Algumas evidências sobre o mecanismo de mudança de comportamentos em Psicoterapia Analítica Funcional

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A Psicoterapia Analítica Funcional (FAP) é um modelo de intervenção analítico-comportamental orientado para a identificação e modificação de comportamentos clinicamente relevantes. São três os comportamentos do cliente que podem ocorrer em sessão terapêutica:

  • CRB1: são os comportamentos problemáticos do cliente, frequentemente consistem em esquivas, e espera-se que a frequência destes diminua com o decorrer da terapia;
  • CRB2: consistem nos comportamentos-alvo, ou comportamentos de melhora, progressos ou aprendizagens do cliente obtidas por meio da terapia, portanto, espera-se que a frequência destes aumente no decorrer do processo terapêutico;
  • CBR3: se refere às descrições de interpretações que o cliente faz sobre seu próprio comportamento, considerando os três elementos de uma contingência – evento antecedente, resposta, evento consequente – ou pelo menos dois desses elementos, fazendo uma conexão funcional entre eles.

De acordo com Kohlenberg e Tsai (2006), as intervenções em FAP para estes CRBs ocorrem por meio de cinco regras. A Regra 1 sugere que o terapeuta esteja atento e observe os CRBs que ocorrem em sessão terapêutica, analisando se os comportamentos emitidos pelo cliente se constituem em CRB1 ou CRB2, pois esses elementos são fundamentais para orientar o responder contingente do terapeuta em cada caso.

A Regra 2 sugere que o terapeuta evoque CRBs, ou seja, evoque os comportamentos-problema (CRB1) para que sejam trabalhados criando condições para a emissão de comportamentos-alvo (CRB2). A observação de CRBs sugerida na Regra 1, facilita ao terapeuta entender quais são os eventos antecedentes que evocam os comportamentos-problema, fornecendo ao terapeuta maior previsão sobre contingências que podem evocar o comportamento problemático e contingências que o terapeuta pode programar para evocar comportamentos de melhora.

Evocar comportamentos de melhora é condição crucial para a Regra 3, que sugere ao terapeuta reforçar naturalmente os CRBs2 do cliente. Reforçar naturalmente, neste caso, consiste em valer-se das ações e reações interpessoais presentes na relação terapêutica, de forma semelhante à maneira como as pessoas do ambiente social do cliente reagiriam caso ele emitisse comportamentos de melhora. Portanto, reações arbitrárias do terapeuta devem ser evitadas.

A Regra 4, prescreve que o terapeuta observe os efeitos potencialmente reforçadores de seus comportamentos sobre os CRBs do cliente, a fim de identificar consequências que funcionam como reforçadoras ou punitivas para os comportamentos dele e, assim, direcionar com mais eficiência as intervenções.

Por último, a Regra 5 sugere que o terapeuta forneça interpretações funcionais e implemente estratégias de generalização como tarefas de casa. Supõe-se que as interpretações funcionais auxiliem os clientes na identificação das variáveis controladoras dos CRBs, e também possam facilitar a generalização das respostas emitidas em sessão para a vida cotidiana por meio de paralelos funcionais. Sobre as tarefas de casa, são utilizadas para que o cliente emita em sua vida cotidiana os CRBs2 aprendidos em sessão, com a finalidade de testá-los no contexto natural de vida e facilitar a ocorrência de reforço natural (Kohlenberg & Tsai, 2006; Tsai, Callaghan & Kohlenberg, 2013).

Alguns estudos como o de Mangabeira (2014), Lizarazo, Muñoz-Martinez, Santos e Kanter (2015) e Villas-Bôas (2015) tem sugerido que o reforço natural de CRBs2 – que consiste na Regra 3 – parece ser o principal mecanismo de mudança de comportamentos do cliente.

O estudo de Lizarazo e cols. (2015) consistiu em um delineamento A/A+B. Especificamente, na fase A houve análise de comportamentos e conceitualização de caso, foco sobre os problemas da vida diária do cliente e evocação de comportamentos (Regra 2) sem reforço contingente. Na fase A+B o terapeuta poderia responder com reforço contingente aos CRBs2 (Regra 3).

Após a fase A+B, dois clientes (clientes 1 e 3) continuaram a fornecer semanalmente ao terapeuta dados sobre seus comportamentos fora da sessão por três semanas. Diferentemente dos clientes 1 e 3, o cliente 2 continuou a terapia após a fase A+B, e neste período – denominado fase R3 – o terapeuta continuou a reforçar CRBs2 (Regra 3), mas sem evocar CRBs (Regra 2), possibilitando identificar os efeitos diferenciais de evocar CRBs e reforçar CRBs2.

