Consciência, coragem e amor na FAP.

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Consciência, coragem e amor constituem o modelo ACL – awareness, courage, love – da Psicoterapia Analítica Funcional (FAP). A FAP já foi abordada ricamente em outros textos do site Comporte-se, a respeito do que é este modelo de psicoterapia, quais são os comportamentos clinicamente relevantes (CRBs) do cliente em sessão, quais são as regras que orientam o comportamento do terapeuta em sessão, dados de pesquisas, e outros tópicos que o leitor pode encontrar digitando “FAP” ou “Psicoterapia Analítica Funcional” no campo de busca do site. Assim, por já estarem bem apresentados, não abordarei os conceitos mais básicos da FAP neste texto. O foco é dar seguimento ao artigo “FAP – o modelo ACL e a mudança de comportamentos na vida do cliente”, abordando mais detalhadamente o que é este modelo e como ele é aplicado na psicoterapia.

O modelo ACL se articula com as cinco regras da FAP, orientando o comportamento do terapeuta, e influenciando as aprendizagens do cliente (Ferro-García, 2016).

Regra 1: Observe os CRBs (awareness – consciência)

O cliente se comporta em sessão de forma semelhante à maneira como ele age em sua vida. Então, o terapeuta pode, em certa medida, observar e lidar com os comportamentos relevantes ao vivo, observando os comportamentos do cliente na relação terapêutica, estando consciente do impacto que eles têm no terapeuta e na relação terapêutica, e que situações em sessão evocam esses comportamentos. Assim, o termo consciência se refere à observação e identificação dos comportamentos clinicamente relevantes em sessão, e os eventos antecedentes e consequentes que os controlam (Tsai, Kohlenberg, Kanter, Kohlenberg, Follette & Callaghan, 2011).

  • Terapeuta: Observa que enquanto o cliente fala sobre como é tímido em seus relacionamentos, ele também age timidamente em sessão, desviando o olhar, abaixando a cabeça, ficando períodos longos em silêncio.

Regra 2: Evoque CRBs (courage – coragem)

Trabalhar com os comportamentos problemáticos do cliente ao vivo, pode gerar desconforto ou medo no terapeuta. Por isso, a regra dois prescreve que o terapeuta seja guiado pelas melhorias do cliente e seja corajoso para emitir comportamentos que evoquem tais melhorias (Tsai et al., 2011).

  • Terapeuta: Parece que esses comportamentos que você está relatando sobre sua timidez em seus relacionamentos, também estão acontecendo agora, como desviar o olhar e permanecer de cabeça baixa. Você está se sentindo tímido comigo também?
  • Cliente: Sim, eu não havia percebido que estava desviando tanto o olhar. Me desculpe, vou prestar mais atenção para olhar para você enquanto conversamos.

O terapeuta fala abertamente e corajosamente sobre o problema em sessão para o cliente, e quando o terapeuta se coloca vulnerável nessa interação, ele aumenta a probabilidade de que o cliente também se coloque vulnerável, e emita o comportamento desejado, neste caso, ser corajoso para olhar diretamente para o terapeuta enquanto conversa.

Regra 3: Reforce CRBs2 (love – amor)

A palavra amor está relacionada à regra três porque se refere à empatia do terapeuta ao abordar cuidadosamente as dificuldades do cliente, e também ao reconhecer os pequenos progressos dele, a fim de reforçar naturalmente e diferencialmente cada aprendizagem ou melhoria (Tsai et al., 2011).

  • Cliente: Sim, eu não havia percebido que estava desviando tanto o olhar. Me desculpe, vou prestar mais atenção para olhar para você enquanto conversamos.
  • Terapeuta: E que bom que, ao perceber, você ficou mais atento ao seu comportamento, e tentou olhar diretamente para mim. Imagino que manter esse olhar não seja fácil, mas assim, de cabeça erguida e olhando para mim, eu consigo te ver melhor, te ouvir melhor, e te entender melhor.

