A vida de B.F. Skinner: The Dark Year

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Este é o terceiro artigo de uma série que discute a vida de Burrhus Frederic Skinner. Quem é o homem por trás da teoria que inspira tantas pessoas até hoje? O objetivo desta série é reconstruir o caminho percorrido por Skinner, apontando aspectos de sua vida pessoal que determinaram seu comportamento e, consequentemente, o de muitos outros. Espera-se que esta narrativa possa não apenas cativar o leitor, mas também tornar natural e humano aquilo que mais nos fascina.

Skinner em seu vigésimo terceiro aniversário.
Skinner em seu vigésimo terceiro aniversário.

O ano é 1926, o recém-formado Skinner retorna para a casa dos pais em Scranton com o objetivo de se tornar um escritor de romance. Apesar da desconfiança dos pais do sucesso financeiro do filho, concordaram em ceder um quarto tão pequeno quanto suas expectativas entre o quarto de empregada e o sótão para que Fred (apelido de Skinner) o usasse como escritório. Habilidoso manualmente, Skinner construiu sua própria mesa e estante, na qual guardava livros de James Joyce, Ezra Pound, Sinclair Lewis, Fyodor Dostoevsky, Marcel Proust e H.G. Wells.

Contudo, o jovem Skinner não conseguia produzir quase nada. Em uma carta para um professor de sua universidade Percy Saunders Skinner relata “Para começar, estou terrivelmente deprimido há mais de um mês, tão deprimido que não escrevi uma palavra”. É interessante notar que Skinner não diz que está deprimido porque não escreveu uma palavra. Além disso, outros eventos aversivos contribuíram para a depressão de Fred. Seu avô materno morreu aos seus cuidados, Skinner o viu falecer de pneumonia diante de seus olhos. Seu pai (William) também passava por um período difícil, após a decepção de não ser promovido, decidiu pedir demissão e abrir um escritório particular. Entretanto, esta decisão se provou equivocada durante o primeiro ano, pois quase ninguém buscava seus serviços. Este fracasso profissional do pai, que sempre acreditou piamente no progresso incessante por meio da ética protestante de trabalho, culminou em uma depressão.

O tipo de literatura que o jovem almejava produzir teria de ser original, que transmitisse alguma mensagem importante e, ao mesmo tempo, uma literatura descritiva, que não discorresse extensivamente sobre sentimentos e pensamentos dos personagens. A objetividade valorizada por Skinner na literatura se tornou uma marca da ciência que iria desenvolver nos anos seguintes. Entretanto, escrever desta forma não era uma tarefa fácil para um recém-formado com escassa experiência e quase nenhum interlocutor. O jovem chegou até a escrever uma carta para si mesmo explicando “Por que estou desistindo de escrever por muitos anos”. Na carta, Fred destaca que a pressão dos pais foi um fator decisivo na escolha de abandonar a carreira de escritor. William e Grace Skinner pressionavam o filho, agora o único após a morte de Ebbie, a arranjar um emprego fixo. Fred destaca que a sensibilidade dos pais a reforçadores sociais tornava sua situação constrangedora, o que deixa claro que, entre outros comportamentos, a famosa frase de sua mãe “o que os outro vão pensar? ” controlou o comportamento do jovem Skinner. Ao final de uma outra carta, Skinner (1976, p. 291) conclui “Um escritor pode retratar o comportamento humano precisamente, mas não é por isso que ele o entende. Eu iria me manter interessado no comportamento humano, mas o método literário me falhou”.

Daniel Bjork (1997, p.55) destaca as semelhanças entre este período da vida de Skinner e os romances lidos por ele. A luta quase heroica de um jovem solitário contra o status quo vigente que não compreendia os desejos de mudança é a característica de muitos romances e também do que Skinner veio a chamar de “The Dark Year”, o seu “Ano Sombrio”. Na primavera de 1927, Skinner escreveu seu obituário como escritor e o enviou para Saunders. Escrito em terceira pessoa e repleto de cinismo o autor admite “Eu nunca estive perto de concluir um romance (…) não sei por que insisti tanto nisso”.

Após abandonar o projeto de se tornar escritor e fazer alguns bicos de jardineiro, Skinner trabalhou em um projeto de redação legislativa para o pai. O trabalho era extremamente burocrático e entediante, mas o pai o pagaria bem e diminuiria a pressão sobre o filho.

