TERAPIA DE CASAIS E FAP: UMA POSSÍVEL RELAÇÃO DE AMOR

A Psicoterapia Analítica Funcional (do inglês, Functional Analytic Psychotherapy, FAP) se propõe a criar relações terapêuticas intensas e curativas (Kohlenberg & Tsai, 2004) e considera o comportamento de intimidade relevante clinicamente (Kohlenberg, Kohlenberg & Tsai, 2011). Considerando esses aspectos, ela pode ser uma proposta bastante interessante para casais em crise, uma vez que o desenvolvimento do repertório de intimidade e a criação de uma relação intensa geralmente são metas a serem alcançadas nesse tipo de intervenção.
A terapia de casais em FAP, no entanto, tem algumas especificidades que a diferem tanto da terapia de casais tradicional, quanto da terapia individual em FAP. Algumas dessas especificidades serão destacadas a seguir:
– A FAP com casais prioriza atendimentos em conjunto, e isso ocorre, por uma premissa de que a sessão conjunta torna o ambiente terapêutico ainda mais natural, propiciando maiores oportunidades de generalização de possíveis melhoras que ocorrerem no setting terapêutico, para o ambiente extra sessão (Gurman, Waltz & Follette, 2010).
– Na terapia individual em FAP, o objetivo das sessões centra-se basicamente na relação terapêutica, isto é, nas ocorrências dos CRBs (para entender o que são CRBs o leitor pode consultar o artigo Psicoterapia analítica funcional (FAP): entendendo o cliente na relação terapêutica na interação com o terapeuta no aqui/agora). Na terapia de casais em FAP, a relação terapêutica é extremamente importante, no entanto, ela é um meio utilizado para facilitar a mudança na interação entre os parceiros em sessão – objetivo final da terapia de casais (Gurman, Waltz & Follette, 2010).
Para ficar mais claro, seguem as etapas da terapia de casais em FAP divididas de maneira didática com exemplos de interações de um casal fictício (as informações a seguir estão baseadas Gurman, Waltz & Follette, 2010; Silva-Dias, 2015; Silva-Dias & Silveira, 2016).

Etapa 1: Observar a emissão de CRBs1 e seus efeitos entre os parceiros.
Em uma terapia individual em FAP, o terapeuta deve observar os CRBs1 que ocorrem na sessão e fazer uso de sua própria pessoa para identificar os efeitos desses CRBs. Na terapia de casais, no entanto, além do uso da relação terapêutica para identificar tais efeitos, o terapeuta pode se valer da observação direta dos parceiros se comportando na sessão. O privilégio do terapeuta de casais FAP é que ele conta com um ambiente natural ainda mais rico em exemplos de interações do casal na própria sessão de terapia, uma vez que as variáveis relacionadas à queixa estão presentes no aqui/agora. Assim, o terapeuta deve observar atentamente essas interações, identificando como são os CRBs, em quais contextos eles são evocados e quais são as consequências que cada parceiro fornece aos CRBs do outro. Pressupõe-se, assim, que os CRBs, em uma terapia de casal, pode se referir à relação do terapeuta com o parceiro A/B ou então, à própria relação entre os parceiros em sessão.
Vamos supor que Lucas (marido) tenha dificuldade em demonstrar emoções e que Carolina (esposa) tenha dificuldade em solicitar diretamente mudanças de comportamento. Carolina relata em sessão que seu parceiro (Lucas) nunca diz que a ama e, com isso, inicia uma série de verbalizações de críticas direcionadas a ele (emissão de CRB1, pois critica o comportamento de Lucas em vez de pedir o que deseja dele, por exemplo, “gostaria que me dissesse mais que me ama”). Lucas, por sua vez, se mantém calado e quando questionado diretamente a respeito do assunto, fornece uma resposta tangencial (emissão de CRB1). Diante dessa breve explanação, pode-se perceber como o CRB1 de Lucas interfere no relacionamento com Carolina e vice-versa. Devido à falta de repertório dos parceiros para lidarem com a situação e o provável alto grau de aversividade das interações, é que o terapeuta deve direcionar tais interações dos parceiros entre si para a interação consigo próprio.

Etapa 2: Direcionar os CRBs1 da interação do casal para a interação com o terapeuta.
Essa é uma ação estratégica para que as interações passem de coercitivas para interações reforçadoras. Levando em conta que o terapeuta está em melhores condições de lidar com os comportamentos-problema dos parceiros, esse deve deslocar essas interações pouco efetivas entre o casal para sua pessoa, no intuito de favorecer a emissão de comportamentos alternativos. Por exemplo, no caso de Carolina, que tem dificuldade em pedir o que deseja, o terapeuta poderia perguntar se há algo que o terapeuta poderia fazer por ela (pergunta que poderia fornecer condições para a emissão de um CRB2, no caso, uma solicitação direta) em vez de direcionar a mesma pergunta para a pessoa do parceiro, pois, nesse caso, Lucas poderia responder de maneira a punir um possível CRB2, enquanto que o terapeuta poderia fazê-lo de maneira a reforçá-lo.

