Resenha das palestras do I Encontro de Psicologia e Saúde do Centro-Oeste

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O Grupo de Estudos de Análise do Comportamento Brohavior –, na pessoa do membro Paulo Aguirra, submeteu ao Comporte-se uma resenha do I Encontro de Psicologia e Saúde do Centro Oeste, evento que contou com a participação de diversos analistas do comportamento de renome, como Maly Delitti, João Cláudio Todorov, Alessandra Albuquerque, Carlos Augusto de Medeiros,  Denise Lettieri, Jorge Salim Risk e Simone Roballo.  Confira:

O encontro, ocorrido em 7 de novembro de 2015, foi uma ótima oportunidade para iniciantes em Análise do Comportamento conhecerem os campos de atuação e relacionarem com a teoria. Os palestrantes eram apresentaram de uma forma simples, em vários momentos senti estar participando de uma conversa de amigos, esquecendo que estava diante de grandes nomes da Análise do Comportamento no Brasil.

Seguem as minhas anotações das palestras do evento:

1- ‘Terapia Comportamental e Análise dos Sonhos’

Profa. Dra. Maly Dellitti – PUC/SP

O questionamento principal da apresentação foi o papel dos sonhos no consultório clinico. Caso o cliente fale de sonhos, devemos reforçar ou extinguir? É possível fazer uma análise comportamental dos sonhos? A Professora nos lembrou que sonhar é um comportamento, logo, nada impede uma análise sob a ótica comportamental.  Explicou que os sonhos fazem parte dos comportamentos encobertos, e apesar da dificuldade operacional em estudar esse tipo de comportamento, ele está sob controle da história de aprendizagem daquele que sonha e as relações operantes são formadas a através de interações com estímulos do ambiente externos. Portanto, as relações são criadas a partir de estímulos externos.

O falar sobre sonhos, que é outro comportamento, torna-se relevante uma vez que o cliente o faz. De acordo com a Professora, não há necessidade de uma “clínica comportamental dos sonhos”, mas devemos aprender utilizar esse operante – falar sobre sonhos – dentro do ambiente clínico quando necessário.

Ela descreveu ao menos 3 situações a serem observadas pelo analista do comportamento quando o cliente fala de seus sonhos:

1.    Quando estão relacionados a contingências presentes na vida atual;

2.    Quando descrevem contingências gerais da vida do cliente (em pergunta após a palestra);

3.    Quando funcionam como esquiva/fuga de assuntos espinhosos.

Para encerrar a palestra, a Professora relatou alguns casos clínicos em que falar sobre sonhos facilitou a compreensão do cliente das contingências presentes, e facilitaram o surgimento de novo repertório e auto-regras (situação 1 da lista).

2- ‘Análise do Comportamento e Democracia’

Prof. Dr. João Claudio Todorov – UnB/DF

            A apresentação do Prof. Dr. Todorov foi uma ótima introdução para os interessados em problemas sociais e comportamento social. O professor interpreta a democracia contemporânea a partir dos conceitos de controle, agências controladoras e contracontrole. Como o controle é uma condição natural, a democracia não apresenta-se como promotora da liberdade. Em um estado democrático, o dever da agências controladoras é promover controle social que melhore a qualidade de vida dos cidadãos e evitar ao máximo o controle aversivo (já que detêm o monopólio da violência).

O professor apresentou alguns dos desafios da interface análise do comportamento e políticas públicas:

1.    O uso cotidiano da palavra “controle” pelos analistas do comportamento é visto como aversivo pela sociedade;

2.    A implementação de intervenções (bem sucedidas em outro lugar) sem preocupação com a execução, resultando em uma desvalorização das técnicas comportamentais;

3.    Utilização do termo “comportamento” por outras abordagens dificultando a compreensão do trabalho específico da análise do comportamento.

Por meio da a mudança cultural de respeito a faixa de pedestres em Brasília-DF e as dificuldades em replicar os resultados em outras cidades, o professor ilustrou como esses desafios ocorrem. Frequentemente o resultado é visto como uma “tomada de consciência”; em várias cidades a tentativa de respeito a faixa falhou devido a uma replicação ruim dos métodos utilizados em Brasília.

