Entrevista com Giovana Munhoz da Rocha: Comportamento Antissocial

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Devido ao crescente interesse no tema “comportamento antissocial” e a ausência de profissionais capacitados a falar sobre, o Comporte-se convidou a psicologa forense Dra. Giovana Munhoz da Rocha para uma entrevista ao site a fim esclarecer dúvidas sobre o assunto. Giovana Munhoz da Rocha é formada em Psicologia pela Universidade de Tuiuti, é mestre em Psicologia da Infância e da Adolescência pela Universidade Federal do Paraná e concluiu seu doutorado na Universidade de São Paulo, em 2008. Tem experiência na área de Psicologia Clínica, atuando como analista do comportamento há mais de dezoito anos. Atua da mesma forma em Psicologia Clínica Forense.

1 – Quando começou a se interessar pela Psicologia? Por que o foco em análise do comportamento?

Quando jovem convivia com psicólogos, alguns deles comportamentalistas. Na época não sabia o que isso queria dizer, mas eram pessoas que eu admirava muito. Entrei na faculdade e era uma imersão de psicanálise, como se desejassem nos doutrinar, mas a visão de homem e de mundo do Behaviorismo Radical de Skinner de fato me fascinaram. Para ter certeza disso experimentei práticas, estudei e fiz cursos de outras abordagens. Em contato com as contingências tive certeza de era analista do comportamento! Fiz cursos de extensão e formação durante a faculdade, fiz pós-graduação em terapia comportamental, Mestrado em psicologia da infância e da adolescência sob orientação de uma grande analista do comportamento (Yara K. Ingberman) e doutorado em Psicologia Clínica sob orientação da Sônia Meyer.

2 – Quando começou a se interessar por comportamento antissocial?

Apesar de ter me deparado com este padrão na clínica, desde os estágios, a especialização ocorreu no doutorado. Quando estava no doutorado queria trabalhar com casos clínicos “resistentes” à psicoterapia e relação terapêutica. Como minha orientadora (Sonia Meyer) alertou, seria muito difícil que clientes cujo comportamento é a não-adesão ao processo aceitassem espontaneamente participar do trabalho. Estávamos pensando em como poderia ser feito e conversei sobre isso com a Paula Gomide que me levou para conhecer a unidade de internamento de alto-risco (hoje os chamados centros de socioeducação). Lá tive meu primeiro contato com jovens cujo padrão de comportamento era predominantemente antissocial. Mais tarde descobri que o nome desta prática é Psicologia Clínica Forense, um campo específico na Forense definido pela APA em 2001. Desde então trabalhei e trabalho com vários outros campos da Psicologia Forense, como a avaliação, a psicologia do crime, programas de prevenção, assessoria, pesquisa, dentre outros.

3 – O que se sabe atualmente a respeito de quais condições contribuem para o desenvolvimento de comportamento antissocial?

Sabe-se muito. O número de pesquisas cresce exponencialmente, sobretudo em países que investem em políticas de prevenção. Não há um único fator relacionado ao desenvolvimento do comportamento antissocial. São múltiplas variáveis que na interação organismo – ambiente contribuem para a manutenção deste padrão. Podemos então, obviamente falar da filogênese, da ontogênese e da cultura. Os estudos mais recentes têm ressaltado a importância de se compreender que não há um único determinante, mas que a disciplinas que destacam o entrelaçamento das variáveis biológicas com as ambientais são as que tem tido maior sucesso para explicar o desenvolvimento deste padrão de comportamento. Entretanto, não posso deixar de fazer uma ressalva: ninguém nasce mau. 

4 – Você percebe algum preconceito da sociedade – e até do meio acadêmico – em relação a pessoas com transtorno de personalidade antissocial?

Muito. Mas deixe-me inicialmente pedir para utilizar a terminologia comportamento antissocial. Explico: se tratarmos do transtorno de personalidade antissocial, como descrito na pergunta, deverei ater-me a uma descrição clinica circunscrita a um único quadro tradicionalmente conhecido por todos nós a partir do DSM. Tratando do comportamento antissocial posso falar de um padrão mais amplo, mais abrangente.

Qualquer indivíduo que apresente padrões antissociais, pela própria natureza deste padrão – ferir a norma do grupo, contra o social – suscita reações desde as mais previsíveis até algumas impensáveis. O preconceito existe, e avalio ser grave quando no meio acadêmico este aparece, pois seria de esperar que neste espaço a base para emissão de críticas não fosse o senso comum. Sendo psicólogos então, fico chocada, não tenho outra expressão. Tenho lido, estarrecida, nas redes sociais profissionais e acadêmicos compartilhando links com temas tais quais “bandido bom é bandido morto”, “tá com pena leva pra casa”, e outros absurdos, tendo em vista que é inimaginável escolhermos uma profissão cujo cerne em linhas gerais é a preocupação com a (qualidade de) vida.