Etapa 3: Modelagem
3.1 de CRBs2
Após direcionar para si as interações, as mudanças começam a ocorrer à medida que o terapeuta fornece consequências diferentes daquelas apresentadas pelos parceiros, ou seja, o terapeuta seleciona uma resposta que pode ser considerada uma melhora (ainda que rudimentar na visão dos parceiros) e a reforça. Esse processo deve se repetir até atingir a resposta-alvo (no caso de Lucas, por exemplo, até que ele consiga expressar suas emoções e no caso de Carolina, pedir diretamente o que deseja). Isso nada mais é do que o próprio processo de modelagem, fazendo uso dos procedimentos de reforço diferencial e de aproximações sucessivas. Por exemplo, se Lucas menciona que se sentiu “estranho” em uma determinada situação, o terapeuta deve reforçar tal comportamento, considerando que se aproxima do comportamento-alvo, ainda que em uma fase preliminar. O terapeuta, diferentemente dos parceiros, não pode aguardar que um comportamento “ideal” ocorra, mas sim criar condições para que “pequenas melhoras” ocorram e sejam reforçadas, a fim de que estas aumentem de frequência.
3.2 Modelação e modelagem do fornecimento de consequências entre parceiros.
Ao mesmo tempo em que o terapeuta está fornecendo uma consequência reforçadora para o CRB2 de um dos parceiros, está também sendo modelo de como agir para o outro, isto é, simultaneamente o terapeuta está modelando o CRB2 de Lucas, reforçando diretamente, servindo também como modelo para Carolina. Além disso, se Lucas responde ao CRB (1, 2 ou 3) de Carolina, o terapeuta tem nessa ocasião mais uma oportunidade de modelagem, no caso, a modelagem do comportamento de fornecer consequências reforçadoras para o comportamento parceiro.
A Etapa 3 leva o tempo necessário até que o casal tenha um repertório suficiente de fornecer consequências reforçadoras para a melhora do outro. Assim que isso for possível, segue-se para a Etapa 4.

4) Proporcionar oportunidades para a retomada da interação entre os parceiros
Essa etapa ocorre aos poucos, à medida que o terapeuta fornece contexto para que Lucas se comporte de maneira a reforçar as mudanças do comportamento de Carolina e vice-versa. Considerando os exemplos acima, o terapeuta poderia perguntar a Carolina como ela se sente ao ouvir Lucas dizer que ficou chateado com a forma como ela respondeu a ele. Note que esta é uma ocasião em que Carolina tem a oportunidade de reforçar o CRB2 de Lucas (relatar emoções). Como nesta etapa os parceiros já estão previamente treinados a fornecer consequências reforçadoras, possivelmente a resposta de Carolina ao questionamento do terapeuta tenderá a funcionar como reforçador para o comportamento de Lucas (supondo que, por exemplo, Carolina diga “entendo que acabei te ofendendo. Sinto muito!”). Esse tipo de situação favorece a retomada da interação dos parceiros entre si para, aos poucos, o terapeuta “sair de cena”, indicando a melhora do casal e, com isso, a aproximação da alta.

De maneira esquemática as etapas podem ser representadas desta forma:

REFERÊNCIAS
Gurman, A. S., Waltz, T. J., & Follete, W. C. (2010). FAP-Enhanced couple therapy: perspectivas and possibilities. In Kanter, J., Tsai, M. &Kohlenberg, R. J. (Orgs.), The practice of funcional analytic psychotherapy (Chap. 8, pp. 125-147). New York: Springer.
Kohlenberg, R. J., & Tsai, M. (2004). Psicoterapia analítica functional: criando relações terapêuticas intensas e curativas. Santo André: ESETec.
Silva-Dias, A. Y. M. (2015). Efeitos da modelagem e da modelação do comportamento vulnerável à punição com um casal em terapia analítico-comportamental. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Universidade Federal do Paraná. Curitiba, PR.
Silva-Dias, A. Y. M. & Silveira, J. (2016). Comparação de duas intervenções no tratamento de um casal: o treino do comportamento vulnerável à punição. Acta Comportamentalia, 24 (1), 61-77.
Tsai, M., Kohlenberg, R. J., Kanter, J., Kohlenberg, W. B., Follette, W., & Callaghan, G. M. (2011). Um guia para a Psicoterapia analítica funcional (FAP): consciência, coragem, amor e behaviorismo. Santo André: ESETec.

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