Sobre um estudante de Psicologia entre várias abordagens: contribuições da Análise do Comportamento.

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    Autora: Daiane Zanqueta

    Universidade Estadual de Londrina

    Os cursos de Psicologia englobam diversas abordagens, cada uma com sua característica, regulamentadas pela Resolução nº 5, de 15 de março de 2011, pelo MEC, cujo artigo 10 e 11, mencionam o sistema de ênfases curriculares nos cursos de Psicologia e sua importância para a formação profissional, assim como as competências e habilidades necessárias ao Psicólogo. Com raras exceções, os estudantes que ingressam na faculdade pensam que a Psicologia é uma só, alguns nem imaginam que encontrarão tanta diversidade teórica e prática.

    Psicologia

    Algumas vezes, já no início do curso, alguns dos estudantes encontram uma abordagem com a qual mais se identificam ou simpatizam, já outros demoram um pouco mais para identificar qual linha teórica seguir. Além disso, algumas faculdades portam uma bagagem maior de uma determinada abordagem, geralmente relacionada ao número de professores de dada ênfase, relação destes com os alunos, assim como, projetos e atividades que envolvem certa abordagem, o que pode acabar influenciando nas decisões de muitos estudantes. O interessante de tudo isso é que há uma diversidade imensa de autores e teorias para nos auxiliar na pesquisa e na prática e, principalmente, na qualidade de vida de cada indivíduo.

    Além disso, aprende-se técnicas e métodos de entrevista, de avaliação e intervenção de algumas das abordagens. Cada estudante percebe que precisa escolher entre uma ou outra, mas que é necessário estudar todas, ou melhor, passar em todas. É possível notar que entre os estudantes de Psicologia, há aqueles que escolhem uma abordagem porque acham a outra complicada demais. Há aqueles que optam pela abordagem de esquerda, ou aqueles que seguem o fluxo da Universidade, aqueles que gostam da tradicional, aqueles que veem tal abordagem como mais completa ou menos superficial. E por aí vai. Para a Análise do Comportamento, esse comportamento de decidir, nunca é determinado por uma coisa só, pelo contrário, é multideterminado por fatores filogenéticos (evolução da espécie), ontogenéticos (história de aprendizagem do organismo) e culturais (práticas sociais que garantem a sobrevivência do grupo) (SKINNER, 2007).

    Cada escolha de abordagem envolve um processo muito mais complexo que somente a opção em si. Esse processo é influenciado pelas questões evolutivas, histórias de vida de cada um e pelo contexto cultural no qual vivem. Segundo Skinner (2003), ao tomar uma decisão o indivíduo manipula variáveis das quais seu comportamento é função, nesse caso, as variáveis manipuladas geralmente são eventos privados. Além disso, uma pergunta clichê entre os estudantes de Psicologia é “Qual abordagem você gosta mais?”, se responder uma ou outra, o interlocutor irá prosseguir no questionamento sobre os motivos da decisão. Agora, se a resposta da pergunta for “não sei ainda”, essa indecisão não esclarece uma opinião e, portanto, não é valorizada entre os estudantes. Skinner (2003) quando esclarece sobre o comportamento de decidir, explica que, ao manipular variáveis, o indivíduo visa consequências reforçadoras e, fugir da indecisão é uma delas, apesar do autor esclarecer que essa fuga da indecisão parece ser inadequada para explicar a origem ou a manutenção deste comportamento. Além do mais, o processo de decidir é selecionado pelo contexto no qual se convive, que muitas vezes faz com que o indivíduo seja mais assertivo ou mais objetivo frente a decisões da sua vida pessoal ou profissional.

    A comunidade verbal também possui grande influência na decisão de qual abordagem seguir. Moura (2004) destaca que o comportamento de decidir é controlado em sua maior parte pelas consequências mediadas pelo contexto sócio verbal do indivíduo. Dessa forma, o estudante não é livre para escolher entre uma abordagem ou outra segundo a sua vontade ou desejo, mas sim devido as regras sociais implícitas em seu comportar-se. Além disso, os estudantes de Psicologia se limitam a um restrito contato com as diferentes abordagens, pois não é possível acompanhar a prática de todas elas, portanto, a informação e o auxílio de outros estudantes ou professores influencia o processo de decidir entre uma das abordagens. Ademais, não se sai da faculdade com um diploma de expert em determinada abordagem, primeiro, porque o conhecimento é um processo contínuo de aprendizagem e, segundo, porque é impossível abordar e extrair todos os conceitos teóricos e práticos de uma única abordagem em cinco anos de graduação.

    Por outro lado, a grande diversidade de teorias e o pouco tempo para o estudo de cada abordagem também leva alguns estudantes a tentarem montar um quebra-cabeça com uma peça de cada abordagem. De fato, nenhuma abordagem é perfeita, e é tentador utilizar essa prática na tentativa de tapar buracos conceituais. Isso não é raro. No entanto, apesar de haver algumas influências entre as abordagens – umas mais, outras menos – cada abordagem segue um preceito conceitual e filosófico característico e, misturá-los pode não fazer sentido ou não produzir resultados. Como menciona Skinner (2003, p.10), “confusão na teoria significa confusão na prática”.

    Por fim, independente da diversidade de abordagens e diferenças entre elas, os seus objetivos, seja enquanto pesquisa ou intervenção, giram em torno de semelhantes finalidades. Portanto, o diálogo entre elas é possível e faz-se necessário. Além disso, o processo de decidir entre uma abordagem ou outra, não exclui os estudantes de determinado centro acadêmico, pelo contrário, os debates e as conversas são sempre enriquecedoras.

    Referências

    MOURA, C.B. Orientação Profissional Sob o Enfoque da Análise do Comportamento. Campinas, SP: Editora Alínea, 2004.

    SKINNER, B.F. Ciência e Comportamento Humano. 11ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

    SKINNER, B.F. Seleção pelas Consequências. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Vol. IX, nº 1, 2007, p.129-137.

    BRASIL. Resolução Nº 5, de 15 de março de 2011. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Psicologia, estabelecendo normas para o projeto pedagógico complementar para a Formação de Professores de Psicologia. Diário Oficial da União, Brasília, 16 de março de 2011, Seção 1, p. 19.

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