A ideia de estudar Psicologia ganha mais força em 1927, quando Skinner lê um artigo no New York Times de um de seus autores favoritos, H.G. Wells. Neste artigo, o autor se coloca em uma situação onde só pode salvar uma pessoa: George Bernard Shaw (que representa a literatura) e Ivan Petrovich Pavlov (que representa a ciência) e Wells (ainda bem!) escolheu Pavlov. A esta altura, Skinner já havia ouvido falar de Watson, por uma referência elogiosa de Bertrand Russell. Mas Skinner só foi ler Watson (Behaviorism, publicado em 1925) em 1928, após tomada sua decisão de estudar psicologia. Fred buscou orientação com Saunders e Albro Morrill (um professor de biologia durante a sua graduação em Hamilton com quem tinha afinidade) sobre qual universidade seria a mais recomendada para fazer uma pós-graduação em Psicologia, ambos recomendaram a universidade de Harvard. Quando Skinner contou para os pais a decisão de aplicar para a universidade, houve um alívio enorme de ambas partes. Os pais ficaram tão felizes que se propuseram a pagar uma viagem para a Europa durante o verão. Contudo Fred tinha algum dinheiro guardado dos trabalhos que tinha feito e pediu para ir um mês antes para a Europa por sua conta, então se encontraria com os pais em Paris para mais um mês de férias.

Contudo, antes disso, Fred tinha por volta de 4 meses antes de que suas aulas em Harvard começassem. Como conhecia um amigo (Alf Evers) que morava em Manhattan, Fred decidiu morar por lá durante um tempo. Fred se mudou para Greenwich Village, um bairro boêmio conhecido por ser frequentado por artistas e intelectuais, principalmente durante a época da Lei Seca (que vigorou de 1920 até 1933). A vida social de Skinner era excitante e repleta de pessoas que, assim como ele, buscavam se distanciar do american way of life.

Em sua primeira festa em Greenwich Village, Skinner conheceu uma mulher chamada Stella de um jeito singular. Um dos convidados, como sabia que Fred iria estudar Psicologia, o desafiou a tentar hipnotizar alguém. Skinner havia lido sobre o assunto, mas nunca havia tentado, mas isso não o impediu de arriscar-se. A hipnose foi um sucesso, para a surpresa de todos, inclusive do próprio Skinner. Após a festa, eles se encontraram e começaram a ter um caso. Como Stella era casada com um soldado que estava em New Jersey, os dois tiveram que manter tudo debaixo dos panos. O apartamento era grande e Stella alugava um quarto para uma moça, Skinner pegou outro quarto livre e se mudou para lá por volta de um mês.

Após o término com Stella, que ocorreu pela insatisfação afetiva e sexual da mulher, Fred se mudou por um tempo para morar com John Hutchens, seu amigo da época de faculdade. Skinner decidiu arrumar um emprego em uma livraria, pois seu dinheiro estava acabando. Lá, apesar de não ter aprendido a vender livros, pelo menos conseguiu entrar em contato com o livro Psychological Care of Infant and Child (1928), de Watson e adquiriu sua cópia do livro Conditioned Reflexes (1927) de Pavlov.

Fred partiu para a Europa de navio no dia 2 de julho de 1928, durante o período que estava sozinho visitou a Itália, Áustria, Suíça, Bélgica até encontrar os pais em Paris. Com os pais conheceram a França e a Inglaterra, de onde voltaram para Nova Iorque. A viagem permitiu o jovem Skinner experienciar uma liberdade e outras práticas culturais que conhecia por meio de seus livros em Scranton.

            O “Ano Sombrio”, por mais duro que tenha sido, aproximou Fred do behaviorismo. Esta predisposição logo se tornaria uma convicção e um ambiente completamente novo iria modelar o seu comportamento de uma forma que o jovem Skinner ainda nem imaginava.

            O próximo artigo irá apresentar os primeiros anos de Skinner em Harvard, detalhando como foi o seu contato inicial com a Psicologia da época.

Referências bibliográficas:

Bjork, D. W. (1997). BF Skinner: A life. American psychological association.

Pavlov, I. P. (1927). Conditioned reflexes. An Investigation of the physiological activity of the cerebral cortex.

Skinner, B. F. (1976). Particulars of my life. Behaviorism.

Watson, J. B. (1928). Psychological care of infant and child.

 

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