O problema da técnica pela técnica na prestação de serviço em Psicologia do Esporte

0

Provavelmente todo analista do comportamento já lidou com situações em que lhe foi solicitado algum artigo ou material aplicado para determinado assunto, com o motivo de que:

“a análise do comportamento é boa com ansiedade, preciso utilizar alguma técnica para o problema/demanda que estou enfrentando”

Por um lado, apresentar para colegas de profissão materiais que demonstram eficácia é um avanço para a nossa área, por outro, pode representar um perigo. Não só para a própria área, mas também para o sujeito que procura o serviço de um profissional e que será submetido a um procedimento de intervenção.

Breve histórico e problemas da Análise do Comportamento Aplicada – ABA

No livro “History of Behavior Modification”, de 1978, Alan Kazdin apresenta um rico e vasto material sobre a história da análise do comportamento, desde a sua inserção no campo da psicologia, passando pela proposta alternativa ao modelo psicodinâmico vigente na época, problemas da própria análise do comportamento ao transpor o modelo de aprendizagem do laboratório ao campo aplicado e problemas relacionados à simples aplicação de técnicas e prejuízos à noção do que se propõe a análise do comportamento, ou, modificação de comportamento, como era chamada.

Do contexto do laboratório ao contexto aplicado havia, e ainda há, vários os problemas a serem enfrentados, o mais complexo de todos estava no controle, isolamento e a verificação de quais variáveis mantinham determinados comportamentos.

Em 1968, em uma tentativa de criar critérios claros para pesquisas aplicadas – um dos motivos pelos quais poucos experimentos eram publicados no JEAB Journal of Experimental Behavior Analysis – surge o JABA, Journal of Applied Behavior Analysis, que publica pesquisas em Análise do Comportamento Aplicada, ou ABA. Logo em seu primeiro número os autores Baer, Wolf e Risley (1968), apresentam recomendações para a pratica aplicada do analista do comportamento – Some current dimensions of applied behavior analysis, tais recomendações tinham como objetivo definir o que era e o que não era considerada análise aplicada do comportamento.

Por um lado o sucesso das demonstrações de eficácia dos procedimentos comportamentais significava um avanço para a análise do comportamento, por outro, conforme o sucesso, iam surgindo entusiastas de técnicas comportamentais que não tinham treino, ou comprometimento teórico suficiente, necessários a prática. Por exemplo, a instrução programada que obteve seu auge entre as décadas de 60 e 70, mas, por conta da falta de suporte teórico começou a cair em desuso, já que a simples aplicação da técnica sem o embasamento teórico não supre as demandas e o tratamento necessário ao dia a dia do contexto aplicado.

Em artigos anteriores da coluna sobre esporte aqui do comporte-se foi apresentado ao leitor um pouco de como a Psicologia do Esporte, ou Psicologia Comportamental do Esporte – como é chamada no exterior – toma seu lugar dentro da análise do comportamento. Procedimentos experimentais foram estendidos, e aplicados, ao contexto dos vários tipos de comportamentos humanos complexos, entre eles os esportes, com o surgimento do “Comportamento Verbal de Skinner (1957).

Mas então, por que a técnica pelo técnica pode ser um problema?

Para entender por que a adoção simples da técnica pode ser danoso para um atleta, e para a própria psicologia do esporte, é necessário (1) compreender porque, em análise do comportamento, utilizamos o delineamento de sujeito único. (2) Voltar ao modelo explicativo do comportamento para a análise do comportamento, e (3) compreender o que é a análise funcional.

  • Delineamento de sujeito único

A análise do comportamento não leva em consideração médias estatísticas populacionais para a compreensão do comportamento do homem, entende-se que cada sujeito responde de modo diferente aos estímulos, visto que o processo de aprendizado não é igual para todos os sujeitos. Quando tratamos das questões de diferenças entre os sujeitos entendemos que isso não compromete a qualidade de uma intervenção ou pesquisa, na verdade nos fornece maiores detalhes sobre a variável independente que está sendo manipulada no contexto.

O modo pelo análise do comportamento procura demonstrar a influência de variáveis independentes sob o comportamento é realizando alterações nas variáveis, compreendendo e reorganizando o ambiente do indivíduo. O melhor modo de se demonstrar a influência de uma variável independente à uma variável dependente (o comportamento) é a utilização do delineamento de sujeito único, onde compara-se o sujeito com ele mesmo antes, durante e após intervenção.

