O que é a mente?

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O que é a mente?

A mente é um tema de grandes discussões no campo da Psicologia. Para os que seguem a perspectiva da Análise do Comportamento, há ainda mais questionamentos. O que é a mente? Como a mente interfere no modo como agimos?

Há o equívoco de que a Análise do Comportamento não estuda a mente e se atém apenas aos comportamentos observáveis. Entretanto, é necessário uma distinção: a mente como um substantivo e a mente como um verbo.

A Análise do Comportamento enquanto uma perspectiva não internalista, desconsidera a mente como um substantivo, uma instância psíquica, um lugar oculto, uma “coisa” ou entidade.  Pode-se considerar que para a perspectiva internalista:

“ o homem interior guia o corpo da mesma maneira que o guidão da direção orienta o automóvel. O homem interior deseja uma ação, o exterior executa. O interior perde o apetite, o exterior para de comer. O homem interior quer, o exterior consegue” (Skinner, 1953, p.31)

A perspectiva externalista na Análise do Comportamento considera a mente enquanto um verbo, isto é, comportamentos aprendidos ao longo da história de vida da pessoa que são mais prováveis de serem emitidos. Ou seja, se você se comporta de uma determinada maneira não é por causa de uma Mente ou um Eu Interior, mas de uma história de aprendizagem individual, cultural e inclusive pela evolução fisiológica da espécie.

Toda essa atribuição internalista dos processos humanos, para a Análise do Comportamento, não é necessária. Os fenômenos denominados “mentais” são controlados pelas mesmas contingências e variáveis que o comportamento que podemos observar. O comportamento privado, isto é, aquele que pode ser observado apenas pela própria pessoa “são dotados de natureza física e podem ser interpretados com os mesmos conceitos com os quais se interpretam os fenômenos públicos” (Simonassi, Tourinho,& Silva, 2001, p.134). Isto significa que os seus pensamentos, sonhos, sentimentos, entre outros comportamentos privados, são possíveis de serem compreendidos da mesma forma que os comportamentos públicos.

“A inacessibilidade à observação pública, que confere especificidade aos eventos privados, pode ser momentânea e circunstancial. Indiretamente, aqueles eventos podem tornar-se públicos com o relato do participante, produzido por contingências de que a comunidade verbal dispõe” (Simonassi, et al. 2001, p.134)

Sendo assim, é viável entender os comportamentos privados, que inicialmente em sua ocorrência não são possíveis de observação, a partir do comportamento público e verbal da pessoa, quando esta os relata de forma descritiva. “O ponto central é que a análise behaviorista radical do pensamento é, na verdade, uma análise das contingências verbais envolvidas com o termo “pensamento”” (Zilio, 2010, p.151).

Quando alguém diz que está nervoso, cabe a pergunta: O que é estar nervoso? Com o objetivo de que a pessoa consiga discriminar quais sensações e ações comportamentais que são nomeadas como nervosismo. Por exemplo, ter sensação de taquicardia, mãos trêmulas, sudorese etc. Ou seja, esse conjunto de comportamentos públicos são nomeados como “nervosismo” e acabam por serem considerados “internos, mentais”. Cabe analisar de forma descritiva todos os comportamentos emitidos pela pessoa, sejam eles observáveis ou não. “Enquanto caminho pela sala, estou me comportando; enquanto penso no que vou dizer em seguida, estou me comportando; enquanto sinto a ansiedade característica de me expor ao público, também estou me comportando” (Machado, 1997, p.101)

A Análise do Comportamento não compartilha do dualismo entre mente e corpo, pois uma vez que a mente é considerada imaterial e o corpo como material, a mente se torna algo para além do organismo, ou seja, um “substantivo” que governa o modo como nos comportamos.

Na perspectiva externalista e materialista que baseia-se a Análise do Comportamento, o estudo do ser humano deve partir da análise do organismo como um todo, em sua interação com o ambiente. Isso compete aos seus comportamentos resultados dessa relação, sejam eles acessiveis a observação direta ou aqueles que inicialmente são observados apenas pela pessoa que emite, mas que, a partir do relato, da descrição comportamental, é possível compreender as variáveis pelas quais o comportamento é determinado.

Para a Análise do Comportamento, o termo “Mente” representa uma nomeação internalista para um série de comportamentos privados que ao analisarmos de forma descritiva, revelam sua natureza física e observável. Desse modo, a mente representa os comportamentos selecionados a partir da história de vida do individuo, com maior probabilidade de ocorrência, isto é, disposições para agir de determinada maneira nas mais diversas situações.

Nossos comportamentos são nomeados pela cultura com perspectivas internalistas, então quando uma pessoa emite o comportamento de chorar com frequência os outros a nomeiam como alguém frágil, por exemplo. Assim temos uma característica causal, ou seja, a pessoa chora com frequência porque é frágil (perspectiva internalista). Já a Análise do Comportamento visa identificar os comportamentos, privados e públicos, nomeados como fragilidade e quais as variáveis ambientais, antecedentes e consequências, mantém esse comportamento enquanto uma disposição para agir dessa forma. “Os conceitos mentais que puderem ser “traduzidos”  a partir dessa concepção de mente, podem ser estudados em termos de comportamento e, consequentemente, de modo científico” (Lopes, 2003, p. 87).

Referências:

Lopes, C. E. (2003). Conceitos disposicionais no Behaviorismo Radical e a mente imanente. Em M. Z. S. Brandão, F. C. S. Conte, F. S. Brandão, Y. K. Ingberman, C. B. de Moura, V. M. da Silva e S. M. Oliane (orgs.) Sobre Comportamento e Cognição, vol. 11, pp. 82-88. Santo André: ESETec.

Machado, L.M.C.M. (1997). Consciência e Comportamento Verbal. Psicologia USP, 8(2), 101-108.

Simonassi, L.E., Tourinho, E. Z., & Silva, A. V. (2001). Comportamento privado: acessibilidade e relação com comportamento público. Psicologia: Reflexão e Crítica, 14(1), 133-142.

Skinner, B.F. (2000). Ciência e comportamento Humano. Tradução de J. C. Todorov e R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1953).

Zilio, D. (2010). A natureza comportamental da mente : behaviorismo radical e filosofia da mente. São Paulo: Cultura Acadêmica. 294p.

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Debora Louyse Almeida Lapa
Graduanda em Psicologia pelo Centro Universitário Newton Paiva em Belo Horizonte – Minas Gerais. Possui experiência em acompanhamento terapêutico de crianças com Transtorno do Espectro do Autismo em ambiente escolar e domiciliar, atendimentos psicológicos direcionados a dificuldades de aprendizagem de crianças e adolescentes com desenvolvimento típico; Experiência em aplicação do método ABA (Análise do Comportamento Aplicada) para intervenções multidisciplinares em crianças e adolescentes e realiza atendimentos psicológicos clínicos de adultos a partir da abordagem Analítico-Comportamental.
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