Mindfulness: budismo? psicologia? o que é isso, afinal?

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Inicialmente, é um prazer começar a escrever para o Portal. Espero poder contribuir!

Vamos lá, então, pessoal. Vamos tentar definir – CORRETAMENTE – e de uma vez por todas, o que é essa palavrinha que anda na moda já faz algum tempo: mindfulness.

Há muitas e muitas definições, mas com isso há muitos equívocos e limitações.

Em primeiríssimo lugar, mindfulness é simplesmente uma palavra da língua inglesa!! Oras bolas! Um substantivo da língua inglesa com tradução imprecisa para o português. Diz-se por aqui que a tradução mais adequada é “atenção plena”. Eu não gosto muito. Traduziria como “atenção cuidadosa”. Vou explicar porquê.

É mais comum vermos a aplicação do termo “mindful” – assim – em sua forma adjetivada. Significa algo como “Paul is mindful about his anger” (“Paulo está consciente de sua raiva”). Então, serve para denotar uma qualidade de consciência, de atenção viva e precisa, sobre algo. Neste caso, sobre o fato de Paulo SABER como ele está se sentindo. Às vezes estamos com raiva mas não sabemos isso, estamos desatentos (mindless), se estivermos atentos, logo estamos mindful. Na forma substancial mindful é mindfulness. Assim, mindfulness é uma “qualidade ou estado de estar ciente de algo”. Por exemplo, se falamos de “mindfulness of the breath” (ciente da respiração), significa que estamos cons-cientes ou atentos de que estamos respirando. Agora que você lê este texto, por exemplo, já percebeu que você não está atento(a) à sua respiração? Mas mesmo assim ela está acontecendo! O tempo todo! hahahaha! Agora que você leu isso, você prestou atenção nela, não foi? Hahaha! Então você aprendeu na pele a diferença entre mindless (desatenção) e mindful (atenção).

a imagem é batida, mas serve.

Na imagem acima o cãozinho parece estar atento (mindful) ao cenário, enquanto o seu dono perdido em pensamentos e preocupações (mindless). Mas, há um perigo em utilizar esta imagem para representar o conceito. Por quê? Oras, porque se o dono do cão está CIENTE de que ele está perdido em pensamentos, ele está mindful (atento) de que está perdido em pensamentos. Tadáaaaa! Então, mindfulness não é não perder a atenção, mas saber onde está a sua atenção. Se você sabe que está perdido em pensamentos, então você está em estado de mindfulness. Se você sabe que está com a atenção focada em algo você está em mindfulness. Se você sabe que não sabe onde está sua atenção, você está em mindfulness. Estar em mindfulness é estar cons-ciente da sua experiência, momento-a-momento.

Portanto, mindfulness é – antes de qualquer coisa – antes de Budismo, Filosofia Estóica, Ellen Langer, Steven Hayes, Buda, Jon Kabat-Zinn, cavaleiros Jedis, Samurais, Marsha Lineham, o Neymar batendo penâlti, você concentrado jogando cartas, etc – antes disso tudo, um PROCESSO ou ESTADO ATENCIONAL. Oras, se é processamento atencional é processo psicológico. Se é processo psicológico é um objeto de estudo da Psicologia.

Este objeto – que aqui defini enquanto um ESTADO ATENCIONAL – obviamente se converte, no mundo real, em comportamento e ações.

Algumas vezes nossa atenção está mindful (cuidadosamente atenta) e em outras está mindless (absolutamente perdida). Alternamos entre estes estados. O mais legal é que parece que o estado mindful pode ser treinado. Como? Aí VEM A BOMBA! Todo mundo fala: MEDITAÇÃO!!! Inclusive muita gente segue achando que meditação e mindfulness são sinônimos. Cuidado.

Pode até ser, em alguns casos. Algumas “meditações” oriundas da tradição oriental tem como objetivo prestar atenção. No Budismo, por exemplo, existem as práticas de Shamata ou Zazen. Mas, nestas tradições existem CENTENAS de tipos de “meditação”, e não apenas de atenção focada e, mesmo estas práticas, fazem parte de um longo corolário metafísico e espiritual. Pode ser um problema ético e prático “extirpar-las” do seu contexto original. Além disso, é comum que os professores budistas destas práticas recebem treinamentos de 10, 20 anos, incluindo longos retiros, e não uma formação de instrutor de mindfulness com 3 módulos. Por isso tudo, o Jon Kabat-Zinn é muitas vezes criticado por ter criado o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR), unindo ciência e uma versão light do budismo – do jeito que deu! Mas ninguém fala sobre isso aqui no Brasil.

No entanto, não é apenas com MEDITAÇÃO ou Budismo que se desenvolve mindfulness. Qualquer tipo de atividade em que você esteja monitorando cuidadosamente sua atenção é um exercício de mindfulness. Talvez nestas “meditações orientais” isto esteja esquematizado de modo mais fácil e organizado. Tanto que em algumas psicoterapias, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e a Terapia Dialética Comportamental (DBT) existem exercícios de mindfulness que não são propriamente “meditações”. Por exemplo, observar atentamente um folha de árvore, usando os cinco sentidos, procurando manter a atenção aberta e curiosa, pode ser um exercício de mindfulness. Igualmente, as centenas de pesquisas da Prof. Elen Langer (Harvard) tratam mindfulness SEM MEDITAÇÃO. Pesquise e verá!

Quantas cores, formas, sensações e texturas você pode identificar segurando uma folha dessas nas mãos e observando atentamente? Por quanto tempo você conseguiria manter sua atenção presente explorando esse processo?

Então, agora vocês já viram que mindfulnes não é necessariamente Budismo, Meditação ou mera adaptação de práticas budistas para a ciência. Mindfulness é um processo ou estado psicológico que existe antes do Budismo, da Psicologia ou de qualquer coisa. É uma condição natural do organismo e do processamento atencional. É claro que tem mistura de psicologia, medicina e budismo, como no MBSR do Kabat-Zinn e na DBT da Linehan. Tudo bem! Não há problema nisso, quando bem feito.

Mas também tem mindfulness sem budismo, puramente como processamento atencional, como em alguns textos e exercícios da ACT e nas pesquisas da profa. Langer.

Não se trata de uma luta ou batalha entre visões de mundo e epistemologias, de Budismo vs. Psicologia, mas sim de esclarecimento. Não se trata de dizer que uma coisa é melhor do que a outra. A questão é a clareza e o esclarecimento, que andam faltando – muitas vezes – quando vão falar de mindfulness.

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