Introdução ao conceito de variabilidade comportamental

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    Autor: Amilcar R. Fonseca Júnior

    Email: ajrpsico@yahoo.com.br

    Este artigo busca familiarizar o leitor com o conceito de variabilidade comportamental, fornecendo noções básicas que o possibilitem adentrar esse campo de estudo e aprimorar seus conhecimentos sobre o tema. Para tanto, será apresentado um breve panorama que englobará alguns tópicos importantes na área. Para o leitor que deseja um maior aprofundamento, referências relevantes são citadas ao longo do texto.

    Embora o termo variabilidade comportamental seja empregado na literatura para se referir a fenômenos diversos (ver Barba, 2006), parece ser consensual que ele se refere a diferenças ou mudanças entre unidades comportamentais que compõem um universo de possibilidades (Hunziker & Moreno, 2000). Com isso, quer-se dizer que, dentre uma esfera delimitada de respostas que podem ser emitidas (universo), variar é percorrer por entre essas possibilidades (unidades comportamentais), é fazer diferente, é mudar o curso das ações.

    Tomemos a seguinte situação hipotética para ilustrar esses conceitos. Em uma pesquisa com seres humanos, em que sequências de três respostas devem ser emitidas entre as teclas P e Q do teclado de um computador, cada sequência possível é uma unidade comportamental. O universo, nessa situação, são as oito sequências possíveis, a saber, PPP, QQQ, PPQ, QQP, PQQ, QPP, PQP e QPQ. Em uma série de oito tentativas, variar implicaria emitir sequências distintas. Dentro de um continuum, a emissão das oito sequências possíveis se caracterizaria como o nível máximo de variação, enquanto a emissão de uma única sequência se caracterizaria como ausência de variação.

    Tais conceitos podem ser aplicados, por exemplo, no estudo do comportamento criativo. O comportamento de pintar quadros, demasiadamente mais complexo do que o mencionado na situação experimental acima, envolve variações. O universo, nesse caso, é a gama de possibilidades comportamentais que estão à disposição do artista, tais como o emprego de uma combinação de cores específica, de uma técnica de pincelagem etc. Cada uma dessas respostas são unidades comportamentais. O pintor, sob controle das variáveis das quais seu comportamento é função, cria. Criar é sinônimo de fazer diferente, isto é, de variar. Exemplos de variação podem ser obtidos por meio da comparação de obras de um mesmo artista. Considere a figura abaixo:Tarsila do Amaral

    As obras de arte destacadas na figura são de autoria de Tarsila do Amaral e foram produzidas entre os anos de 1923 e 1929. Como é possível notar, alguns aspectos são comuns entre as obras. Dessa maneira, pode-se dizer que a artista variou dentre o universo de possibilidades à sua disposição. Esses exemplos capturam uma característica fundamental da variabilidade comportamental: sua natureza relacional. Mudar ou fazer diferente sempre implica um ponto de referência. Muda-se ou faz-se diferente em relação a algo. O que vemos na figura são variações em relação a obras anteriores, certamente influenciadas por elementos da história da artista e pelo movimento cultural vigente. O leitor interessado pode buscar comparações similares entre as obras: Lavrador de Café (1934) e Mulher e Criança (1936) de Candido Portinari, ou Autorretrato (1889) e Noite Estrelada (1889) de Vincent van Gogh, para citar algumas.

    Entre analistas do comportamento, dois principais tipos de variabilidade têm sido investigados. O primeiro deles, denominado variabilidade induzida, engloba o variar produzido pela redução na densidade de reforçamento (e.g., transição de um esquema com maior probabilidade de reforçamento para um esquema com menor probabilidade de reforçamento, ou extinção) ou pela exposição à estimulação aversiva. Aqui, temos como exemplos os estudos de Ferraro e Branch (1968), de Antonitis (1951), e de Cassado (2009), que investigaram os níveis de variação sob esquemas de reforçamento contínuo e intervalo variável, extinção e estimulação aversiva, respectivamente.