O terapeuta buscou reconhecer tanto a dificuldade do cliente como o enfretamento que ele fez ao tentar manter o olhar direto para o terapeuta, assim, o terapeuta foi empático tanto com as dificuldades como com as melhorias, e ao ser empático há uma probabilidade maior de que o comportamento do terapeuta funcione como reforço natural para o comportamento de melhora do cliente em sessão, além de servir de modelo ao cliente de como agir empaticamente nos relacionamentos.

Regra 4: Avalie o efeito (awareness – consciência)

Depois que o terapeuta buscou reforçar naturalmente o comportamento alternativo do cliente, é preciso avaliar se de fato o comportamento foi reforçado, é preciso ter consciência do impacto da intervenção no comportamento do cliente. O terapeuta pode fazer isso de, ao menos, duas formas (Tsai et al., 2011):

1)      Observando o comportamento subsequente do cliente:

  • Terapeuta: Observa que o cliente permanece olhando diretamente ao terapeuta enquanto conversa.

2)      Perguntando diretamente ao cliente para avaliar o impacto: Como foi para você isso que aconteceu agora? Como foi para você agir dessa forma? O quanto você acha que isso pode acontecer nas suas relações no dia-a-dia?

  • Terapeuta: O quanto você acha que conseguiria tentar manter a cabeça erguida, olhando para a pessoa com quem você conversa, em outras relações do seu dia-a-dia?
  • Cliente: Acho que é importante tentar, posso começar com as pessoas mais próximas, talvez seja mais fácil.

Assim, o terapeuta se torna mais consciente do impacto de sua intervenção no comportamento do cliente, e também tem a possibilidade de melhorar a consciência do cliente sobre a possibilidade de suas aprendizagens também ocorrerem em contextos fora da terapia.

Regra 5: Interprete funcionalmente e implemente estratégias de generalização (behaviorism – seja behaviorista)

Interpretar funcionalmente é uma estratégia que torna mais evidente ao cliente as variáveis que controlam seu comportamento. Então, na medida em que o terapeuta analisa uma contingência com o cliente, ele se torna mais consciente do que controla seu comportamento e, assim, há uma probabilidade maior de que ele identifique comportamentos alternativos a serem emitidos em sua vida. Sugere-se, também, que o terapeuta tenha um foco maior em ensinar o cliente a analisar o próprio comportamento, ao invés de fornecer as análises prontas, a fim de torna-lo mais autônomo nas análises dos seus comportamentos e, assim, possa identificar mais facilmente comportamentos alternativos com probabilidade maior de reforço (Villas-Bôas, Meyer, Kanter & Callaghan, 2015).

  • Terapeuta: Você consegue identificar em que situações você buscou olhar mais para mim hoje?
  • Cliente: Ah, acho que quando você estava contando coisas eu busquei mostrar que estava atento, olhando diretamente para você.
  • Terapeuta: E como você se sentiu ou o que você percebeu que mudou ao agir assim?
  • Cliente: Um pouco tímido, mas ao mesmo tempo satisfeito por estar agindo diferente.

Uma vez que o cliente foi capaz de analisar funcionalmente seu comportamento em sessão, o terapeuta pode investir em paralelos funcionais sobre situações em que esses comportamentos alternativos poderiam ser emitidos na vida dele para produzir consequências reforçadoras (Villas-Bôas et al., 2015).

  • Terapeuta: Em que situações semelhantes você acha que seria importante tentar agir assim na sua vida?
  • Cliente: Em todas em que houver relacionamento, mas principalmente com as pessoas que são importantes para mim.
  • Terapeuta: E que impacto você acha que agir assim – conversar olhando diretamente para a pessoa – pode ter nessas relações com pessoas que são importantes para você?
  • Cliente: Talvez elas percebam que eu realmente me importo com elas e com o que elas têm a dizer.

As tarefas de casa têm sido propostas na FAP como uma estratégia que pode facilitar a extensão de aprendizagens obtidas em sessão para a vida diária do cliente, com as seguintes funções: 1) testar os comportamentos aprendidos; 2) praticar esses comportamentos; 3) e aumentar a probabilidade de reforço natural para tais comportamentos, em contextos variados da vida do cliente (Tsai et al., 2011).