3 – ‘Repertório Clínico de Terapeutas Iniciantes’

Prof. Dra. Alessandra Albuquerque

            A Profa. Dr. Albuquerque fez um partiu do relato inicial de sua prática como supervisora de estágio clínico em análise do comportamento para elaborar alguns problemas encontrados nessa prática. O repertório inicial dos estagiários apresenta uma defasagem em relação as necessidades da prática terapêutica. A professora citou alguns e suas prováveis causas, por exemplo:

1.    Falta de domínio da análise do comportamento, muito provavelmente relacionado a pluralidade de linhas na psicologia;

2.    Utilização de mentalismos e internalismos como esquiva/fuga de situações clínicas complexas;

3.    Ausência de treinamento específico voltado ao desenvolvimento das habilidades necessárias.

            Como possível solução do terceiro problema, a professora apresentou o Roteiro para Verificação do Desempenho do Terapeuta. Um instrumento que descreve com objetividade os comportamentos necessários, classificando-os em grupos de habilidades. Os resultados apresentados indicam uma melhora na auto-observação, desenvolvimento de regras coerentes com a prática clínica, diminuição de regras, entre outros.

            Por fim, a palestrante ressaltou a importância do uso da supervisão para o desenvolvimento de repertório dos terapeutas iniciantes e a formulação de estratégias comportamentais para o bom desempenho dessa prática.

4- ‘Lidando Pragmaticamente com o Comportamento de Mentir no Consultório’

Prof. Dr. Carlos Augusto Medeiros – UniCEUB/DF

            O Prof. Dr. Medeiros inciou com um introdução aos conceitos desenvolvidos por Skinner na obra ‘Comportamento Verbal’, então, definiu o comportamento de mentir como uma resposta verbal de descrição imprecisa de eventos ou estímulos que passou a ter função na comunidade verbal. Utilizando-se de exemplos cotidianos, mostrou como esse comportamento verbal pode estar sob função de estímulos reforçadores positivos ou negativos (com função de esquiva ou fuga).

            Após uma apresentação breve dos 3 tipos de estudos feitos nessa área (relações falar-fazer, fazer-falar e falar-fazer-falar), explorou como essas respostas podem ocorrer no contexto clínico e como o comportamento de mentir pode dificultar intervenções precisas já que a maioria das vezes são a única referência do ambiente do cliente.

            Para finalizar, apresentou algumas dicas promover a correspondência o que se fala e o que se diz, e para avaliar a correspondência

Atenção! Tratam-se de recomendações de boas práticas, usem com cuidado e de forma apropriada.

1.    Se o comportamento descrito tem alta probabilidade de punição pelo ambiente, é provável que ele seja verdade;

2.    Altere o controle discriminativo de forma apropriada, evitando as relações comumente encontradas no ambiente;

3.    Seja uma audiência não-punitiva;

4.    Evite emitir regras. Questione reflexivamente para que o cliente emita auto-regras;

5.    Utilize perguntas abertas e surpreendentes;

6.    Comporte-se com correspondência, clientes aprendem por modelo.

            De acordo com o Prof. Medeiros, a boa utilização dessas práticas pode contribuir para uma maior correspondência entre o falar e o dizer no ambiente clínico.

5- ‘Terapia de Casal: Habilidades Necessárias para Atendimentos  efetivos’

Profa. Denise Lettieri

(Como não tenho familiaridade com o tema, pedi auxilio a Profa. Denise Lettieri, que prontamente corrigiu e adaptou alguns erros ou inconsistências na minha escrita.)

            A Profa. Denise Lettieri, como tema central de sua fala, fez um destaque a algumas habilidades necessárias para realizar atendimentos efetivos de casais. Ressaltou que a terapia de casal é um dos ramos de atuação mais desenvolvidos nas últimas décadas e que a incidência de procura na clínica vem se ampliando. De acordo com a professora, para desenvolver um trabalho nessa área é importante entender que cada casal é único e tem sua história específica de relacionamento e, portanto sua psicoterapia irá demandar objetivos e estratégias próprias.

Outro ponto destacado foram os impactos que as mudanças trazem para a vida do casal. Acontece que o que era reforçador no começo muitas vezes muda com o tempo, porque o casal não é mais o mesmo, as contingência mudam, as exigências aumentam e as características da fase atual em que vivem passam a influenciar toda a relação. Uma terapia pode ajudar a casal a analisar e a intervir sobre essas mudanças.