    Em um exercício de interpretação, pode-se traçar paralelos entre esses conceitos e a “vida fora do laboratório”. Observamos variabilidade induzida pela mudança na densidade de reforçamento ou extinção quando, por exemplo, um dos membros de um casal já não mais responde às solicitações do outro com a mesma atenção de outrora, ou quando o relacionamento é encerrado unilateralmente, sem o consenso de ambos. Nesse caso, não é incomum ouvirmos relatos de que a parte desfavorecida “aprendeu a dar valor” e, então, passou a “fazer de tudo” (i.e., variar) para reatar os laços. Por sua vez, a variabilidade induzida por estimulação aversiva pode ser observada, por exemplo, em situações em que é necessário eliminar uma fonte de ameaça. Um animal na ausência de um predador apresenta um padrão específico de comportamento (e.g., caça, repouso etc.); a chegada de um predador, todavia, altera esse padrão, fazendo com que o animal apresente uma variedade de comportamentos que garantam segurança a ele.

    O segundo tipo de variação engloba o variar controlado pelas consequências que produz e, por isso, é denominado variabilidade operante – ao leitor interessado em uma análise crítica, recomenda-se Barba (2014). Em alguns momentos, no curso de desenvolvimento da teoria analítico-comportamental, argumentou-se que o reforçamento gerava estereotipia no responder daquele que era exposto a esse procedimento (e.g., Schwartz, 1982). Ora, se o reforçamento aumenta a frequência da propriedade da resposta sobre a qual a consequência incide, então ele favorece repetição dessa propriedade do responder e, com isso, restringe o leque de comportamentos que o organismo emite.

    Page e Neuringer (1985) demonstraram que essa linha de argumentação não é adequada. Nesse estudo, compararam os níveis de variabilidade sob duas contingências distintas. Na primeira, o variar era reforçado diferencialmente (Lag n). Na segunda, o variar era permitido, mas não exigido (Acoplado) – ao leitor interessado em conhecer as diferentes contingências de variação e o procedimento acoplado, fundamental nesse tipo de estudo, sugere-se Neuringer e Jensen (2013). Como resultado, observaram altos níveis de variabilidade quando o reforçamento foi contingente ao variar e baixos níveis de variabilidade quando não havia exigência de variação. A partir disso, pode-se concluir que as características da contingência, não o reforçamento, produz repetição. Se a contingência exige variação, há variação, se ela não a exige, há repetição. Em termos práticos, há situações nas quais a variação do comportamento é desejável e outras nas quais ela acarreta prejuízos, sendo preferível ações repetitivas. É comum ouvirmos, por exemplo, que um bom professor (1) lança mão de múltiplos exemplos para alcançar seus alunos e (2) é pontual em suas atribuições (i.e., cumpre os horários previstos, corrige as atividades, segue o cronograma etc.). Enquanto, no primeiro caso, a variabilidade é valorizada em detrimento da repetição, no segundo, o contrário acontece. A contingência delimita quando o variar/repetir será, ou não, reforçado.

    O estudo de Page e Neuringer (1985) abriu portas para uma sucessão de trabalhos (ver Neuringer & Jensen, 2012, para a mais recente revisão de área). Com isso, nos últimos anos, a generalidade da variabilidade operante foi alcançada com diferentes espécies e diferentes gêneros (e.g., van Hest, van Haaren, & van de Poll, 1989), incluindo seres humanos com desenvolvimento típico (e.g., Ross & Neuringer, 2002) e atípico (e.g., Lee & Sturmey, 2006). Mais recentemente, a variabilidade tem sido investigada sob contingências operantes aversivas, como fuga (e.g., Cassado, 2009), esquiva (e.g., Fonseca Júnior, 2015), punição positiva (e.g., Santos & Hunziker, 2015) e punição negativa (e.g., Rangel, 2010), o que amplia sua caracterização como um fenômeno operante.

