A Análise do Comportamento é uma ilha – Parte 1

2

Existe uma sensação de isolamento que volta e meia acomete os analistas do comportamento. Uma sensação de que o nosso trabalho não é reconhecido – ou pelo menos não o tanto quanto gostaríamos – pelas outras áreas do conhecimento. O poeta inglês John Donne certa vez afirmou que nenhum homem era uma ilha, não acho que o mesmo possa ser dito do behaviorismo radical. Este texto objetiva defender que este isolamento reflete características históricas do programa skinneriano. Para facilitar a leitura irei dividir o tema em dois textos. Esse primeiro contará um pouco da história anterior ao velho Skinner entrar em cena, uma parte importante que geralmente é deixada de lado. Já o próximo texto abordará a proposta skinneriana e o seu isolamento.

 

A destruição e reconstrução da psicologia

 

Nos primeiros anos do século XX a psicologia ainda era fortemente influenciada pela tradição de “conhecimento pelo conhecimento” da filosofia alemã. Os laboratórios de Wundt, e mais tarde do seu aluno Titchener, pesquisavam os elementos constituintes da consciência. Não vem ao caso explicar todas as particularidades destes dois projetos – leitores mais interessados podem dar uma olhada na obra “Sistemas e teorias em psicologia” (Marx & Hillix, 1973/1963).  O que vale destacar é que nesse período muitos alunos interessados em psicologia foram estudar no laboratório de Wundt, incluindo vários alunos americanos. Uma característica marcante desses alunos é que apesar de terem aprendido a apreciar os métodos experimentais em Leipzig, quando voltaram para os EUA eles desenvolveram linhas de pesquisa mais pragmáticas, mais próximas da tradição norte-americana de ciência do que da alemã (Moore, 2008). Afinal de contas, é difícil de fugir da linha de base.

Nesse período existiam dois grandes pontos de vistas na psicologia: o estruturalista e o funcionalista. O primeiro encabeçado por Titchener e o segundo por William James e Stanley Hall, o fundador do primeiro laboratório de psicologia dos EUA e da Associação Americana de Psicologia (APA). Novamente, para um estudo mais profundo sobre o tema, o leitor terá que buscar outras fontes. Para os fins deste texto basta saber que o estruturalismo estava mais preocupado em identificar o que constituía a “consciência”, enquanto o funcionalismo se interessava em como funcionava e para que poderia servir essa tal de “consciência”. Além disso, a necessidade de conseguir financiamento para o laboratórios de psicologia nos EUA, junto do investimento maciço em educação no início do século XX, fez com que a psicologia tivesse que apresentar produtos relevantes para a sociedade. Este contexto faz com que os psicólogos funcionalistas se voltassem para estudos com aplicações mais diretas, e.g., criação de testes, psicologia escolar e da aprendizagem.

Aqueles foram dias intensos. Passou a se exigir uma aplicabilidade prática da psicologia, e além disso outros ramos, como a psicologia objetiva (que desenvolveu métodos de medição de fenômenos psicológicos) e a psicologia animal passam a dar ferramentas de maior precisão e controle para o estudo dos indivíduos. Cedo ou tarde alguém juntaria as coisas e balançaria as estruturas da psicologia.

Até este ponto o objeto de estudo da psicologia era majoritariamente a consciência. Entretanto, a partir da publicação teoria da evolução de Darwin e Wallace as coisas mudam de figura. Surge a noção de continuidade entre as espécies, ou seja, as espécies compartilham estruturas e até comportamentos entre si. Logo algumas pessoas perceberam que não havia motivos para que algumas leis gerais do comportamento não englobassem tanto o ser humano quando animais não-humanos. E bem, a psicologia animal estava a todo vapor, produzindo dados e tecnologias muito mais precisas que os advindos dos métodos introspectivos de outras áreas da psicologia da mente.

Agora eu imagino que o leitor está esperando a entrada triunfal do velho Watson na história. Ele chega, extirpa a mente da seara de estudo da psicologia e estabelece o behaviorismo como uma alternativa à psicologia da mente. Bem, o Watson realmente fez isso, porém ele não acordou numa bela manhã e resolveu dizer que o objeto do estudo da psicologia era o comportamento, o zeitgeist da época exigia isso (Schultz & Schultz, 1991/1969).

Outras pessoas já haviam começado a tratar o comportamento como o foco. Em 1924 foi publicado o livro que reunia os trabalhos do período de 1910 até 1917 do filosofo Edgar Arthur Singer Jr., “Mind as behavior” – Novamente, aqueles mais interessados podem ler com mais detalhes sobre a virada do século XIX para o XX em Moore (2008) e Carvalho Neto (2001) – Não que isso retire o mérito do Watson, afinal ele sistematizou todo esse movimento e criou um projeto novo para a psicologia. Mas é sempre bom lembrar que a história vai muito além de um punhado de pessoas importantes, ela é um emaranhado de entrelaçamentos culturais complexos. Na época de Watson o fomento para pesquisa nos EUA era direcionado para pesquisas que produzissem coisas úteis, e não havia tanto espaço para hipotetizar sobre os elementos da consciência. Foram os arranjos de contingências que modelaram o comportamento de Watson e não o contrário.