A professora apresentou diversos recursos terapêuticos que podemos utilizar nas sessões com casais na promoção de intervenções efetivas. A mesma esclareceu que o terapeuta é o responsável por adquirir conhecimento teórico, por conquistar a empatia do casal e por tornar o ambiente favorável à exposição dos mesmos durante o processo terapêutico

6- ‘Psicofamacologia Comportamental para Psicólogos’

Prof. Dr. Jorge Salim Risk – DF

            A apresentação teve dois momentos, porque a psciofarmacologia é importante e uma introdução aos tipos de drogas, seus nomes e efeitos.

            O Prof. Salim inciou explicando as razões principais para o uso de psicofármacos:

1.    Interrupção de padrões comportamentais de risco;

2.    Podem melhorar a sensibilidade e a resposta a terapias;

3.    Controle comportamentos que atrapalham o paciente;

4.    É direito do cidadão receber os tratamentos disponíveis para diminuir o sofrimento.

            De acordo com o professor, uma boa intervenção psicofarmacológica depende do diagnóstico correto. Uma tarefa difícil dada as inúmeras intersecções entre topografias comportamentais e casos de comorbidades. Outro ponto é o conhecimento dos efeitos esperados por um certo fármaco. Saber e saber medir o resultado esperado é de extrema importância para o sucesso de uma intervenção farmacológica.

            No segundo momento, as várias classes e sub-classes de medicamentos foram apresentadas, assim como suas diferenças e efeitos esperados. O professor explicou os fatores que fazem alguns tratamentos serem mais comuns que outros, por exemplo, preço, efeitos, padrão, efeitos colaterais, entre outros.

7- ‘Autismo e Análise do Comportamento’

Prof. Dra. Simone Roballo – UniCEUB/DF

Quebrando o padrão do que comumente é falado nas relação entre análise do comportamento e autismo (os técnicas da Análise do Comportamento Aplicada), a Professora Roballo priorizou em sua fala a importância da relação cliente-terapeuta. Iniciou com as a evolução nos diagnósticos do espectro autista e as diferenças entre os critérios diagnósticos do DSM-IV e V. Após essa introdução técnica, abordou a perspectiva analitico-comportamental do desenvolvimento atípico e as diferenças entre o desenvolvimento tipico, por exemplo, na dificuldade em generalização de comportamentos aprendidos.

De acordo com a professora, o analista do comportamento deve estar atento a forma singular como a criança se comporta. Ainda que de forma diferente, esse indivíduo desenvolve formas de se relacionar com o mundo. Olhar além da topografia atípica buscando as funções do comportamento (que são comuns a todos) é tarefa essencial. Observar como os contextos influenciam o comportamento. Deve-se usar o espaço e a relação terapêutica para formular promover o desenvolvimento saudável daquele indivíduo, compreendendo as formas específicas que ele possui para relacionar-se com o ambiente.

8 – ‘A importância do psicólogo nas discussões sociais e políticas’

Profa. Mariza Borges – Presidente do Conselho Federal de Psicologia/CFP

            A professora destacou como a psicologia está distribuída em vários campos de atuação, que é resultado de um reconhecimento da profissão. Além do acesso a outros campos, o reconhecimento vem através do pedido de pareceres dos grupos de trabalho e dos conselhos na estruturação de políticas públicas.

Entretanto, ela considera que esse crescimento deu-se de forma não-estruturada. Os limites profissionais não foram bem estabelecidos, fazendo com que a psicologia não seja vista como independente.

Ressaltou a necessidade de uma estruturação legal da profissão e esforços do CFP par que isso aconteça, por exemplo, a recente batalha pela redução da jornada. Afirmou que algumas áreas essenciais foram deixadas de lado no passado, porém já foram recriados grupos de trabalho para o desenvolvimento dos temas – como foi o caso da educação, que por anos não teve um grupo de trabalho específico -, alinhando novamente a psicologia com os preceitos descritos no código de ética da profissão.

Sobre o Brohavior

BroLogoBlack“Após a graduação, muitos analistas do comportamento se encontram em um mundo escuro, buscando por luz em pares que compartilhem da mesma abordagem em tópicos relacionados ao comportamento. O grupo online chamado Brohavior (derivado de “fraternidade”) criou refúgio para analistas do comportamento que buscam um caminho para continuar seu desenvolvimento. O grupo tem o propósito de criar um ambiente colaborativo no qual estudantes de análise do comportamento busquem e sejam expostos a literatura, filosofia e pesquisas analítico comportamentais fora do escopo explorado pelos cursos regulares. Mais informações em www.brohavior.org

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