    Os avanços relatados não se restringem ao campo da pesquisa básica. São diversas as áreas de atuação em que o psicólogo se vê frente ao excesso ou déficit de variabilidade comportamental e necessita intervir. Conforme analisa Neuringer (2002), o conceito de variabilidade comportamental pode ser aplicado, dentre outras possibilidades, na análise da resolução de problemas e de diversas psicopatologias. Casos de autismo e depressão, por exemplo, podem ter como característica o déficit de variabilidade comportamental. Por outro lado, casos de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) podem ter como característica o excesso de variabilidade comportamental. Pesquisas aplicadas dizem como lidar com essas demandas e podem ser encontradas, dentre outras fontes, no Journal of Applied Behavior Analysis (e.g., Rodriguez & Thompson, 2015).

    Em suma, o conceito de variabilidade comportamental está apoiado em um vasto corpo de dados provenientes da pesquisa básica (Neuringer & Jensen, 2012), os quais, gradativamente, têm gerado novas tecnologias e suscitado relevantes discussões teóricas (Barba, 2014). Compreender os determinantes da variabilidade comportamental é o propósito do cientista debruçado sobre essa linha de investigação. Estar a par desses determinantes é uma qualidade do psicólogo interessado em manejar comportamento. Ao identificar as variáveis das quais o comportamento de variar é função, o psicólogo está em melhor posição para planejar intervenções que promovam mudanças necessárias, ou que inibam variações indesejáveis.

    Referências

    Antonitis, J. J. (1951). Response variability in the white rat during conditioning, extinction, and reconditioning. Journal of Experimental Psychology, 42(4), 273-281.

    Barba, L. S. (2006). Variabilidade comportamental: Uma taxonomia estrutural. Acta Comportamentalia, 14(1), 23-46.

    Barba, L. S. (2014). Controlling and predicting unpredictable behavior. The Behavior Analyst, 38(1), 93-107.

    Cassado, D. C. (2009). Variabilidade induzida e operante sob contingências de reforçamento negativo. (Dissertação de mestrado não publicada). Universidade de São Paulo, Brasil.

    Fonseca Júnior, A. R. (2015). Variabilidade comportamental reforçada negativamente sob contingências de esquiva (Dissertação de mestrado não publicada). Universidade de São Paulo, Brasil.

    Ferraro, D. P., & Branch, K. H. (1968). Variability of response location during regular and partial reinforcement. Psychological Reports, 23, 1023-1031.

    Hunziker, M. H. L., & Moreno, R. (2000). Análise da noção de variabilidade comportamental. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 16(2), 135-143.

    Lee, R., & Sturmey, P. (2006). The effects of lag schedules and preferred materials on variable responding in students with autism. Journal of Autism and Developmental Disorders, 36(3), 421-428.

    Neuringer, A. (2002). Operant variability: Evidence, functions, and theory. Psychonomic Bulletin & Review, 9(4), 672-705.

    Neuringer, A., & Jensen, G. (2012). The predictably unpredictable operant. Comparative Cognition & Behavior Reviews, 7, 55-84.

    Neuringer, A., & Jensen, G. (2013). Operant variability. In G. J. Madden (Ed.), APA handbook of behavior analysis: Vol 1. Methods and principles (pp. 513-546). Washington, DC: American Psychological Association.

    Page, S., & Neuringer, A. (1985). Variability is an operant. Journal of Experimental Psychology: Animal Behavior Processes, 11(3), 429-452.

    Rangel, P. C. N. (2010). Variabilidade comportamental: Uma comparação entre pessoas jovens e idosas (Tese de doutorado não publicada). Universidade de Brasília, Brasil.

    Rodriguez, N. M., & Thompson, R. H. (2015). Behavioral variability and autism spectrum disorder. Journal of Applied Behavior Analysis, 48(1), 167-187.

    Ross, C., & Neuringer, A. (2002). Reinforcement of variations and repetitions along three independent response dimensions. Behavioural Processes, 57, 199-209.

    Santos, G. C. V., & Hunziker, M. H. L. (2015). Interação reforçamento/punição em esquemas LAG-n: Efeitos sobre a variabilidade comportamental. Acta Comportamentalia, 23(3), 243-255.

    Schwartz, B. (1982). Failure to produce response variability with reinforcement. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 37(2), 171-181.

    Van Hest, A., van Haaren, F., & van de Poll, N. E. (1989). Operant conditioning of response variability in male and female Wistar rats. Physiology & Behavior, 45, 551-555.

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