A vida de B.F. Skinner parte X: Skinner e a Educação

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Este é o décimo artigo de uma série que discute a vida de Burrhus Frederic Skinner. Recomenda-se que o leitor interessado leia os artigos anteriores disponibilizados pelo Comporte-se, para que consiga compreender melhor o texto. Quem é o homem por trás da teoria que inspira tantas pessoas até hoje? O objetivo desta série é reconstruir o caminho percorrido por Skinner, apontando aspectos de sua vida pessoal que determinaram seu comportamento e, consequentemente, o de muitos outros. Espera-se que esta narrativa possa não apenas cativar o leitor, mas também tornar natural e humano aquilo que mais nos fascina.

O ano é 1948, doze anos após sair de seu período de pós-doutorado em Harvard, Skinner volta para a universidade, agora como professor. O departamento ainda é supervisionado pelo Professor Edward Boring, que conhece Skinner desde que entrou no doutorado mais de 20 anos antes. Boring desempenhou um papel importante em convencer o departamento a contratá-lo, além de ajudar Skinner a conseguir financiamento para suas pesquisas.

A mudança foi, sem dúvida, muito bem recebida pelos Skinners. Desde que se casaram, Eve sempre esteve infeliz com os lugares onde moraram, ela sentia falta de uma cidade grande como Chicago, onde fez sua graduação. Voltar para Harvard significaria o fim de seu isolamento social, além de permitir um lar permanente para suas pequenas filhas. Para Skinner, voltar para Harvard era uma grande oportunidade, uma vez que ele teria muito mais apoio financeiro e institucional para realizar suas pesquisas. Ademais, para alguém criado para ter especial sensibilidade para o julgamento de seus pares, o título de professor da Universidade de Harvard tem um valor considerável. Felizmente para Skinner, todos os reforçadores apontaram para o mesmo lugar.

Mais uma vez, as ambições de Skinner não se limitariam a pesquisas básicas com animais infra-humanos em laboratório, Skinner se aventuraria agora na educação. Na década de 50, ele estava vendo suas filhas crescerem a desenvolverem repertórios cada vez mais complexos. O pesquisador acompanhava de perto a educação escolar das filhas, foi neste momento que ele começou a vislumbrar um futuro diferente para a educação.

Talvez por os princípios do comportamento operante serem uma novidade, havia (e ainda há) um grande descompasso entre a chamada “ciência da aprendizagem” e a arte do ensino (Skinner, 1954). O autor dedicaria boa parte dos próximos 15 anos desenvolvendo e refinando suas concepções éticas e metodológicas sobre educação, culminando com a publicação de “Tecnologia do Ensino” (Skinner, 1968).

O desenvolvimento de um programa de ensino individualizado e fundamentado em princípios operantes foi feito com ajuda de alunos como James Holland, Susan Markle e John Carroll. O projeto contou com financiamento do setor privado (facilitado por sua posição em Harvard) e começou a ganhar volume. O grupo produziu materiais sobre instrução programada e desenvolveu aplicações em alunos de graduação Harvard em análise do comportamento e em escolas elementares para o ensino de matemática. Em termos gerais, o projeto visava modernizar a educação fundamentada em princípios comportamentais como reforçamento, esvanecimento e estimulação suplementar e com o auxílio do que veio a ser chamado de “máquinas de ensinar”. Naturalmente, para um leitor do século XXI, essas ferramentas podem parecer muito primitivas, mas certamente não o era para os psicólogos e educadores da época. Você pode conferir o próprio Skinner falando sobre as máquinas de ensino neste curto vídeo:https://www.youtube.com/watch?

 

No entanto, caso quisesse que sua invenção saísse do papel, precisaria buscar auxílio de empresas privadas. Seus dois últimos empreendimentos comerciais, o Project Pigeon (ver: http://www.comportese.com/2016/10/vida-de-b-f-skinner-parte-vii-minnesota) e o Aircrib (ver: http://www.comportese.com/2016/12/vida-de-b-f-skinner-parte-viii-indiana) se mostraram ser mais uma fonte de frustrações do que de realizações. As múltiplas tentativas malsucedidas de fabricação de ambos produtos ensinaram Skinner a desconfiar de parceiro comerciais. Segundo Bjork (1997), a combinação de necessidade de auxílio e desconfiança tornou a experiência de Skinner enquanto um inventor social extremamente estressante.

Ao negociar com empesas como a IBM e a Rheem, Skinner encontrou dificuldades. Uma delas era manter a estrutura de sua invenção mais próxima do planejado, e não de acordo com a produção do objeto mais fabricado pela empresa, no caso uma máquina de escrever. Esse ponto era problemático pois era uma decisão orientada por valores comerciais, era mais conveniente a produção de algo parecido com o que já fabricavam; e não por decisões científicas que, segundo Skinner, maximizariam a aprendizagem do aluno. Além disso, Skinner não receberia o devido crédito como inventor e tinha pouca influência nas decisões de produção. Mérito e controle eram reforçadores importantes para ele no momento, enquanto os valores comerciais defendidos pelas empresas lhe causavam repulsa.

Além disso, a proposta de Skinner foi recebida com receio pelos educadores, que receavam que a introdução de máquinas de ensino ameaçasse seus empregos – o que era uma preocupação muito válida se considerarmos o forte crescimento da automação na indústria neste período, resultando em demissões em massa.

Apesar do projeto de revolucionar a educação americana nunca ter decolado como Skinner gostaria, ele continua vivo em projetos menores. Mais recentemente, a Fundação B.F. Skinner, liderada por sua filha Julie, lançou um projeto para fazer “máquinas de ensino para o século XXI”. Para saber mais clique aqui http://www.bfskinner.org/2016/03/30/teaching-machine-for-the-new-generation/.

Fique atento, pois as ideias mais controversas de Skinner ainda não surgiram… a série continua!

Referências:

Bjork, D. W. (1997). B.F. Skinner: A life. Washington, DC, US: American Psychological Association.

Skinner, B. F. (1954). The science of learning and the art of teaching. Cambridge, Mass, USA, 99-113.

Skinner, B. F. (1968). The technology of teaching. Acton, Estados Unidos: Copley Publishing Group.

Skinner, B. F. (1979). The shaping of a behaviorist: Part two of an autobiography. New York: Alfred A. Knopf.

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Cainã Gomes
Formado em Psicologia pela PUC-SP e especialista em Clínica Analítico-Comportamental. É pesquisador do Paradigma - Centro de Ciências do Comportamento, onde também atua como terapeuta. Tem experiência na área de Análise do Comportamento, com ênfase com Comportamento Governado por Regra e RFT (Relational Frame Theory). Foi coordenador da Comissão de História de Análise do Comportamento da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) na gestão 2015-2016. Além disso, é mestrando do programa de Psicologia Experimental: Análise do Comportamento da PUC-SP com período sanduíche na Universidade de Gent, sob orientação do Prof. Dermot Barnes-Holmes.
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