Behaviorismo Radical e Comportamento Religioso: Primeiras Considerações

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Vivemos num mundo em que a maioria das pessoas parece possuir algum tipo de crença religiosa. Temos a oportunidade de conhecer diversos tipos de religião, seja praticando-a seja lendo sobre ela. Podemos aprender sobre doutrinas religiosas como o budismo e o espiritismo, sobre deuses greco-romanos, deuses egípcios, nórdicos e hindus e também sobre religiões monoteístas como o islamismo e o cristianismo.

Aprendemos também que cada doutrina e religião dessas possui princípios e valores que norteiam sua prática em sociedade e, como behavioristas radicais, entendemos que essas práticas são determinadas, principalmente, por contingências que Skinner (1981) categorizou como ontogenéticas e culturais. As culturais sendo determinantes da sobrevivência de um grupo enquanto uma comunidade verbal composta por membros que apresentam determinados comportamentos que colaboram para a sobrevivência de suas práticas e valores e as ontogenéticas como mantenedoras da sobrevivência de um organismo como indivíduo único em função de sua história de vida (Catania, 1999; Skinner, 1953; 1974; 1969; 1978)

Uma vez que alguns de nós partilhamos dessas práticas religiosas podemos dizer que a religião exerce controle sobre nossos comportamentos (Sidman, 1995; Skinner, 1974), sendo categorizada, então, como uma agência controladora do comportamento (Skinner, 1953).

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No entanto, só por ser uma religião não implica que será uma agência controladora do comportamento. Pois, para que haja controle, é necessário que o indivíduo identifique que as regras, valores e princípios de uma determinada religião se adequem às suas regras, valores e princípios pessoais, aprendidos em sua história de vida. Em outras palavras, para que seja uma agência controladora, a religião deve ser compreendida como uma instituição que tem valor para seus membros e, também, porque suas práticas deem sentido para a vida de quem as segue.

Ademais, o controle exercido pela agência religiosa só será efetivo se, além do valor dado pelos membros do grupo, houver princípios do comportamento supersticioso permeando não só os comportamentos dos controlados, mas também dos controladores: “um protótipo de controle religioso surge quando contingências raras ou acidentais são usadas no controle do comportamento de outrem” (Skinner, 1953, p. 351), porque, para que seja considerado controle religioso, deve haver algum tipo de relação com uma entidade sobrenatural.

E essas contingências, acidentais ou não, podem ter tanto caráter aversivo como positivamente reforçador e, por isso, são chamadas de técnicas de controle da agência religiosa (Sidman, 1995; Skinner, 1953). Análoga ao governo, a religião classifica classes de comportamento que serão positivamente reforçadas (ou que, ao menos, não serão punidas) e classes de comportamento que sofrerão consequências aversivas (ou que, ao menos, não serão reforçadas).

Essas classes são denominadas de comportamentos virtuosos e comportamentos pecaminosos, respectivamente. Em algumas religiões, como o islamismo e o cristianismo, aqueles que apresentam comportamentos virtuosos a maior parte da vida têm a promessa do Paraíso e os pecadores a ameaça de passar a eternidade queimando no Inferno. Mas, devido às contingências culturais que podem pré-determinar o comportamento religioso, as técnicas de controle variam de culturas para culturas (Skinner, 1953) e, sendo assim, de religiões para religiões.

Muitas delas utilizam-se de livros e escrituras sagradas que norteiam suas práticas e ditam seus valores ante os membros e a sociedade das quais fazem parte. Membros considerados mais aptos podem ser os responsáveis por interpretar e passar esses dizeres aos controlados e, esses, por sua vez, convencidos da existência e importância de um ente sobrenatural e da eficácia das práticas descritas nos livros e escrituras sagrados, tendem a seguir os mesmos princípios e são responsáveis também por manter a religião viva na cultura.

Sendo assim, cria-se a hipótese de que essa classe de comportamento possa ter sua gênese com reforçamento acidental contingente a determinados comportamentos que livram os indivíduos de eventos aversivos ou lhes aproximam de eventos reforçadores positivos que, a priori, são inexplicáveis e que, talvez por relações de equivalência (Sidman, 2009), são atribuídos a criaturas sobrenaturais e forças da natureza. Há também os livros (sagrados ou não), que nada mais são que estímulos verbais produzidos pelo comportamento verbal de outro indivíduo (Skinner, 1957) e que vão ajudar na instalação e manutenção de comportamentos religiosos na maioria dos membros constituintes da agência controladora, atribuindo ao sobrenatural uma causalidade ambiental negligenciada ou difícil de ser descrita.