A análise da fase R3 para o cliente 2 sugere que intervenções da Regra 2 podem ter tido o efeito de evocar CRB1, e corroborando este dado houve diminuição da frequência de CRB1 quando as intervenções da Regra 2 foram removidas. A análise também sugere que intervenções da Regra 2 não evocam substancialmente CRB2, e  a remoção da Regra 2 mostrou não haver impacto na ocorrência de CRB2. Assim, os dados sugerem que apenas evocar comportamentos em sessão, sem o uso de contingências de reforço, não é suficiente para produzir comportamentos de melhora. Portanto, a evocação dos comportamentos (Regra 2) e o reforço contingente dos comportamentos-alvo (Regra 3) parecem ser fundamentais para gerar melhorias em sessão, ou seja, para produzir CRBs2 no repertório do cliente.

Os autores também demonstraram que, em um dos casos, mudanças no comportamento foram estáveis durante o período de monitoramento após a terapia, evidenciando que as melhorias obtidas pelo cliente no contexto terapêutico podem permanecer para além do período imediato da intervenção da FAP, ou seja, para a sua vida diária. Assim, esse estudo demonstra mudanças de comportamento em sessão e fora da sessão por meio exclusivo do uso da FAP, sem o uso de intervenções fora da sessão.

Ademais, o terapeuta fez uso pouco frequente de intervenções da Regra 5, como formulações de regras para o cliente a fim de engajá-lo em determinados comportamentos e tarefas de casa para facilitar este engajamento. Por isso, os autores entendem que contingências de reforço (Regra 3) em sessão podem ser suficientes para alcançar a mudança fora da sessão.

Seguindo esta hipótese, Villas-Bôas (2015) buscou avaliar o efeito que as análises funcionais podem ter sobre a generalização de comportamentos para o contexto de vida diária. Para tanto, o procedimento da autora contemplou etapas de Terapia Comportamental sem FAP (fase A), etapas de intervenções em FAP sem análises funcionais (fase B) e etapas de intervenções em FAP com análises funcionais (fase BC). Os resultados sugerem que as análises funcionais influenciaram os comportamentos dos clientes de analisarem seus próprios comportamentos, mas não tiveram impacto no aumento de frequência de comportamentos-alvo em sessão ou na vida cotidiana, portanto, não facilitaram a generalização da aprendizagem ocorrida em sessão para o contexto de vida do cliente. Os comportamentos de melhora do cliente foram relacionados ao reforço natural de CRBs2 (Regra 3).

Dados semelhantes foram encontrados por Mangabeira (2014) em um estudo que procurou identificar o efeito de duas intervenções sobre os comportamentos clinicamente relevantes, no contexto de sessão terapêutica. Na primeira, chamada de “FAP não sinalizada”, o terapeuta modelou comportamentos-alvo por meio de consequências que pudessem ter um efeito reforçador. Na segunda, chamada de “FAP sinalizada”, o terapeuta modelou comportamentos-alvo e acrescentou a descrição de análises funcionais sobre os comportamentos do cliente ocorridos em sessão, fazendo paralelos com comportamentos emitidos pelo cliente no contexto extrasessão. Os resultados mostraram que a modelagem de comportamentos-alvo, ocorridas em ambas as intervenções, produziu aumento de frequência de comportamentos-alvo e diminuição de frequência de comportamentos-problema em sessão terapêutica. Mas, não se verificou diferença significativa entre as intervenções no que se refere à sinalização da FAP, indicando que a mudança de comportamentos em sessão ocorre pelo reforço dos comportamentos-alvo (Regra 3), e é independente da descrição de interpretações funcionais.

Assim sendo, atualmente tem-se acreditado que o principal mecanismo de mudança de comportamentos na FAP, tanto em sessão como na vida diária, seja o reforço contingente de comportamentos de melhora (Regra 3), enfraquecendo a hipótese de que as análises funcionais possam ter um impacto consistente na generalização dos CRBs2 para a vida cotidiana.

É importante ressaltar que neste artigo constam apenas algumas das pesquisas atuais em Psicoterapia Analítica Funcional. O leitor interessado em mais dados atuais sobre a FAP, pode consultar outros artigos disponíveis no link: http://functionalanalyticpsychotherapy.com/references/

REFERÊNCIAS

Kohlenberg, R. J.; & Tsai, M. (2006). Cognições e crenças. In. R. J. Kohlenberg; M. Tsai. (Eds.), Psicoterapia analítica funcional: criando relações intensas e curativas. (pp. 107-136). Santo André: ESETec.

Lizarazo, N. E.; Muñoz-Martinez, A. M.; Santos, M. M. & Kanter, J. W. (2015). A Within-subjects Evaluation of the Effects of Funcional Analytic Psuchoterapy on In-Session and Out-of-Session Client Behavior.

Mangabeira, V. (2014). Efeitos da sinalização de intervenções na psicoterapia analítica-funcional (Tese de doutorado). Universidade de São Paulo, São Paulo.

Tsai, M., Callaghan, G. M., & Kohlenberg, R. J. (2013). The use of awareness, courage, therapeutic love, and behavioral interpretation in Functional Analytic Psychoterapy. Psychoterapy, 50, 366-370.

Villas-Bôas, A. (2015).  Efeitos de análises de contingências sobre comportamentos clinicamente relevantes e sobre mudanças extrasessão (Tese de doutorado). Universidade de São Paulo, São Paulo.

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