Cognições na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)

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Na perspectiva das Terapias Cognitivas, o pensamento tem um papel preponderante nas questões psicológicas. Um dos principais objetivos das abordagens com esse enfoque é a substituição de padrões considerados não adaptativos – chamados de crenças irracionais, distorções cognitivas, entre outras denominações – por outros considerados mais adequados. Assim, várias técnicas são utilizadas, visando a promover essa substituição, conhecida como reestruturação cognitiva.

As Terapias Comportamentais baseadas no Behaviorismo Radical, como a Analítico-Comportamental, por exemplo, seguem outra linha. Elas não descartam o papel dos pensamentos nas cadeias causais de outros comportamentos, mas propõem um caminho mais direto, através da análise e manipulação do ambiente que estaria produzindo tanto os comportamentos abertos quanto os encobertos. Para Skinner (1969), na prática, todos os modos de mudança cognitiva consistem em manipular o ambiente, seja ele verbal ou não.

A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) está embasada numa abordagem de linguagem conhecida como Teoria das Molduras Relacionais (RFT), cujas pesquisas surgiram exatamente do interesse em entender como os comportamentos verbais guiam outros comportamentos humanos. As pesquisas iniciais aconteceram sob inspiração dos trabalhos de Murray Sidman sobre “equivalência de estímulos”. Entretanto, a observação da emergência de relações derivadas sem treinamento prévio em sujeitos humanos conduziu a uma ampliação de conceitos elaborados pelo autor, de modo a incluir processos mais complexos de linguagem.

De acordo com a RFT, o núcleo essencial da linguagem e das cognições superiores é a habilidade de aprender e aplicar molduras relacionais, através de três propriedades sob controle contextual arbitrário: implicação mútua, implicação combinatória e transformação de função de estímulos. O assunto é bastante denso e será abordado de forma mais detalhada em outra oportunidade. Para os propósitos deste texto, basta dizer que, como as molduras relacionais são aplicadas arbitrariamente, não há nada que possa evitar sua ocorrência a partir da sua aprendizagem inicial. Nós, seres humanos, podemos relacionar tudo a qualquer coisa, de todas as maneiras possíveis e inimagináveis.

Leia somente a frase abaixo destacada, feche os olhos por alguns segundos e observe o que acontece em seguida:

UNI DUNI TÊ SALAMÊ…

Se você cresceu no Brasil, é bem provável que não consiga evitar que MINGUÊ complete o pensamento. Nossa história de reforço faz com que essas palavras arbitrariamente associadas e devidamente treinadas sejam evocadas, mesmo sem possuírem nenhum significado relevante. O mais incrível é que essas palavras nem estão no dicionário! Elas são usadas para rimar e simplesmente formar o que se conhece como parlenda:

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/dicas/di30040504.htm

Pense agora numa criança tratada com muito afeto por pais que sempre fizeram de tudo para que ela se sentisse amada, desejada, importante. Por maior que seja o esforço e dedicação, nada irá evitar que, ao se relacionar com outras pessoas, essa criança venha a ter dúvidas a respeito de seu próprio valor. Qualquer evento pode criar condições para que respostas sejam derivadas: desde uma negativa para entrar numa brincadeira, um comentário mais ou menos inocente de um coleguinha, entre outras infinitas possibilidades de ocorrências dentro de um ambiente social. Estabelecer relações arbitrárias é um comportamento operante cujas contingências controladoras são tão amplas, que se torna muito difícil regular o surgimento de novas relações.

Como não existe um processo chamado desaprendizagem, quando uma criança deriva “eu sou desagradável”, por exemplo, essa impressão ficará, em algum grau, arraigada nela. Mesmo se a sensação perder força, ela poderá ser recuperada rapidamente, décadas depois. Simplesmente não é possível suprimir esse pensamento inteiramente de nossa história, e vários estudos demonstram esse fato (Hayes, Strosahl & Wilson, 2012).

Os pesquisadores da RFT descobriram, no entanto, que as molduras relacionais são reguladas por duas características: o contexto relacional e o contexto funcional. Enquanto tentar alterar o contexto relacional pode levar à derivação de outras molduras indesejadas, é possível “quebrar as regras” da linguagem através da mudança do contexto funcional. Uma das principais estratégias utilizadas para esse fim é a Desfusão Cognitiva.

As técnicas de desfusão cognitiva tentam alterar as funções indesejáveis dos pensamentos e de outros eventos privados, em vez de tentar alterar suas formas, frequência ou sensibilidade situacional. Dito de outra maneira, a ACT tenta criar uma maneira de interagir ou se relacionar com os pensamentos, criando contextos nos quais suas funções inúteis sejam diminuídas, seguindo assim, um caminho bastante diverso da TCC, que tenta substituir estes pensamentos por outros considerados mais funcionais, ou da Terapia Analítico-Comportamental, que tenta fazer com que sua frequência seja reduzida.

Conforme explicam Hayes, Strosahl e Wilson (2012),

Mais do que enfatizar apenas mudança na forma de experiências privadas porque essas formas são presumidas como causais, os terapeutas de ACT enfatizam mudar as funções das experiências privadas.

Em resumo, a ACT convida seus clientes a tomarem uma nova perspectiva sobre seus próprios pensamentos. Em vez de tentar mudar ou corrigir as cognições para aliviar o sofrimento, o que se almeja é alterar as funções de nossas experiências privadas (pensamentos, sentimentos, memórias, reações corporais), de tal forma que não nos atrapalhem tanto. O foco está na relação com essas experiências, não no conteúdo delas. Estratégias de aceitação e técnicas de mindfulness ajudam a enfraquecer o impacto das experiências sob a pele, libertando o cliente de padrões limitantes e permitindo uma vida mais flexível, mais agradável e com mais significado.

Referências

Hayes, S.C.; Barnes-Holmes, D. & Roche B. (2002). Relational Frame Theory: A Post-Skinnerian Account of Human Language and Cognition. New York, Boston, Dordrecht, London, Moscow: Kluwer Academic Publishers.

Hayes, S.C.; Sthosahl, K.D.; Wilson, K.G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change. Second Edition. New York, London: The Guilford Press.

Skinner, B.F. (1969) Contingencies of Reinforcement: a Theoretical Analysis. New York: Appleton-Century-Crofts.

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2 COMENTÁRIOS

    • Olá, Jonathan! Na verdade, a ideia é não tentar mudar o pensamento, porque com isso você só irá fazer com que ele ocorra com mais frequência. Ao não lutar contra os pensamentos, podemos nos dedicar mais a construir a vida que gostaríamos de ter. A dica é focar no que pode ser mudado (que são as ações que empreendemos na direção de uma vida com sentido) e não dar tanta importância ao que surge dentro de nós. Pensamentos são apenas pensamentos, e quando nos relacionamos com eles assim, eles passam a não incomodar tanto. ;)
      Isso é diferente de acomodação ou resignação. É, de fato, uma escolha por um caminho, com abertura para o que estiver surgindo dentro de nós.

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