  • Terapeuta: Então parece que pode ser bem interessante tentar agir desse modo com elas. Sabendo disso, o que você acha que poderia tentar fazer nessa semana, com relação ao que trabalhamos hoje?
  • Cliente: Acho que posso começar com a minha namorada, vou ficar atendo para olhar mais para ela enquanto conversamos.

Apesar de a regra 5 propor que o terapeuta invista em estratégias de generalização, o processo de transposição das aprendizagens obtidas em sessão para a vida diária ainda não está bem definido.  A generalização pressupõe que estímulos com propriedades físicas semelhantes evoquem um mesmo comportamento. Mas, o que parece ocorrer na FAP é diferente, parece que o cliente passa a emitir os comportamentos aprendidos em sessão, em contextos da vida diária que são funcionalmente semelhantes ao contexto de terapia (Haworth, Kanter, Tsai, Kuczynski, Rae & Kohlenberg, 2015).

Em síntese, o modelo ACL se refere tanto aos comportamentos emitidos pelo terapeuta como aos comportamentos a serem aprendidos pelo cliente. Isso quer dizer que o terapeuta intervém com consciência dos comportamentos clinicamente relevantes e das variáveis de controle, com coragem para evocar aprendizagens do cliente, e com amor para abordar as dificuldades e reforçar os progressos dele. Quanto ao cliente, quer dizer que ele aprende a estar mais consciente sobre sua forma de se comportar no mundo e sobre as variáveis que controlam seus comportamentos, que ele aprende a ter coragem para sair da zona de conforto e agir diferente em prol de melhorias em sua vida e em seus relacionamentos, e que ele aprende a ser mais amoroso, gentil ou respeitoso ao lidar com o outro nas relações interpessoais (Ferro-García, 2016). Ademais, consciência, coragem e amor são termos genéricos, mas o terapeuta comportamental tem, ou deveria ter, condições de operacionalizar os comportamentos que ele espera do cliente, com relação estar consciente, ter coragem e agir com amor.

OBS.: O exemplo clínico exposto neste texto é fictício, não se trata de um caso clínico real.

 

REFERÊNCIAS

Ferro-García, R., Valero-Aguayo, L., & López Bermúdez, M. Á. (2016). Fundamentos, características y eficacia de la Psicoterapia Analítica Funcional. Análisis y Modificación de Conducta, 42 (165-6).

Haworth, K., Kanter, J. W., Tsai, M., Kuczynski, A. M., Rae, J. R., & Kohlenberg, R. J. (2015). Reinforcement matters: A preliminary, laboratory-based component-process analysis of Functional Analytic Psychotherapy’s model of social connection. Journal of Contextual Behavioral Science. http://doi.org/10.1016/j.jcbs.2015.08.003

Tsai, M; Kohlenberg, R. J.; Kanter, J. Kohlenberg, W.; B.; Follette, W.; Callaghan, G. M. (2011). Um guia para a Psicoterapia analítica funcional (FAP): consciência, coragem, amor e behaviorismo. Santo André: ESETec.

Villas-Bôas, A., Meyer, S. B., Kanter, J. W., & Callaghan, G. M. (2015). The use of analytic interventions in Functional Analytic Psychotherapy. Behavior Analysis: Research and Practice, 15 (1), 1–19. http://doi.org/10.1037/h0101065

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Mônica Camoleze
Psicóloga (CRP 08/15023), graduada pela Universidade Positivo. Especialista em terapia analítico-comportamental pelo Instituto de Análise do Comportamento de Curitiba. Formada em terapia comportamental dialética, pelo Dialectica Psicoterapia Baseada em Evidências. Mestre em psicologia pela Universidade Federal do Paraná, com pesquisa sobre psicoterapia analítica funcional. Em formação em psicoterapia analítica funcional e terapia de aceitação e compromisso pelo Instituto Continuum. Atua como psicóloga clínica em Curitiba, atendendo crianças, adolescentes, adultos e casais.
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