A participação da família no processo terapêutico infantil

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Autora: Débora Louyse Almeida Lapa

Contato: deboralouyse@hotmail.com

O processo terapêutico infantil demanda uma parceria efetiva entre a família e os profissionais envolvidos. A parceria traz uma série de vantagens para ambas as partes e principalmente para o tratamento. Uma vez que a família está envolvida, o terapeuta tem melhor compreensão da demanda e consegue ampliar suas intervenções sobre o comportamento da criança para o ambiente extra-consultório, e ainda, a família compreende melhor o trabalho e os objetivos do terapeuta. Desse modo, o profissional realiza as intervenções necessárias e contribui para o processo de desenvolvimento e aprendizagem da criança.

É um equívoco acreditar que apenas as intervenções do terapeuta bastam para a eficácia do tratamento. Mesmo que uma criança passe por diversas terapias, o tempo que a mesma passa em seu ambiente familiar e com as pessoas próximas é maior. Importante ressaltar que não se trata apenas das horas de terapia, mas também da qualidade desse momento, ou seja, terapias adequadas e direcionadas as demandas da criança.

A Análise do Comportamento nos traz subsídios importantes para a compreensão do comportamento humano e além disso, ferramentas eficazes para o processo de aprendizagem e desenvolvimento. São diversos os recursos da Análise do Comportamento, tanto para os terapeutas quanto para a família.

A base para a utilização desses recursos se encontra na Análise Funcional, esta pode ser a principal ferramenta para o tratamento e participação da família, tanto para a implementação das intervenções fora do consultório quanto para lidar e compreender melhor os comportamentos da criança. Segundo Moura, Grossi, & Hirata (2009):

“A análise funcional possibilita a realização de uma intervenção dinâmica, pois permite que sejam analisadas as relações contingenciais que são determinantes e mantenedoras de um determinado problema, além de possibilitar a realização de estratégias de intervenção, quando necessárias, proporcionando uma intervenção eficaz para o desenvolvimento e melhora do cliente.” (p. 175)

O comportamento pode ser melhor compreendido através da análise funcional do comportamento que consiste em analisar a interação entre o indivíduo e o seu ambiente. Esta análise pressupõe que um indivíduo emite um dado comportamento por este ter sido selecionado por suas consequências (Fonseca & Pacheco, 2010, p.3).

Em alguns momentos a família pode não entender porque a criança se comporta de determinada maneira. Além das questões fisiológicas, há outras variáveis que envolvem o comportamento e uma observação cuidadosa do profissional é necessária. Assim, as observações do terapeuta complementam a experiência da família e com a orientação e suporte necessário os pais e responsáveis podem ser agentes ativos no processo psicoterapêutico.

A unidade de análise e tratamento pode ser bastante específica (molecular) ou bastante ampla (molar) (Meyer, Villas-Bôas, et al. 2015, p. 148), ou seja, a análise funcional pode ser mais ou menos complexa e isso depende das variáveis que mantém o comportamento, por isso, é importante o treino de observação e manejo das consequências, com o suporte do terapeuta.

Antecedentes Comportamento Consequência
O que aconteceu antes?

O que pode ter provocado esse comportamento?

O que a criança fez?

Qual foi sua ação?

O que aconteceu depois?

O que pode ter mantido ou evitado esse comportamento?

 

As consequências podem aumentar ou diminuir a frequência de um comportamento:

Reforço Positivo Reforço Negativo Punição Positiva Punição Negativa
Apresenta um estímulo reforçador. Remove (fuga) ou adia (esquiva) um estímulo aversivo. Apresenta um estimulo aversivo. Remove um estimulo reforçador.
Aumenta a frequência do comportamento. Aumenta a frequência do comportamento. Diminui a frequência do comportamento. Diminui a frequência do comportamento.

 

As tabelas acima apresentam de uma forma simplória os pontos principais de uma Análise Funcional. Entretanto, ao se fazer essa análise é preciso considerar que os efeitos de cada consequência são únicos para cada pessoa. A análise traz um panorama de probabilidades que podem variar de acordo com o repertório comportamental da criança, adquirido ao longo de sua história de vida e as consequências atuais que mantém seus comportamentos.

A utilização da Análise Funcional abre um campo de possibilidade de intervenção, além da compreensão das variáveis e consequências que mantém os comportamentos. Assim, a parceria entre família e terapeutas produz ganhos significativos para o tratamento, o que inclui uma coleta de dados de grande qualidade para os profissionais, além de proporcionar a família maior clareza sobre como as mudanças ambientais (incluindo o próprio comportamento da família) podem proporcionar mudanças significativas no repertório comportamental da criança.

Referências:

Fonseca, R. P. & Pacheco, J. T. B. (2010). Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças. Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., São Paulo, vol. XII, nº 1/2, pp. 1-19.

Meyer, S. B., Villas-Bôas, A. et al. (2015). Terapia Analítico-Comportamental: relatos de casos e análises. Análise Funcional do Comportamento. São Paulo: Paradigma Centro de Ciências e Tecnologia do Comportamento, pp. 239.

Moura, C. B. de, Grossi, R. & Hirata, P. (2009). A Análise funcional como estratégia para tomada de decisão em psicoterapia infantil. Campinas: Estudos em Psicologia, Departamento de Psicologia Geral e Análise do Comportamento, pp. 173-183.

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Debora Louyse Almeida Lapa
Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Newton Paiva em Belo Horizonte – Minas Gerais. Possui experiência em acompanhamento terapêutico de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo em ambiente escolar e domiciliar, atendimentos psicológicos direcionados a dificuldades de aprendizagem de crianças e adolescentes com desenvolvimento típico; Experiência em aplicação do método ABA (Análise do Comportamento Aplicada) para intervenções multidisciplinares em crianças e adolescentes e realiza atendimentos psicológicos clínicos de adultos a partir da abordagem Analítico-Comportamental.
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