Desafios da ABA ao Autismo II: a importância do engajamento dos pais na intervenção

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Dando continuidade a série de artigos sobre os desafios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA, do inglês Applied Behavior Analysis) ao Autismo, é essencial trazer a discussão da importância da participação dos pais, e demais membros da família, na intervenção comportamental dos filhos e os reais impacto disso nos resultados obtidos.

Em 2015, o Professor Celso Goyos, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), em resposta a uma reportagem publicada pelo Portal BBC Brasil, afirmou que, ao contrário do que fora defendido na matéria, a participação das pessoas importantes na vida da criança é facultativa e que o sucesso do tratamento dependeria dos seguintes fatores: início precoce; tratamento intensivo, com duração de 20 a 40 horas semanais e fundamentação nos princípios da Análise do Comportamento.

De fato, os resultados das pesquisas mostram que essas são as variáveis fundamentalmente relacionadas com o prognóstico do paciente. Por outro lado, Holland (1978) já nos lembrou que, se a teoria na qual a terapia comportamental é fundamentada está correta, então a solução para um comportamento-problema não pode se basear apenas no arranjado de contingências no ambiente da clínica. Devemos também modificar as relações do ambiente natural para que possamos, de fato, corrigir o comportamento-problema. Nesse contexto, Holland (1978) menciona estudos que versam sobre a diminuição de comportamentos-problema. O mesmo raciocínio deve ser realizado ao programar o aumento de repertórios como comunicação, interação social, brincadeiras funcionais, entre outros. Quando uma criança com desenvolvimento atípico adquire uma habilidade em ambiente controlado (clínica ou escola) é, em seguida, fundamental que ela aprenda a generalizar tal conceito. Afinal, qual a utilidade e o impacto social para a vida de uma criança adquirir uma resposta (por exemplo dizer “biscoito” para obtê-lo) se tal resposta não passar a ocorrer diante de novos estímulos (por exemplo, diante da mãe, pai, professora)? Mesmo que a generalização de habilidades esteja prevista como parte da intervenção, é fundamental que os pais, familiares e outros profissionais que, façam parte da comunidade verbal na qual a criança esta inserida, sejam também sistematicamente orientados a mediar os reforçadores afim de manter e ampliar tais repertórios. No mesmo sentido, e retomando ao que Holland (1978) afirmou, se o terapeuta ensina a criança, por exemplo, a falar “biscoito” ao sentir fome e com a finalidade de obtê-lo ao invés de se jogar no chão ou chorar, é importante que os pais e toda a comunidade verbal seja orientada a exigir a resposta verbal “biscoito”, ou seja, entregar o biscoito diante do pedido apropriado e não diante do comportamento de chorar ou se jogar no chão. Caso contrário, a criança apreenderá que diante da terapeuta a resposta “biscoito” deve ser emitida, mas que o mesmo não precisa acontecer em outros ambientes. Mais uma vez, portanto, teremos um problema de generalização.                Entretanto, a orientação parental não deve se restringir apenas ao treino específico das habilidades que tem de ser mantidas e generalizadas fora da terapia e ao manejo comportamental no ambiente natural. A função da orientação parental também deve ser a de investigar os comportamentos da família diante das dificuldades e evoluções da terapia, as expectativas, frustrações e necessidades pela qual a mesma possa estar passando.

Todos os indivíduos e suas famílias necessitam, em algum momento, de tais orientações. Entretanto, famílias que lidam com a aceitação e intervenções diante de um diagnóstico de TEA (Transtorno do Espectro do Autismo), tendem a precisar de uma atenção continuada.

É bastante comum que, logo que a criança comece a apresentar alguns traços de TEA, haja uma tentativa de rejeição a idéia de que a criança seja autista. A não aceitação, a priori, é bastante natural, afinal, ninguém se prepara ou espera passar por nenhuma situação atípica na vida. Por outro lado, a não aceitação, em muitos casos, converte-se em conformação. Alguns pais ou famílias passam a um estado de acomodação que os torna passivos a orientações e aos próprios sinais de desenvolvimento da criança. Tais comportamentos, devem, inclusive, sinalizar ao terapeuta um possível quadro de depressão.

Há, ainda, uma outra situação bastante comum que pode ser observada no padrão de algumas famílias de crianças e adolescentes com TEA: a imersão completa em atividades, temas, programas e mídias sociais relacionadas ao tema. Evidentemente que o amparo e apoio de outras famílias, profissionais e de uma boa literatura provê uma ajuda fundamental especialmente nos primeiros meses após o diagnóstico. Entretanto, a imersão significa ocupar a maior parte do tempo falando sobre o assunto. Muitas vezes, há a tendência em esquecer que no mundo há outros filhos, programas, assuntos, pessoas, problemas, atividades em geral.

A aceitação, conformação e a imersão são padrões de comportamentos que devem ser vistos com cautela pelo terapeuta responsável pela intervenção que deve, após realizada uma análise funcional cautelosa, orientar, caso necessário, os pais a realizar uma terapia individual ou familiar. A terapia seria recomendável a quase todas as famílias que passam por uma situação como essa. Entretanto, temos de avaliar se a terapia seria recomendável, importante ou fundamental. Pais que não aceitam déficits dos filhos provavelmente terão dificuldade em seguir orientações, enquanto pais que estejam conformados não terão motivação para isso. Por fim, pais que estejam imersos nessa situação podem ter dificuldade até mesmo em discriminar, se conscientizar do que estão fazendo, afinal, não há espaço para mais nada. Apenas uma família psicologicamente saudável terá condições de seguir treinos e orientações de forma minimamente consistente.

A saúde mental da família de crianças com TEA não pode ser encarada apenas como um pano de fundo. A família representa o ambiente natural no qual a criança passa a maior parte de seu tempo e deve ser vista como um dos focos do tratamento, não apenas para que esse se generalize e amplie, mas para que a intervenção em ABA seja possível. Toda a criança esta preparada para a intervenção, mas, muitas vezes, suas famílias podem não estar.

Holland, J. G. (1978). Behaviorism: part of the problem or part of the solution. Journal of Applied Behavior Analysis11(1), 163–174. http://doi.org/10.1901/jaba.1978.11-163

Resposta do Prof. Dr. Celso Goyos aos equívocos sobre a Análise do Comportamento veiculados em matéria da BBC Brasil

 

 

 

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