podem se tornar uma cilada.

Ao mesmo tempo em que nos preocupamos em seguir no sentido de desenvolver empatia nas crianças e adolescentes, muitos adultos não se dão conta dos modelos que podem oferecer que vão no sentindo contrário. São exemplos: reclamar do aluno de inclusão escolar na sala de aula do filho (“a professora vai perder muito tempo com esse aluno”); ou de outros pais que podem ter problemas sem saber da realidade deles; ou dos professores, que como outras pessoas também podem cometer erros. Outros erros comuns: fazer comentários preconceituosos sobre o corpo (gordo, ou malhado) de alguém; ou ainda do tempo em que o outro fica no trabalho, ou em casa. Enfim, toda e qualquer opinião sem se saber ao certo o que acontece na vida do outro.

Para ensinarmos as crianças a se comportarem com mais sensibilidade é importante que desenvolvamos também nossa empatia, ou seja, nossa capacidade de compreender o outro. Podemos treinar isso no cotidiano com exercícios diários: ao pensar sobre como é o trabalho das pessoas que entregam o jornal, das que preparam o pão da padaria, ou ainda das que trabalham nas fábricas que fazem nossos sapatos. Ir além e tentar fazer seu próprio pão, ou costurar alguma coisa e avaliar o resultado da tarefa: Quanto tempo foi necessário? Qual a qualidade do produto que me propus a fazer?

 

Pais bem-sucedidos no ensino da empatia tendem a usar procedimentos de dar instruções, oferecer modelos, e consequenciar o comportamento dos filhos de modo contingente. São exemplos: 1. Numa apresentação de balé, a mãe comenta com o filho se ele já pensou quanto tempo uma bailarina tem que treinar para conseguir se equilibrar na ponta dos pés. Ao fazer isso, a mãe conduz a conversa de modo a levar o filho a ficar sob controle de diversos aspectos da vida da bailarina, como das horas de dedicação e do que provavelmente ela precisou sacrificar, ou das dores nos pés, ou dos concorridos concursos que pode ter participado; 2. Ouvir com atenção quando a criança conta sobre seus sentimentos, ou acontecimentos, independentemente da importância que o adulto atribua ao assunto – deixando-a falar sem interrupções e refletindo sobre o que ela contou. Muitas vezes basta repetir o que ela disse, demonstrando assim que está ouvindo com atenção; 3. Conversar com a criança sobre quem são as pessoas desconhecidas envolvidas nos processos e serviços que nos rodeiam, sobre como deve ser o trabalho daqueles que recolhem o lixo, ou dos que estão envolvidos no processo de produção do leite que a criança toma; 4. Saber reconhecer e valorizar quando a criança se comporta de modo empático.

A empatia está associada a sentimentos que melhoram os relacionamentos sociais (salva vidas, inclusive), num momento em que olhar para suas próprias necessidades e ficar pouco sob controle do que é importante para o outro está cada vez mais comum. É um desafio e ao mesmo tempo uma responsabilidade para todos nós cultivá-la.

Referências Bibliográficas

Del Prette, A., & Del Prette, Z. A. P. (2001). Psicologia das relações interpessoais: Vivencias para o trabalho em grupo. Petrópolis: Vozes.

Skinner, B. F. (1991). Questões recentes na análise comportamental. Campinas, SP:  Papirus. Cap. 1. Disponível em http://www.itcrcampinas.com.br/pdf/skinner/lugar_sentimento.pdf

Zortea, T. (2016). Prevenção ao suicídio em nível individual: O papel da empatia no salvamento de vidas. Portal Comporte-se. Disponível em http://www.comportese.com/2016/10/prevencao-suicidio-empatia

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