Prof. Dr. Júlio César De Rose comenta divulgação da frase: “não temos provas, mas temos convicção”

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O Professor Dr. Júlio Cesar Coelho De Rose, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), habitualmente comenta questões políticas e sociais em seu perfil  no Facebook. Suas publicações apresentam, ainda que de modo informal, reflexões baseadas na teoria e filosofia comportamentalista sobre aspectos polêmicos da realidade brasileira. Nesta sexta feira, 16 de setembro, o assunto abordado foi a ampla divulgação feita através das redes sociais e blogs políticos de uma frase atribuída ao chefe da força tarefa da Lava Jato, o procurador Deltan Dallagnol.

Confira o texto na íntegra abaixo:

Esse é um textão. Não leia se você não gosta de ler textão. Esse textão não defende uma ideologia ou posição política. Não leia se você só gosta de ler coisas que defendem sua posição.

Os 10 leitores que continuaram (sendo otimista) já podem ter visto o filme Rashomon, de Kurosawa, um dos meus dois filmes favoritos. Rashomon mostra (entre muitas outras coisas) como devemos desconfiar de tudo o que se diz. No filme, houve um crime (estupro de uma mulher e assassinato do marido) e os três envolvidos (estuprador, mulher e marido) contam sua versão da história no tribunal (o marido morto fala através de um médium). Depois um lenhador que passava pelo local e presenciou o crime dá seu depoimento. Cada um dos três envolvidos afirma ter sido o assassino (o morto diz que se suicidou). Todos podem estar mentindo para se apresentar do modo mais favorável. No fim vemos que o lenhador também teria motivos para mentir.

Acontece que a esmagadora maioria das coisas que nós afirmamos, das quais estamos convencidos, não foram presenciadas por nós. Como diria Skinner, não são “tatos”, são “intraverbais”, coisas que nós ouvimos de outros ou lemos em livros ou jornais ou em posts do facebook. Nossas “fontes” frequentemente também ouviram de outros… Alguém pode ter presenciado fatos ou estudado os dados em primeira mão, mas ele pode ter distorcido seu relato por mentira deliberada (não é tão frequente quanto se pensa), por distorções de memória, mecanismos de defesa, dissonância cognitiva, etc. Em suma, a base das nossas convicções é, na maior parte dos casos, muito frágil.

Um pequeno exemplo: O procurador afirmou mesmo que tem convicções sem provas? Você ouviu ele dizendo? Ou pessoas afirmam isso porque foi dito por alguém em quem elas confiam? Ou então, ainda mais difícil, o procurador não fez essa afirmação? Você não pode ter ouvido ele “não afirmar”. Como você pode ter certeza de que ele não afirmou isso?.

O procurador pode ter dito ou não ter dito que tem convicções sem provas, mas nossas convicções raramente se baseiam em provas (a não ser que tomemos como “provas” as afirmações dos outros). Essa é uma situação muito desconfortável. Uma solução é ter uma ideologia ou uma religião (é quase a mesma coisa). Aí os textos sagrados ou as afirmações das autoridades religiosas ou ideológicas nos ditam em que ou em quem devemos acreditar.

Rashomon é um filme muito perturbador. Ele nos indica que no emaranhado de afirmações controvertidas em que estamos imersos nós raramente podemos ter uma base sólida para nossas posições. O mínimo que poderíamos fazer é não nos apegar religiosamente a elas.

Você pode também acessar a publicação original em seu facebook e acompanhar os comentários realizados pelos leitores:

 

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