Construindo uma vida que valha a pena ser vivida…

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Queridos leitores dessa coluna sobre Terapia Comportamental Dialética (DBT) do Comporte-se. Esse texto irá se dedicar a um dos pontos mais importantes da DBT. Na verdade, podemos dizer que essa coluna irá dissertar sobre a motivação básica da aplicação dessa abordagem de tratamento. Ou seja, irá se discutir aqui o principal objetivo terapêutico da DBT que é o de que o paciente possa construir uma vida que valha a pena ser vivida (Linehan, 2010). Porém, paradoxalmente, como já seria de se esperar de uma abordagem dialética, não será abordado aqui nada referente a técnicas ou estratégias de tratamento. Mas sim sobre valores, objetivos e alguns fundamentos teóricos que concernem à abordagem e à desregulação emocional (principal indicação de tratamento da DBT) (Linehan,2015).

Assim sendo, primariamente temos de tentar entender, afinal de contas, o que significa para a DBT a ideia de construir uma vida que valha a pena ser vivida. Esse tema para a DBT trata-se do objetivo central do tratamento. Sendo mais descritivo sobre essa questão, significaria dizer que seria os pacientes aumentarem taxas de comportamentos guiados por valores, ou seja, aquele conjunto de coisas que fornecem sentido para a vida deles. Mas como isso pode ser aplicado dentro do contexto da DBT? Esse é um ponto crucial dentro da DBT. E para conseguir-se um entendimento adequado da questão é fundamental que se possa entender a desregulação emocional dentro da perspectiva analítico funcional típica da DBT. Dentro desse entendimento os comportamentos suicidas e de auto-mutilação não letal (AMNL), que são tão comuns em pacientes com intensa desregulação emocional, para a DBT são entendidos não como um problema mas como formas de resolver problemas. Ou seja, para a DBT esses pacientes possuem algum evento ambiental desencadeante de uma alta ativação emocional e que as condutas suicidas, de AMNL, assim como outros comportamentos clinicamente relevantes, funcionam como uma estratégia que tem como consequência a redução dessa alta ativação. Dessa forma, podemos colocar que as estratégias comportamentais da desregulação emocional constituem-se claramente como um modelo de esquiva (Swales & Heard, 2009). É justamente a formatação desse modelo de esquiva que acaba tornando-se o grande desafio para o tratamento da desregulação emocional, afinal acaba-se tendo um padrão comportamental altamente disfuncional com um grande histórico de reforçamento (Linehan, 2010).

Mas então, como deve ser planejado o tratamento para esses pacientes? O padrão comportamental, descrito no parágrafo acima, é mantido por um intenso histórico de reforçamento por intervalo de tempo intermitente, o que garante uma alta estabilidade para esse padrão (Moreira & Medeiros, 2007). Contudo, esse modelo de esquiva acaba por inibir no paciente um conjunto de comportamentos que os levariam a melhorar as suas vidas, uma vez que esses requeiram que o paciente seja capaz de se expor e tolerar um estado emocional aversivo (Linehan, 2010). Um exemplo bem claro disso seria o de um paciente que ao ouvir de seu pai que é um “preguiçoso e que jamais será alguém na vida”, acaba correndo para o seu quarto e recorrendo a AMNL para lidar com a sua tristeza, com o seu medo e com a sua raiva. Esse repertório acaba inibindo que o paciente consiga se contrapor ao seu pai, ou de desenvolver algum repertório que o leve a aceitação de como o seu pai é, ou ainda de modificar algo de sua conduta que julgue ser necessário tendo em vista a relação com o seu pai (Dimeff & Koerner, 2007). Assim sendo, para conseguirmos combater esses padrões comportamentais, não basta ao terapeuta ensinar estratégias para inibir o comportamento suicida, de AMNL ou qualquer comportamento clinicamente relevante. Cabe ao terapeuta trabalhar com o paciente um novo padrão comportamental que seja claramente oposto as condutas de esquiva da desregulação emocional e que possam obter reforçadores com a mesma ou maior magnitude do que o padrão comportamental que está tentando ser substituído. Traduzindo isso, dizemos afirmativamente que não adianta tentar fazer o paciente não se matar somente. Isso é, obviamente, importante. Mas mais importante que isso é que o paciente possa construir assim uma vida que valha a pena ser vivida, pois somente assim é que seremos totalmente efetivos para lidar com esses comportamentos (Linehan, 2010). Contudo, podemos nos questionar que se a construção de uma vida que valha a pena ser vivida é algo relevante de ser trabalhado tão somente com pacientes com desregulação emocional?  A resposta que essa coluna defende é claramente que não. Todos nós vivemos em uma cultura altamente veloz, com estímulos muito intensos e com uma série de desafios diários que muitas vezes acabam nos levando a um estado de alta ativação emocional, ou ainda, de um alto desgaste emocional. Nesse sentido, todos nós podemos acabar desenvolvendo uma série de comportamentos de esquiva frente a esses estados emocionais que acabem inibindo a formação ou o reforçamento de repertórios que nos aproximem daquelas questões que são realmente relevantes na nossa vida, ou seja, os nossos valores.

