O feminismo mudou a ciência. Mudará ele a Análise do Comportamento?

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Londa Schiebinger

Costumo fazer dessa coluna periódica um espaço no qual compartilho com possíveis leitores e leitoras interessados aquilo que venho lendo, pensando, estudando e, eventualmente, alguma coisa irresistível com a qual me deparo de repente e mergulho de cabeça, como é o caso do livro O feminismo mudou a ciência? da historiadora e professora da Pennsylvania State University, Londa Schiebinger.

Tentarei delinear minhas impressões a respeito do livro, ou seja, os efeitos que as ideias de Londa produziram em mim enquanto analista do comportamento e enquanto apoiador das lutas das mulheres nos mais diversos campos sociais, especificamente, nesse caso, no campo das ciências. Enfatizo aqui a impossibilidade de que minhas palavras façam justiça ao trabalho magnífico de reconstrução histórica e de questionamento filosófico e epistemológico feito pela autora, me restando apenas a opção de recomendar fortemente que a leiam e tirem suas próprias conclusões.

O livro se divide em três grandes seções. A primeira se chama “as mulheres na ciência”, e narra o desenvolvimento histórico das ciências ocidentais, com foco no papel das mulheres ao longo dos séculos; das mais conhecidas às ilustres desconhecidas, Londa resgata os contextos sociais que favoreciam, a princípio, a participação feminina no empreendimento científico, e que foram aos poucos barrando o acesso da mulher na ciência enquanto campo profissional. A segunda se chama “o gênero nas culturas da ciência”, e conta a história de como as noções de feminilidade e masculinidade moldaram os contextos de produção científica, especialmente no século XX, com destaque para a separação entre vida pública e vida privada, que em ciência tendem a significar vida do homem enquanto pesquisador e cientista e vida da mulher enquanto dona de casa e cuidadora familiar. A terceira e última seção se chama “o gênero no cerne da ciência”, e é a que eu mais gostei. Nela, Londa aborda a fundo o papel de signos e símbolos de gênero não só na forma de organização social e institucional das ciências, mas no próprio fazer científico. Em outras palavras, a autora explora o papel que a “generização”, como ela mesma diz, exerce na produção de conhecimento.

Antes de mais nada, reconhecendo os diversos usos do termo “gênero” ao longo do tempo, a autora esclarece seu próprio uso: “Ele é mais propriamente usado para referir um sistema de signos e símbolos denotando relações de poder e hierarquia entre os sexos. Ele pode também referir-se a relações de poder e modos de expressão no interior de relações do mesmo sexo” (p. 45).

É evidente que conhecer a história do desenvolvimento da ciência enquanto instituição é fundamental para que possamos compreendê-la nos dias de hoje, mas foram as duas últimas seções que me deixaram mais impressionado. O edifício que Londa ergue para sustenta-las é sólido, apoiado em um mundaréu de dados que ilustram a constante exclusão da mulher da vida pública e da vida científica conforme a academia se profissionalizou. Uma vez que esforços sociais e governamentais foram feitos para incluir mulheres na ciência e reduzir esse vácuo histórico, muitas começam a participar ativamente da vida e da produção acadêmica, não sem barreiras e desafios inexistentes ou irrelevantes na trajetória dos homens. Com isso em mente, a análise prossegue para categorias culturais de gênero e seu papel na atividade do cientista, e a autora é generosa conosco ao descrever casos de pelo menos seis disciplinas: medicina, biologia, primatologia, arqueologia, matemática e física.

Os sistemas de signos e símbolos denotando relações de poder se manifestam na medicina ao longo do tempo de várias formas, talvez a mais perigosa sendo a adoção do corpo masculino como a medida de todas as coisas. As consequências são muitas, e a negligência dos processos mais básicos do organismo feminino (que também apresenta muitas diferenças em termos de etnias) leva ao ensino discriminatório do ofício, à prática segmentada da profissão, à produção de fármacos potencialmente danosos às mulheres e, em última instância, à morte de mulheres pela administração de tratamentos inadequados, baseados na fisiologia do homem. Eis aqui um bom relato a esse respeito.

A biologia é permeada de exemplos de signos e símbolos culturais machistas de gênero. São tantos que é difícil até mesmo começar. Espermatozoides são vistos como ativos e exploradores, e óvulos são tomados como passivos, pesquisas de mulheres ajudaram a demonstrar que essa noção é completamente descabida, e linhas de pesquisa subsequente demonstraram o quão rica, ativa e relevante é a atividade do óvulo no desenvolvimento posterior dos organismos; noções vitorianas dos papéis sociais femininos inundaram o estudo da seleção e do desenvolvimento sexual de inúmeras espécies, e mulheres na etologia, antropologia, biologia molecular e biologia evolutiva demonstraram que um ponto de vista diferente produz dados incompatíveis e põe abaixo as narrativas dominantes; o desenvolvimento sexual feminino já foi visto como um desvio da norma, ou a ausência de algo, por vezes identificada como a atividade diferencial de um cromossomo, noção desbancada por cuidadosos estudos do desenvolvimento embriológico e sexual feminino.

A primatologia, um dos poucos campos dominados por mulheres, desmistificou noções que estudavam os primatas como machos dominadores de bandos, à procura de fêmeas para sua reprodução. Mulheres se propuseram a estudar as fêmeas, e descobriram uma complexa rede de relações, de modo que as próprias fêmeas possuem um papel ativo na escolha de parceiros sexuais; o estudo de sociedades de primatas com características masculinas dominadoras foi vista como uma espécie de estudo de origens de nossas sociedades patriarcais ocidentais, o que também tem sido demonstrado sem cabimento do ponto de vista da própria primatologia.

