Colunista do Comporte-se critica matéria do Jornal Zero Hora sobre TPB

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Julia Schäfer, colunista da equipe de DBT (Terapia Comportamental Dialética) do Comporte-se, divulgou em seu facebook o texto de um e-mail enviado à redação do Jornal Zero Hora apontando uma série de problemas na abordagem feita pelo jornalista Itamar Melo ao Transtorno da Personalidade Borderline (TPB). A Clínica Vincular, nossa parceira, também se posicionou sobre o assunto. Acesse clicando aqui.

Júlia, que é Terapeuta Comportamental Dialética com formação pelo The Linehan Institute/Behavioral Tech e atua há alguns anos atendendo pessoas que atendem aos critérios diagnósticos para o TPB, chamou a atenção especialmente para a mistura de informações vindas de concepções conflitantes sobre o transtorno, a baixa qualidade ou desatualização das informações divulgadas, a ausência do ponto de vista de alguém que experimenta o TPB e a falta de fundamentação científica das afirmações apresentadas na matéria.

Confira o comentário completo:

(Pessoal, compartilhando por aqui o e-mail que enviei a ZH na esperança de, quem sabe, ter algum retorno mais rápido)

Boa noite,

Meu nome é Julia Schäfer, sou psicóloga com formação em Terapia Comportamental Dialética pelo The Linehan Institute/Behavioral Tech e há alguns anos venho trabalhando com clientes que apresentam sintomas do Transtorno da Personalidade Borderline (TPB).
Qualquer assunto referente a saúde mental é um assunto delicado e deve ser tratado com cuidado. Diversos profissionais, há anos, vêm lutando contra o estigma e o preconceito que circunda aqueles que, sem qualquer alternativa de escolha, sofrem com alguma dificuldade psicológica/psiquiátrica. Vejam bem, aqueles que experimentam sintomas clínicos significativos a ponto de ocasionar prejuízos em diversas áreas da suas vidas já sofrem o suficiente; além disso, lutam diariamente para manejar e lidar com suas dificuldades. O estigma social só acresce a essas dificuldades e não faz bem algum a essas pessoas, muito pelo contrário. Foi por isso que, ao ler a matéria publicada por vocês (Zero Hora) no dia 05/05/2017 intitulada “Conheça o Transtorno da Personalidade Borderline, o mal psiquiátrico que afeta as relações” que eu me indignei com a irresponsabilidade e o desserviço de tal reportagem. Toda ela, do início ao fim, reforça o estigma e reforça o preconceito. Expressões como “mal psiquiátrico”, “personalidade atormentada” e “doentes” são taxativas e pejorativas nessas circunstâncias. Os exemplos são estereotipados e pouco descritivos. Se referir a uma pessoa que apresenta os comportamentos listados nos exemplos como “desagradável” é ofensivo. Não consigo começar a descrever o quanto é incômodo saber que esse tipo de conteúdo está disponível e que muitas pessoas leigas terão acesso a ele e poderão sair por aí reproduzindo tais ofensas.

É nítido que houve alguma pesquisa sobre o TPB. Porém, encontro quatro grandes problemas. O primeiro é que as informações expostas foram extraídas de diferentes campos de estudos e se misturaram de uma maneira generalista “pintando” a caricatura do que seria o transtorno. O segundo problema é que muito conteúdo tem sido produzido sobre o TPB, porém alguns são antigos e/ou tem pouca qualidade; essa matéria conseguiu reunir os piores e menos científicos dos conteúdos. O terceiro problema é a falta da perspectiva de algum indivíduo que vivencia as dificuldades relacionadas ao TPB. E o quarto e grande problema é que não há absolutamente nada baseado em evidência nessa reportagem. Atualmente, a Psicologia e a Psiquiatria têm investido muito em pesquisas que possam fornecer evidências de quais são as melhores formas de intervir com diferentes quadros clínicos. Nem uma vírgula sobre isso é mencionado e apesar do modelo de tratamento considerado padrão ouro para o TPB (Terapia Comportamental Dialética) ser brevemente citado, ele é altamente negligenciado.

Falando mais detalhadamente sobre esses aspectos, há décadas não se compreende o TPB como um transtorno “fronteiriço” entre neuroses e psicoses. Esta é uma compreensão antiga e de uma área de estudo específica, a psicanálise. Nenhum outro modelo psicológico ou psiquiátrico, além da psicanálise, compreendeu o TPB desta maneira. Dessa forma, minha pergunta é, por qual razão isso foi mencionado como uma descrição do TPB? Imagino que por falta de conhecimento – o que considero grave nestas circunstâncias.

Além disso, por qual razão a tese de doutorado citada foi a escolhida para compor esta reportagem sobre o assunto, levando em conta tanto material de qualidade sendo produzido sobre o TPB? Não tenho a intenção de desqualificar o trabalho realizado e de não reconhecer que em algum grau ele tenha relevância. Porém o grande problema é: para o diagnóstico do TPB ser realizado de acordo com o DSM-V, 5 de 9 critérios diagnósticos devem ser alcançados. Logo, por lógica, há 151 combinações diferentes possíveis de critério diagnóstico para o TPB; ou seja, há 151 formas de manifestação dos sintomas. Por óbvio, como que, um estudo com APENAS 3 indivíduos é capaz de formular uma conclusão tão generalista sobre o TPB a ponto descrever os indivíduos como “viciados no outro”? Isso não existe. Uma premissa básica de qualquer pesquisa científica é que não podemos generalizar dados quando o método utilizado não permite, ou prevê generalizações. Não há evidência suficiente para dizer que essas pessoas são “viciados nos outros”.

O que evidências científicas nos mostram hoje é o seguinte: há um modelo de tratamento efetivo para o TPB. O nome desse modelo é Terapia Comportamental Dialética (DBT) e ela foi considerada como a indicação de tratamento para esses indivíduos pela 12a Divisão da American Psychological Association. Três linhas do texto são dedicadas a falar da DBT. Três linhas para falar daquilo que sabemos que funciona para essas pessoas. Vocês entendem o quanto isso é grave? Pessoas vão ler essa reportagem, talvez se identificar com estereótipos pejorativos e não saberão que tipo de ajuda buscar.
Portanto, me resta fazer alguns pedidos. Primeiro, se retratem desta reportagem. Busquem informação de qualidade. Busquem informação baseada em evidência. Busquem especialistas daquele modelo de tratamento que funciona. Busquem materiais científicos produzidos com métodos mais adequados. E mais ainda, tomem cuidado com os termos e expressões que vocês utilizam quando falam de saúde mental. Qualquer ação que reforce estigmas e preconceitos PRECISA ser evitada; esse é o principal entrave que impede que as pessoas busquem ajuda quando mais precisam e que, ainda, sofram quando o fazem. Aguardarei algum tipo de retratação. Desde já, obrigada.

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