Isso nunca esteve tão claro na vida deste que vos escreve quanto está, desde o dia 14 de agosto do ano de 2015, exercendo a função de pai. Nessa data tive a mais linda oportunidade que a vida pode oferecer a alguém que é a do nascimento de um filho. Um momento único, sem explicação de tamanha felicidade que se sente nessa situação. Pois bem, justamente esse episódio singular acabou tendo um efeito muito interessante em minha vida. Acaba que a partir da inserção desse novo ser em minha vida, passei a experimentar um intenso questionamento sobre o que de fato era importante para mim e como eu gostaria de conduzir a vida a partir do nascimento do meu filho. Isso acabou me levando a um profundo desafio, afinal de contas existiam muitos comportamentos novos que eu gostaria de adotar e muitos antigos com um profundo histórico de reforçamento que eu gostaria de diminuir. Assim sendo, acabei me expondo ao drama mais prototípico que nossos pacientes atravessam, que é o de “sim eu sei o que tenho que mudar, mas como?”. Nesse instante, defrontei-me com a única possibilidade que me pareceu ser possível que foi a de iniciar imediatamente as mudanças de que eu gostaria. Claro que nem sempre as coisas funcionam da forma ideal de que eu gostaria, mas sei que ainda tenho um longo caminho de modelagem pela frente. Contudo, meus queridos leitores, posso afirmar com convicção que hoje estou conseguindo dedicar cada vez mais tempo para estar com o meu filho e acompanhar o desenvolvimento dele. E tem sido com profunda alegria que tenho vivenciado que a magnitude do reforçamento da relação com o meu filho é muito superior ao de comportamentos que me retirem dessa experiência. Coloco para vocês que dessa forma, estou conseguindo construir cada vez mais uma vida que valha a pena ser vivida para mim, ou seja, uma vida que seja mais governada por comportamentos que me aproximem dos meus valores. Por fim, meus queridos leitores, proponho a vocês que observem: o que é necessário na vida de vocês para que ela seja digna de ser vivida? Experimentem tentar desenvolver comportamentos que os aproximem de uma vida mais digna. Observem com atenção as consequências que esses novos comportamentos acabam trazendo. Claro, não esperem fazer tudo 100% já de cara, não ignorem o histórico de reforçamento que os comportamentos que os afastam de uma vida digna de ser vivida possuem. Lembrem-se, existe um caminho importante de ser vivido que é o de aproximações graduais do padrão comportamental almejado. Assim, cada pequeno avanço nesse sentido já é para ser comemorado. Então meus queridos, topam o desafio? Garanto a vocês duas coisas. Primeiro, todos que optarem por esse caminho terão de enfrentar muitos estados emocionais desagradáveis de sentir e aprender a aceitá-los. E, segundo, a continuidade desses comportamentos inevitavelmente os levará a construção de uma vida que de fato valerá a pena ser vivida.

Referências:

Dimeff, L. & Koerner, K. (2007). Dialectical behavior therapy in clinical practice. New York: Guilford Press. Linehan, M. M. (2010). Terapia cognitivo-comportamental para o transtorno da personalidade borderline. Porto Alegre: Artmed. Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed. Swales. M. A. & Heard, H. L. (2009). Dialectical behavior therapy. London: Routledge.

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