Nos comportamos de modo complexo, comportamentos diferentes ocorrem a todo momento e o que observamos, usualmente, é a forma ou topografia final do comportamento, o que torna difícil a compreensão de uma parte do repertório de um atleta, por exemplo. Então, dividir esse vasto repertório em pequenas partes é o ponto de partida para o planejamento de uma intervenção. O comportamento problema, ou comportamento alvo é identificado, e também como as variáveis que o mantém. A contingência tríplice do comportamento operante permite isolar as pequenas partes do comportamento e organiza-las de modo sistemático.

  • O modelo de contingencia tríplice do comportamento operante:

É chamado de Comportamento Operante discriminado o comportamento (R) que não somente a consequência do responder pode a controlar a resposta, o estímulo antecedente ou estímulo discriminativo(Sd) também passa a controlar a resposta que emitida diante daquela situação (Sd) produziu reforço (Sc). – Em outras palavras, a probabilidade de emitirmos determinadas respostas aumentam quando o estímulo discriminativo (o ambiente) indica que possivelmente a resposta a ser emitida produzirá a mesma consequência produzida em outras ocasiões semelhantes.

Contingência Triplice

Ao discutir o modelo de comportamento operante Skinner (1938) pontua que somente a relação resposta – consequência não é suficiente para a explicação do comportamento. O responder sempre ocorre sob determinadas condições ambientais, então, tais condições ambientais podem assumir função de evocar comportamentos que foram emitidos diante dessas condições e produziram alterações no ambiente em ocasiões anteriores. Então, ao modelo de análise; resposta – consequência é adicionada mais uma variável de estudo e assim, um terceiro termo passa a fazer parte do comportamento, o estimulo antecedente. Ainda, segundo Skinner (1953/2003), uma possibilidade de melhor compreensão do comportamento complexo seria dividir o comportamento em partes menores e analisar as variáveis que controlam o responder, levando em consideração a história do indivíduo. A contingência tríplice do comportamento operante é um instrumento de análise adotada pelo o analista do comportamento na qual descreve a relação entre comportamento e ambiente, ou seja, descreve as variáveis sob qual o comportamento é função.

  • Análise Funcional do Comportamento

Ao falarmos em análise funcional estamos abordando variáveis independentes – classes de estímulos, ao qual o comportamento – variável dependente, é função

A análise funcional é a análise da situação em que o responder ocorre, o próprio responder e as consequências geradas pelo responder. Realizar uma análise funcional não é somente entender a relação entre Estimulo Discriminativo – Resposta – Consequência, mas sim, compreender como as variáveis ambientes do contexto se relacionam, e o que as mantém.

Muitas vezes o trabalho no esporte, principalmente no esporte de alto rendimento o analista do comportamento leva em consideração que para a execução de uma modalidade esportiva há um repertório básico e comum a todos os atletas, fundamentos técnicos e táticos, por exemplo. Ou seja, classe de comportamentos iguais ou semelhantes mas que não são necessariamente controlados pelas mesmas classes de estímulos. Exemplo: O comportamento nomeado de ansiedade, embora topograficamente semelhante em pessoas diferentes (agitação, sudorese, taquicardia) podem não ser controlados pelos mesmos estímulos. Um atleta pode ficar ansioso por conta do estimulo antecedente “Torcida”, enquanto outro pode ficar sob controle do comportamento do “Técnico”. Ou, em outro caso o repertório tático e técnico pode ter sido modelado e mantido por classes de estímulos diferentes, ou seja, seu aprendizado se deu por histórico de reforçamento diferente para os indivíduos, mesmo inseridos em contextos semelhantes. Em termos gerais a análise funcional é feita de modo a compreender as variáveis que mantém comportamentos que interferem no desempenho que se considera adequado para o atleta em sua categoria ou nível competitivo. As variáveis examinadas podem envolver; Excesso Comportamental. Quando uma classe de comportamentos relacionados ocorre e é descrita como problemática, pelo atleta ou pelo técnico, devido a excesso em (1) frequência, (2) intensidade, (3) duração, ou (4) ocorrência sob condições em que sua frequência socialmente aceita é próxima a zero.

Déficit Comportamental. Uma classe de respostas é descrita como problemática porque deixa de ocorrer (1) com suficiente frequência, (2) com intensidade adequada, (3) da maneira apropriada, ou (4) sob condições previstas. Exemplo:  Repertório insuficiente para lidar com jogadas que não foram efetivas e reorganizar a próxima.