Portanto, o projeto behaviorista não foi aquela revolução que gostamos de vender nas aulas de História da Psicologia. Kantor e Smith (1975) pontuam que na história não temos quebras bruscas de paradigmas, na verdade a evolução é sempre paulatina, e pode ter a sua origem traçada de algum movimento anterior. No caso do behaviorismo, esses movimentos foram o funcionalismo, a psicologia animal e a psicologia objetiva, como visto antes neste texto, bem como o início da difusão de uma visão monista na filosofia.

Apesar do projeto behaviorista inicial ser vitorioso no sentido de ter criado um novo ramo de estudos experimentais na psicologia, ele tinha algumas limitações, as quais logo foram pontuadas por aqueles que viriam ser conhecidos como neobehavioristas: 1) comportamentos aparentemente espontâneo e a variabilidade não se adequavam bem ao modelo S-R; 2) Apesar de Watson ter lidado com alguns temas não observados publicamente (e.g., pensamento, emoções, experiência pessoal), muitos temas que tradicionalmente eram trabalhados pela psicologia foram deixados de lado ou não tiveram o destaque esperado pela comunidade da psicologia; 3) outras ciências começavam a avançar significativamente, postulando variáveis não observáveis (e.g. teoria da relatividade e a física quântica) (Moore, 2008).

Assim como Watson sofreu influências do funcionalismo, seus críticos obteriam do Positivismo lógico e do Operacionismo as ferramentas necessárias para sustentar uma prática contrária ao behaviorismo watsoniano. Para eles era possível trabalhar com variáveis não observáveis diretamente desde que você pudesse medir e postular um sistema lógico sobre estas variáveis.

A partir das criticas à propostas watsonianas surgem novos movimentos dentro do movimento behaviorista, estas novas propostas recebem o nome genérico de neobehaviorismo. O neobehaviorismo foi um movimento plural, cuja característica mais marcante foi a adição de uma nova variável ao estudo do comportamento. Agora a velha S-R, dá lugar a S-O-R, com “o” de organismo. Processos que ocorrem no organismo passam a mediar o estimulo e a resposta do individuo. Como esse é um movimento que abarca várias formas de behaviorismos, esse “O” vai ter uma definição mais especifica de acordo com a teoria da qual estamos falando. Como ocorre, por exemplo, no Behaviorismo de Tolman, o O (organismo) é expresso nos mapas cognitivos; já no de Hull ele aparece na força do hábito e no potencial de reação; entre outros.

Vale ressaltar que apesar de se colocar desta forma, boa parte destes movimentos não visava criar uma ruptura ontológica entre mente e corpo. Muitos desses behavioristas defendiam que estavam criando teorias monistas. Apesar de alguns destes terem ajudado a criar a psicologia cognitiva, seu flerte com o mentalismo se deu pela possibilidade de estruturas ou processos fisiológicos internos terem função causal na sua análise. Sendo assim, apesar de defenderem um monismo físico, na prática eles criaram sistemas explicativos que apelavam para variáveis que não poderiam ser acessadas diretamente, mas que poderiam ser medidas indiretamente.

Sendo assim, é no mínimo prepotente chamar esse movimento plural de “behaviorismo metodológico”, teorias que usavam apenas os métodos comportamentais. Na verdade, Skinner usa esse termo para diferenciar sua teoria das de seus antecessores e vender o seu peixe (mas ainda não é o momento de falar do Skinner). Algumas das teorias criadas nessa época desenvolveram ramos de pesquisa experimental que perduram até os dias de hoje. Sua intenção foi trazer antigos temas da psicologia novamente para a roda. Assim como em um dado momento contingências sociais selecionaram uma psicologia pragmática que gerava um produto socialmente útil, neste momento, os processos seletivos estavam dando vantagem a maneiras de se estudar os comportamentos ditos superiores, i.e., o que entendemos como subjetividade e outros fenômenos psicológicos complexos.

Do jeito que nossa história é contada, tendemos a acreditar que primeiro veio o behaviorismo watsoniano, depois os neobehavioristas em resposta e por sua vez o behaviorismo radical em resposta aos neobehavioristas. Essa é uma impressão um tanto equivocada, pois apesar do manifesto behaviorista ser de 1913 e o primeiro livro do Skinner de 1938, o livro que Watson escreve para sistematizar o seu projeto é de 1924. