Porque a criança faz birra? Uma Análise Funcional do Comportamento

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Autora: Débora Louyse

Contato: deboralouyse@hotmail.com

É comum que as crianças apresentem comportamentos de birra em algum momento da vida, o que irá destaca-lo é a frequência e intensidade com que ocorrem. São duas medidas importantes, pois analisamos se determinado comportamento possui frequência elevada e se a resposta comportamental tem como característica alta magnitude, isto é, alta intensidade. Nos casos em que a frequência e a intensidade são elevadas, como a Análise do Comportamento pode ajudar?

Para analisar o comportamento de birra, é preciso compreender a função desse comportamento. Vale ressaltar, que a função é variável a cada contexto. Mesmo que a resposta comportamental tenha topografia semelhante, a função pode variar, isto é, mesmo que a criança se comporte da mesma forma ao fazer birra, a função, o porquê, pode ser diferente.

“As consequências do comportamento podem retroagir sobre o organismo. Quando isto acontece, podem alterar a probabilidade de o comportamento ocorrer novamente” (Skinner, 1953). A modificação que o comportamento causa no ambiente, no que se refere a sua consequência, irá aumentar ou diminuir a probabilidade de emissão futura, logo, a possibilidade da criança fazer birra ou não.

O comportamento é multideterminado e para compreender como essas variáveis alteram diretamente a ação, podemos recorrer a Análise Funcional do Comportamento. “Mudanças no comportamento só se dão quando ocorrem mudanças nas contingências. Por isso, a Análise Funcional é fundamental sempre que o objetivo seja o de predição ou controle do comportamento” (Meyer, 1997). Essa análise abrange três fatores principais: O Antecedente, a Resposta e a Consequência.

A Resposta diz respeito ao comportamento do indivíduo, suas ações que podem ser observadas publicamente e também o que é observado pela própria pessoa, isto é, o comportamento privado, como os sentimentos e sensações. Por exemplo, chorou, jogou-se no chão, arremessou objetos. É importante ressaltar que o comportamento é contextualizado e se dá na relação do individuo com o ambiente.

Ao descrever o comportamento (Resposta) é possível analisar sua função, a partir da relação com o ambiente e as mudanças causadas neste. O Antecedente refere-se ao contexto, a situação em que o comportamento ocorreu, como por exemplo, não comprar o brinquedo para a criança. A Consequência é a modificação que o comportamento produzirá no ambiente, o que a criança, após emitir esse comportamento, terá como benefício ou não.

“Dizer que as consequências dos comportamentos chega a afetá-los é o mesmo que dizer que as consequências determinarão, em algum grau, se os comportamentos que as produziram ocorrerão ou não outra vez [..]” (Moreira & Medeiros, 2006). Em determinada situação, os pais não compram um brinquedo (antecedente), a criança faz birra (comportamento) e ganha o brinquedo (consequência). Nesse caso, a consequência do comportamento de birra foi positiva, a criança foi beneficiada por se comportar de tal maneira, dessa forma, torna-se mais provável que essa resposta aumente de frequência.

O controle do comportamento encontra-se no manejo da relação: Antecedente, Resposta e Consequência. Tanto o Antecedente como a Consequência controlam o comportamento. Para manejar o Antecedente os pais podem optar por não ir com a criança a loja. Caso os pais optem por essa opção, a criança perde a oportunidade de desenvolver habilidades para lidar com situações de frustração e/ou diminuem as chances de conseguirem modelar o comportamento da criança, de forma que as respostas  adequadas possam ser selecionadas para seu repertório comportamental.

Uma vez que as consequências de um comportamento podem alterar sua probabilidade de ocorrência, se faz necessário entender quais são as possíveis consequências e como elas interferem no comportamento.

“Interpretar um comportamento significa compreender sua função, que pode variar de um indivíduo a outro, entre situações e no tempo. De forma geral, as funções dizem respeito à obtenção de estímulos apetitivos (ou prazerosos) ou á evitação de estímulos aversivos” (Costa & Marinho, 2002)

Pode-se entender as consequências a partir de dois grupos, as que aumentam as chances do comportamento ser emitido e as que diminuem. Se a criança faz birra e ganha o brinquedo, a modificação que produziu no ambiente foi positiva e prazerosa, logo o comportamento foi reforçado. Assim, por efeito de aprendizagem se estabelece uma relação funcional entre a birra e a obtenção do reforço. A função da birra será conquistar o reforço, pois a criança aprende que fazer birra é um comportamento que produz a consequência que ela almeja, no caso, o brinquedo.

Mas porque a birra não deve ser reforçada? Chorar, jogar-se no chão, arremessar objetos, agredir, entre outras ações, não são comportamentos assertivos. É interessante que as crianças aprendam comportamentos positivos para obterem reforço, e ainda, a discriminarem situações em que isto não será possível. Com um repertório comportamental amplo, a criança pode acessar outros reforçadores quando um não está disponível, como brincar de outras formas e ter experiências prazerosas com outros brinquedos que já tem ou mais acessíveis do que o brinquedo X.

Se a criança solicita um brinquedo, sem birra e ganha, aprende que pedir de forma educada produz a consequência pretendida.”[…] diante de uma situação interpessoal na qual respostas passivas ou agressivas produziriam punição ou perda de reforçamento, uma resposta assertiva é aquela que garante a produção, manutenção ou aumento de reforçadores” (Marchezini-Cunha & Tourinho, 2010). Mas o manejo do antecedente pode não ser possível, e mesmo que a criança peça educadamente o brinquedo, em alguma situação, ela pode não ganhar.

Assim, os adultos podem auxiliar as crianças a aceitarem a frustração como algo possível de ocorrer, há expressarem seus sentimentos de frustração de forma positiva e apender a lidar com essas sensações. Uma vez que a situação pode variar é importante que a criança aprenda a lidar com essas sensações de frustração, e ainda, tenha um repertório comportamental amplo que a possibilite acessar outros reforçadores e discriminar que um reforçador especifico pode ser obtido a longo prazo, e não apenas de imediato.

Referências:

Meyer, S. B. (1997). O Conceito de Análise Funcional. In Delitti, M. (Org). Sobre Comportamento e Cognição. A prática da análise do comportamento e da terapia cognitiva-comportamental. v. 2. São Paulo: Arbytes.

Neno, S. (2003). Análise funcional: definição e aplicação na terapia analítico-comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, p. 151-165. Recuperado em 10 fevereiro, 2016, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452003000200006&lng=pt&tlng=pt.

Skinner, B. F. (2007). Seleção por conseqüências. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, p. 129-137. Recuperado em 24 de janeiro de 2016, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-55452007000100010&lng=pt&tlng=pt.

Costa, S. E. C. & Marinho, M. L. (2002). Um modelo de apresentação de análise funcionais do comportamento. Estudos de Psicologia (Campinas), p. 43-54. Recuperado em 05 fevereiro, 2016, de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-166X2002000300005&lng=pt&tlng=pt

Moreira, M.B.; Medeiros, C.A. (2006). Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre: Artmed. 1.ed. v.1. 224 p.

Skinner B.F. (2003). Ciência e Comportamento Humano (11 ed.). (J. C. Todorov & R. Azzi, Trad.) São Paulo: Martins Fontes (Obra original publicada em 1953).

Marchezini-Cunha, V. & Tourinho, E. Z. (2010). Assertividade e autocontrole: interpretação analítico-comportamental. Psicologia: Teoria e Pesquisa, p. 295-304. Recuperado em 25 fevereiro, 2016, de http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722010000200011&lng=en&tlng=pt.

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