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O ponto principal em todo esse mecanismo é de que o controle religioso é essencialmente verbal. Por mais que alguns biólogos e psicólogos cognitivistas atribuam que o comportamento religioso pode ter uma gênese biológica e adaptativa (Bortolini & Yamamoto, 2013), eles jamais desconsideram a importância das contingências culturais e sociais (e, por assim dizer, verbais) na manutenção dessa classe comportamental. Afinal, para que haja o controle, como dito, é necessário que o controlado dê valor e atribua concordância entre os valores da religião e sua própria história de vida e essa concordância talvez só seja estabelecida através de relações de equivalência que dependem do comportamento verbal para existir (Sidman, 1994; 2000; 2009).

Não tem como o indivíduo saber que o Inferno é deplorável e atormentador ou que o Paraíso só produzirá sentimentos de satisfação e prazer se não foi ensinado a ele por instrução (seja pela leitura de um livro sagrado, seja porque alguma autoridade religiosa ou até mesmo sua própria família lhe disse isso). Comportamentos virtuosos ou pecaminosos são assim classificados de acordo com o que a cultura reforça ou pune. Tais contingências são descritas por meio de comportamentos verbais vocais ou textuais.

O perdão, a redenção e a salvação também não seriam objetivos a serem almejados pelos fiéis se eles não soubessem descrever o que cada uma dessas instâncias significa em suas vidas eternas e se não soubessem como conseguir conquista-los. A própria vida eterna não seria uma dádiva se não lhe tivessem ensinado, por contingências verbais, que ela existe e que é bom vive-la no Paraíso ao invés de vive-la no Inferno. E é responsabilidade das instituições e autoridades religiosas estabelecer essas relações verbais no repertório de seus membros constituintes para que ela se mantenha viva e funcionando de forma efetiva.

Claramente, o texto não busca dizer quais comportamentos a religião tem interesse de controlar e se isso faz ou não bem para o indivíduo, tampouco se preocupou em mostrar formas de contracontrole à agência religiosa e quais as implicações para o analista do comportamento. O único movimento que se fez foi de virar o holofote para o controle verbal que a agência religiosa exerce sobre o comportamento de seus membros.

Um próximo texto salientará os aspectos apresentados anteriormente (comportamentos que a igreja parece querer controlar e quais as formas de contracontrole) e também a eficiência do comportamento religioso na manutenção da qualidade de vida do indivíduo e suas implicações para a atuação clínica.

Referências

 Bortolini, T.; Yamamoto, M. E. (2013) Surgimento e manutenção do comportamento religioso: Contribuições da Teoria Evolucionista. Estudos de Psicologia. v. 2, n. 18, pp. 223-229.

Catania, A. C. (1999) Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição. Porto Alegre: Artmed.

Sidman, M. (1994) Equivalence relations and behavior: a research history. Boston: Index Books Groups.

Sidman, M. (1995) Coerção e suas Implicações. São Paulo: Editorial Psy II.

Sidman, M. (2000) Equivalence relations and the reinforcement contingency. Journal of the Experimental Analysis of Behavior. v. 74, n. 1, pp. 127-146.

Sidman, M. (2009) Equivalence relations and Behavior: an introductory tutorial. The Analysis of Verbal Behavior. v. 25, pp. 5-17.

Skinner, B. F. (1953) Science and Human Behavior. New York: The Free Press.

Skinner, B. F. (1957) Verbal Behavior. Cambridge: Copley Publishing Group.

Skinner, B. F. (1969) Contingencies of Reinforcement – a theoretical analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner, B. F. (1974) About Behaviorism. New York: Vintage Books.

Skinner, B. F. (1978) Reflections on Behaviorism and Society. New York: Appleton-Century-Crofts.

Skinner. B. F. (1981) Selection by Consequences. Science, v. 213, n. 4507, pp. 501-504.

 

 

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