Reservas Comportamentais. Reservas comportamentais são comportamentos não problemáticos. Por exemplo: Quais são as atividades que o atleta se destaca? Que comportamentos sociais ele apresenta adequadamente? Quais são seus talentos na relação com a equipe e colegas de treino? (Adaptado de Kanfer e Saslow,1976; Martin, 2001; Martin e Pear, 2007).

Todas essas informações servem de base para o planejamento de uma intervenção. O ambiente de um atleta, além do próprio ambiente ao qual o comportamento humano é função.

O primeiro ponto da discussão deriva das questões críticas entre análise do comportamento e os modelos estatísticos, assim como a adoção de médias populacionais para a compreensão do comportamento. O segundo ponto explica o porquê da divisão do comportamento humano em pequenas partes para melhor compreensão dos fenômenos comportamentais. E então, a contingência tríplice do comportamento operante e a análise funcional aborda o modo com a análise do comportamento estuda o comportamento humano e sua relação de dependência com o ambiente.

Um experimento – que mais tarde pode se tornar uma técnica de intervenção, busca garantir, mesmo que com dificuldade, controle das variáveis presentes no ambiente. Quando falamos de técnica ou procedimento nos referimos a algo que foi produto de um delineamento experimental que demonstrou efetividade dentro de um arranjo de contingencias, arranjo esse que foi esquematizado de acordo com configurações ambientais daquela situação. Replicações totais ou parciais de procedimentos devem garantir minimamente que as mesmas condições estejam presentes, já que uma replicação procura testar se o mesmo arranjo experimental pode produzir os mesmos resultados. A adoção de uma técnica simplesmente não garante que o aplicador terá repertório suficiente para lidar com os subprodutos de uma intervenção comportamental, adapta-las de acordo com características próprias do sujeito – histórico de reforçamento, e seu ambiente – replanejar uma intervenção durante o curso dos trabalhos. Uma intervenção comportamental exige padrões e rigor mínimos, e um delineamento experimental envolve (a) linha de base: onde verifica-se o nível e situações em que o comportamento alvo ocorre (b) Intervenção: Alteração ou reorganização das variáveis ambientas e (c) ) avaliação das mudanças ocorridas, as variáveis trabalhadas e os próximos passos da intervenção (Martin, 2001)

No geral quando há a descrição do problema a ser enfrentado é algo restrito à topografia do comportamento, exemplo “preciso de um artigo para atender um atleta que sofre de ansiedade” Além do mais médias estatísticas podem demonstrar a topografia de comportamento de uma população, porém a descrição não abarca quais são as variáveis responsáveis por controlar esses comportamentos. Geralmente um artigo ao apresenta um método desenvolvido por meio de um setting minimamente controlado, onde as variáveis que influenciam o comportamento são descritas. A transposição de tais métodos (técnicas) para o contexto do dia a dia exigem preparo suficiente para analisar as relações ambientais. Nomeações comuns á comportamentos; ansiedade, medo, falta de foco, falta de motivação só descrevem o comportamento e não as variáveis ao qual ele pode ser função, algo que no contexto do dia a dia, com a singularidade de situações e sujeitos, tornando a aplicação da técnica com base no comportamento algo que momentaneamente pode surtir algum efeito mas não lida com o que mantém esse comportamento, logo, a longo prazo, se torna uma técnica ineficaz.

 

  • Versão Resumo do trabalho final do curso de especialização  em Psicologia do Esporte e atividade física – Instituto Sedes Sapientiae

 

Referencias

 

ANDERY, Maria Amalia Pie Abib. Métodos de pesquisa em análise do comportamento. Psicol. USP, São Paulo ,  v. 21, n. 2, p. 313-342, June  2010 .

 

KANFER, Frederick H.; SASLOW, George. An outline for behavioral diagnosis. Behavior Therapy Assessment. New York, Springer Publishing Company, p. 20-40, 1976.

 

MARTIN, Garry L. Consultoria em Psicologia do Esporte. Orientações práticas em análise do comportamento. Campinas, SP: Instituto de Análise do Comportamento, 2001.

 

MARTIN, G.; PEAR, J. Modificação de comportamento: o que é e como fazer. São Paulo: Rocca, 2009.

 

SKINNER, Burrhus Frederic. The behavior of organisms: An experimental analysis. 1938.

 

SKINNER, Burrhus Frederic. Ciência e comportamento humano. Martins Fontes, 2003.

 

SKINNER, Burrhus Frederic. Verbal behavior. BF Skinner Foundation, 2014.

 

COMENTE VIA FACEBOOK

DEIXE UM COMENTÁRIO