As histórias individuais nas guerras – ontogênese e Contingências de Reforçamento

0

“Até o último homem” é um filme hollywoodiano que esteve em cartaz no Brasil no início de 2017. Trata-se de um filme biográfico cujo protagonista é o médico do exército Desmond T. Doss; a trama se desenrola durante a Segunda Guerra Mundial. O protagonista se voluntaria para fazer parte do exército norte-americano, porém recusa-se a pegar em uma arma e a matar pessoas, devido a traumas vividos em sua infância e a uma educação religiosa muito influente. Entretanto, durante a Batalha de Okinawa, ele vai a campo na batalha e trabalha na ala médica, e termina por salvar mais de 75 homens, dentre eles soldados do exército japonês, sendo condecorado pelo seu país. Estas decisões fizeram de Doss o primeiro Opositor Consciente da história norte-americana a receber a Medalha de Honra do Congresso 1.

Extraído de http://www.adorocinema.com/filmes/filme-208104/criticas-adorocinema/

O dilema enfrentado por Desmond Doss nos leva a uma reflexão sobre o que influencia nossas escolhas, sendo a cultura e os grupos a que pertencemos as principais agências de controle do nosso comportamento. O conceito é apresentado por Skinner no livro Ciência e Comportamento Humano, escrito em 1953. Nas palavras do autor:

“O grupo exerce um controle ético sobre cada um de seus membros através, principalmente, de seu poder de reforçar ou punir. O poder deriva do número e da importância de outras pessoas na vida de cada membro. Geralmente o grupo não é bem organizado, nem seus procedimentos são consistentemente mantidos. Dentro do grupo, entretanto, certas agências controladoras manipulam conjuntos particulares de variáveis. Essas agências são geralmente mais bem organizadas que o grupo como um todo, e frequentemente operam com maior sucesso.” (Skinner, 1953/2003, p. 363)2

            Doss viveu a tomada de decisão de atender ao que a comunidade religiosa esperava dele – cumprir o mandamento “não matarás” – ou ao que a comunidade do exército esperava dele – pegar em armas para aniquilar o inimigo.  A história de vida dele fez a diferença e explica a decisão tomada. Ao analisar o impacto dos episódios de violência que fizeram parte da vida de Doss, é possível compreender por que a agressão se tornou inaceitável para ele. O risco de vida que o irmão sofreu ao ser atingido pelo protagonista, bem como a arma disparada por seu pai em uma briga conjugal tiveram tamanha intensidade para Doss (como seria de se supor) que o mandamento aprendido em sua formação religiosa tornou-se a regra de ouro para governar como ele agiria dali em diante. Neste caso, a influência exercida pela comunidade religiosa (uma agência de controle) somou-se à experiência vivida por Doss (por meio do contato com as Contingências de Reforçamento) e este se tornou um valor seguido fielmente pelo cliente: jamais causar qualquer risco à vida de outra pessoa.

Da Segunda Guerra Mundial para os dias atuais, ainda nos deparamos com diversos conflitos entre nações: étnicos, políticos, territorialistas… e isso nos faz ter contato com amostras do impacto que as guerras geram para os indivíduos. Um exemplo que me chamou especial atenção foi o da garota síria, que não deve ter mais do que quatro anos de idade, que, ao se deparar com a câmera do fotógrafo, levantou as mãos em um gesto de rendição, como se estivesse diante de um soldado armado.

 

Extraído de : http://www.contioutra.com/sobre-a-menina-siria-que-se-rende-ao-confundir-camera-fotografica-com-uma-arma/

Essa criança nasceu em um país em guerra. Infelizmente nunca viveu a trégua de ataques e bombardeios. Mas nem por isso o que vive precisa ser aceitável aos olhos dela, ou justamente por isso não pode ser.

Skinner, também no livro de 1953, citou alguns efeitos sobre as emoções e os comportamentos operantes que são produzidos quando as agências de controle exercem um controle forte sobre o indivíduo. O autor apresenta como subprodutos emocionais do controle medo, ansiedade, ira e raiva, depressão. Como efeitos sobre o comportamento operante estão: vício em drogas como forma de fuga, comportamento excessivamente vigoroso, comportamento excessivamente restrito, controle por estímulos deficiente, autoconhecimento deficiente, autoestimulação aversiva (Skinner, 1953).

Desmond Doss certamente apresentou reações que podem ser classificadas nas categorias apresentadas por Skinner. Entretanto, conseguiu emitir comportamento de contracontrole diante de uma exigência que para ele era inaceitável. Enfrentou muita represália até seus valores e comportamentos serem aceitos, respeitados e reconhecidos, finalmente.

Preocupa-me pensar quais oportunidades de desenvolvimento pessoal e afetivo a criança síria terá, ela que representa um conjunto enorme de indivíduos em situações lamentavelmente semelhantes ao redor do mundo. Que ela tenha oportunidades de olhar para mais câmeras fotográficas e aprender que não se faz um futuro apenas com armas, mas com outros ingredientes e elementos.

Que ela possa viver a beleza de olhar o mundo através de lentes que mostrem a arte de se desenvolver e de superar. Como fez o fotógrafo ao transformar em arte um momento tão comovente e lamentável.

“Um ambiente físico e cultural diferente fará um homem diferente e melhor.” (Skinner, 1989, p.84)4

Referências

  1. Sinopse disponível em http://www.adorocinema.com/filmes/filme-208104/criticas-adorocinema/
  2. Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e comportamento humano. Tradução João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi. São Paulo: Martins Fontes.
  3. Reportagem disponível em http://www.contioutra.com/sobre-a-menina-siria-que-se-rende-ao-confundir-camera-fotografica-com-uma-arma/
  4. Skinner, B.F. (1989). Recent issues in the analysis of behavior. Columbus: Merrill Publishing Company.

 

COMENTE VIA FACEBOOK

DEIXE UM COMENTÁRIO