A arqueologia, em suas relações com a história e a antropologia, é dominada por homens no que diz respeito às atividades mais prestigiadas, como expedições de campo. Boa parte da interpretação tradicional sobre o papel das mulheres ao longo das eras e o desenvolvimento do modelo sedentário de sociabilidade repousam sobre evidências de instrumentos de caça, em geral de pedras. O homem caçador era a figura central, e a mulher coletora sua coadjuvante. Todavia, pesquisadoras (e pesquisadores) foram capazes de demonstrar que instrumentos utilizados pela mulher coletora, como tipoias, redes de coleta, entre outros, tiveram papel fundamental na dinâmica social de sociedades antigas, bem como há evidências negligenciadas de mulheres caçadoras em vários lugares do planeta. Em suma, a imagem do homem público e da mulher privada que já vinha sendo consolidada nas narrativas históricas vem sendo derrubada.

A física e a matemática, ciências de forte caráter abstrato e dominadas por homens desde muito cedo, são presumidas como livres de criticas de gênero. No entanto, apesar dos poucos estudos feministas sobre as práticas dessas áreas, a própria noção de uma atividade científica desprendida de seu tempo e com uma pretensão universalizante parece frágil aos olhos dos desenvolvimentos recentes em filosofia das ciências, e se ainda há trabalho a ser feito quanto ao papel de signos e símbolos de gênero nos seus fazeres científicos, certamente a organização institucional e o baixo número de mulheres é um dado significante para essas disciplinas.

Todas as transformações mencionadas nas disciplinas em questão, de sua distribuição demográfica às suas categorias básicas de análise, sofreram decisiva influência do papel ativo de mulheres no campo, no laboratório, na sala de aula, nos corredores, na militância social e nas agências governamentais. Londa enfatiza que não basta colocar a mulher dentro do sistema, embora seja talvez o primeiro passo, mas é preciso batalhar para derrubar signos e símbolos de gênero tradicionais, seja do ponto de vista epistemológico, ou a produção de conhecimento baseada em categorias sexistas, seja do ponto de vista institucional, dando acesso a cargos e posições de poder às mulheres, bem como em um sentido estrutural amplo, combatendo políticas de governo e promovendo redes de apoio que trabalhem por mudanças culturais em várias frentes.

Londa é muito bem sucedida em sua demonstração das mudanças que perspectivas feministas produziram no jeito de fazer ciência, de organizar a ciência enquanto instituição, nas categorias e teorias científicas e nos objetos investigados. Ainda mais importante do que incluir as mulheres na ciência é produzir novas formas de fazer ciência, com novas perguntas e novos objetos, uma tarefa eminentemente feminista.

Eu perguntaria, então, o que podem fazer os feminismos para o Behaviorismo Radical enquanto filosofia de ciência, e para uma ciência do comportamento? Quais são os pontos cegos fonte de discriminação no interior de suas comunidades verbais, suas instituições, suas agências de controle?

Nos últimos anos temos visto o surgimento, pra não dizer ressurgimento, de perspectivas feministas sobre o empreendimento behaviorista como um todo. Feministas formulam novas perguntas e questionam as noções vigentes sobre o fazer clínico; feministas formulam novas perguntas e questionam as noções vigentes sobre o fazer experimental; feministas formulam novas perguntas e questionam as noções vigentes sobre as áreas aplicadas; feministas formulam novas perguntas e questionam as noções vigentes sobre a própria filosofia de ciência behaviorista radical e seus compromissos ontológicos, epistemológicos, éticos e estéticos; feministas formulam novas perguntas e questionam as noções vigentes sobre a organização dos departamentos, laboratórios, congressos e grupos de poder na área; feministas formulam novas perguntas e questionam as noções vigentes sobre a participação das mulheres e sua valorização nas comunidades e, por fim, questionam as contingências sociais que predominam em sociedades patriarcais, tomando o patriarcado como objeto de estudo na forma de agência de controle.

Coletivos de mulheres analistas do comportamento despontaram; grupos de estudo no Ceará, no Paraná e em São Paulo se propõem a pensar todas essas questões; mulheres organizam grupos de interesse em congressos grandes como a ABPMC, em jornadas regionais e em reuniões informais pelas redes sociais. Recentemente, uma nota firmando posicionamento da comunidade sobre os recentes casos de estupro coletivo no país foi redigida por mulheres e analistas do comportamento.

A curto prazo, as consequências desse engajamento vão se mostrando benéficas, como uma lufada ar fresco para uma comunidade que não deu a essas questões sua devida importância, a despeito de ter em sua história grandes mulheres como ícones e em posições de poder. A médio e longo prazos, acredito que mudanças importantes em termos de produção científica e de organização social e institucional serão alcançadas.

Finalizo dizendo que minha intenção com essa reflexão é dar visibilidade ao fantástico trabalho da Londa Schiebinger, em primeiro lugar, e fomentar a discussão dentro da própria análise do comportamento*. Nesse sentido, reconheço que meu papel é de facilitador,  uma vez que tais mudanças deverão ser reconhecidas como consequência  dos esforços realizados pelas mulheres, analistas do comportamento ou não, que se dedicam a essa tarefa dia e noite enquanto parte de sua produção científica e militância social.

*O mais adequado em termos de visibilidade seria mencionar diretamente os trabalhos das mulheres em questão. Na ausência de um levantamento preciso sobre o que tem sido feito por essas pesquisadoras e militantes, optei por mencionar, por alto, iniciativas de amplo conhecimento, para não correr o risco de omitir ninguém e trair minha própria proposta de dar visibilidade. Caso tenha acesso a algum levantamento dessa natureza, editarei o post posteriormente para de alguma forma mencionar esses trabalhos.

Referências

Schiebinger, L. (2001). O feminismo mudou a ciência? Bauru, SP: EDUSC. (Original de 1999).

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