Não basta sorte: existem habilidades essenciais para ser bem sucedido no poker

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Autor: Fábio Campos

Ainda há quem acredite que o poker é um mero jogo carteado, cujo destino nas partidas é determinado tão somente pela sorte e aleatoriedade no embaralhamento e distribuição das cartas. Mas, na verdade, é um tanto quanto simplório pensar desta forma. Afinal de contas, como existem jogadores que, de fato, ganham constantemente e outros que perdem constantemente? A sorte não é capaz de explicar sozinha – nem ao menos atuar como fator preponderante para – esse fato.

Existem diversas habilidades indispensáveis para que um campeão de poker nasça no horizonte. Entre elas, destacam-se a de realizar cálculos de probabilidade e  correlacionar o valor do investimento das fichas à probabilidade “daquela” última carta aparecer. Por exemplo, se a probabilidade de uma carta de copas aparecer para o flush é de 25% e o jogador precisar investir mais de 25% do pote para se manter no jogo, não há valor na jogada. Estas são habilidades complexas, que dizem respeito a comportamentos verbais encobertos bastante típicos de jogadores campeões. Não é delas, porém, que falaremos hoje.

Há uma habilidade, em especial, que é característica dos grandes campeões. Ela se chama “atenção plena”. Ser capaz de se concentrar no jogo, sem se deixar levar pelos pensamentos e emoções do momento – em especial quando se está ganhando – e, consequentemente, entrar no que os jogadores chamam de “espiral negativa”, é o que diferencia o experiente e o iniciante no campeonato. É preciso, ainda, possuir autoconhecimento e tolerância à frustração – os erros, e o eventual azar em uma mão, fazem parte do jogo e são pouco importantes no longo prazo: é preciso saber reconhecer e admitir que é chato, é frustrante, dá raiva, mas acontece. É mais ou menos como o desperdício na cozinha de um restaurante: mesmo que você não queira, ele vai aparecer, e nem por isso deve jogar toda a comida fora. A questão, determinante para o sucesso, é: como é possível diminuí-los para que não prejudiquem tanto?

Nas duas situações descritas – se deixar levar pelas emoções de estar ganhando ou pela frustração diante de um erro, ou do puro azar –, costuma acontecer um dos fenômenos comportamentais mais interessantes do poker: o tilt. O Tilt é como uma máquina sem óleo, uma comida sem tempero. Se caracteriza por uma espiral negativa para o jogador de poker. De uma hora para outra, ele começa a perder seguidas mãos. Pode ser sono após uma longa maratona, pode ser fome por estar na mesa por muito tempo, ou ainda, um problema no casamento ou emoção negativa à qual o jogador responde bem na hora H. Mas como lidar com isso?

Em situações assim, vale a pena conhecer os conselhos dos jogadores profissionais, campeões experientes, que já adquiriram as habilidades necessárias para o jogo.

 “Cada detalhe conta, então descubra o que tira o seu foco e altera sua forma de jogar, e corrija esses “defeitos”. Quando alguém disser que nunca tilta, desconfie. E claro, não esqueça de apertar aquele jogador que está quase dormindo na mesa” escreveu Ivan Ban Martins, profissional de poker, para o Blog da PokerStars no ano passado.

Não adianta fugir, nem negar. O Tilt é uma constante nas mesas de poker, e o segredo para ser bem sucedido é detectar seus controles ambientais o mais breve possível – e em se tratando de um esporte competitivo, tirar vantagens dos que se encontram neste estado pode ser determinante para o sucesso.

Com efeito, detectar é o primeiro passo. E é aqui que entra o autoconhecimento citado anteriormente. Geralmente, os grandes campeões identificam os Tilts por meio das deixas (estímulo discriminativos específicos), que na maioria das vezes, são bastante objetivas.  Perder cinco mãos seguidas após ver o flop (as três primeiras cartas comunitárias no Texas Hold’ em), por exemplo, ou perder 1/3 do capital de jogo – isto é, as fichas.

O segundo e decisivo passo é mais difícil de se executar, em grande parte, pela dificuldade dos jogadores em tolerar a própria frustração e limitações pessoais. O tilt acaba sendo mais grave e dilapida o patrimônio dos jogadores nas mesas quando, em uma tentativa de evitar o contato com as emoções aversivas geradas pelo jogo, ou ainda, do risco de perder, o competidor diz para si mesmo algo como “agora vai, vou apostar tudo para recuperar o que perdi”, sem qualquer análise da situação. Uma estratégia para evitar que isso aconteça é, simplesmente, se distanciar da situação por alguns minutos – sair da mesa, beber um copo de água, levantar, se alongar. O distanciamento tem como efeito a redução na intensidade das emoções, e consequentemente, em seu poder de suprimir a capacidade de raciocínio lógico. Trata-se de uma conhecida estratégia de manejo de estresse em competições.

Falando estratégias comportamentais, e o blefe?

É impossível escrever um artigo sobre o lado psicológico do poker sem falar no blefe. Afinal de contas, nos filmes de Hollywood como Casino Royale e tantos outros, o blefe aparece a torto e direito como elemento essencial no jogo de um grande vencedor nas cartas.

É interessante salientar que o blefe não é uma disputa de cartas – estas, o objetivo mediato do jogo -, mas sim, uma disputa de jogadores. Aquele que estiver em um momentum melhor, em uma posição de “predador” da mesa, vencendo a maioria das mãos, tende a tirar vantagens blefe. O que estiver em uma situação mais aversiva, com o repertório operante suprimido pelas emoções ou pelas tentativas de fugir da situação, tende a perder.

Blefar significa, tão somente, apresentar descrições verbais de jogadas, cartas ou condições de jogo não correspondentes às cartas, condições ou jogadas existentes – em termos comportamentais, o blefe corresponde a apresentar tatos distorcidos ao oponente, levando-o a responder à contingência de forma a se prejudicar. A estratégia é mais eficiente com jogadores que estejam mal no jogo, perdendo com frequência, com poucas fichas ou em qualquer outra condição aversiva – estes farão qualquer coisa para fugir daquela condição, eliminando o contato com a estimulação aversiva, e consequentemente, não demorarão se transformas em “caças” para um “hábil caçador”.

A psicologia do jogo, seja no que tange à atenção plena, ao autoconhecimento ou a habilidade de blefar, é um elemento essencial no repertório de habilidades de um grande jogador de poker. Negligenciá-la pode ser fatal. Embora a matemática seja importante, a aquisição de habilidades como as citadas é indispensável.

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