5 – Como acredita que pode ser feito o trabalho clínico com pessoas com transtorno de personalidade antissocial?

Trabalhar com crianças, adolescentes e adultos que apresentam comportamentos antissociais requer além da especialização teórica e refinamento no manejo clínico, o aprimoramento de algumas características comportamentais do próprio psicoterapeuta. E também estou referindo-me à prática da Análise do Comportamento na clínica particular “comum”. Mas, estes clientes podem chegar até nós em uma outra modalidade de clinica, a Psicologia Cínica Forense, na qual a participação do individuo é compulsória, pois o encaminhamento é judicial. Então, há novas variáveis intervenientes…

Mas, certamente há o trabalho com esta clientela sim. As pesquisas demonstram resultados positivos, notando que quanto antes inicia-se a intervenção, mais promissores os efeitos.

6 – Que resultados são possíveis?

Para cada indivíduo acontecerá de uma maneira. Majoritariamente poderia se dizer que será reduzido o padrão de comportamentos antissociais, porém é preciso apontar para cada cliente quais novos comportamentos ele passará a ter em seu repertório. Ou seja, os resultados dependem da avaliação funcional de cada caso, ou seja, quais as classes de comportamento-alvo a serem trabalhadas. Lembre-se, quando falamos de comportamentos antissociais estamos falando de uma classe de respostas abrangente; podemos nos referir à criança opositora ou ao adolescente agressivo, que usa drogas e não estuda mais ou à menina que esta batendo nas colegas, agredindo professores, ou ainda aos pais que espancam seus filhos até a morte.

7 – Quais são as principais dificuldades enfrentadas por quem trabalha com pessoas com Transtorno de Personalidade Antissocial?

É preciso ter repertório para lidar com a frustação, com a hostilidade que os clientes apresentam na sessão e com o lento progresso em grande parte dos casos. Quando os clientes são crianças e adolescentes é preciso ter perícia para se orientar e capacitar pais e cuidadores, avaliando inclusive se é preciso que eles próprios necessitem de intervenção psicoterápica. Ao mesmo tempo é preciso dosar a empatia, ser acolhedor.

8 – Atualmente você coordena um projeto de pesquisa intitulado “Práticas Analítico-Comportamentais com População de Risco”. Pode falar um pouco sobre ele?

Este projeto é a base para minhas orientações no Mestrado em Psicologia, no qual sou orientadora na área de concentração Psicologia Forense, na Universidade Tuiuti do Paraná. Ele abrange um grande leque, desde a avalição de populações de risco, população carcerária, agentes da lei, até a intervenção propriamente dita com todas estas pessoas, no que se chama Clínica Forense.

Gostaria de citar que associado ao Mestrado e á graduação de Psicologia na UTP existe o Núcleo de psicologia Forense (NuFor-UTP), contando hoje com mais de 20 participantes. Recebemos encaminhamentos judiciais, de população em risco e vulnerabilidade social, crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional. Realizamos atendimento especializado, grupos de comportamento moral, grupos e orientação em práticas educativas individual, recebemos palestrantes que atuam na área, capacitamos os alunos em avaliação forense, atuamos no campo da mediação, alguns alunos são voluntários de pesquisa de mestrandos, além de mantermos um grupo de estudos em Análise do Comportamento coordenado por uma mestranda (Analu Ianik) e um Mestre formado pelo programa (Adriano Watanabe).

9 – Para finalizar, poderia deixar algumas dicas ou sugestões de leitura para os Analistas do Comportamento que se interessem pelo tema Transtorno de Personalidade Antissocial?

A literatura sobre comportamento antissocial é vasta, contudo em grande parte internacional. Escolhendo um só, para um panorama geral do comportamento antissocial complexo, já na esfera da criminalidade indico “Criminal Behavior: A Psychological Approach – 10th Edition” de Ann Bartol & Curt Bartol (Ed.Pearson New International Edition). Está a venda também em Kindle no Brasil, o que permite o acesso imediato. Esta edição é de 2014, está toda atualizada com pesquisas recentes, fantástica! Recomendo.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom! Bem sucinto e de boa base para quem pretende seguir com a análise comportamental e suas vertentes.

  2. Entrevista espetacular parabéns… Giovana Munhoz da Rocha uma profissional humanista merece meu respeito e admiração… uma inspiração acadêmica… pretendo seguir seus passos…

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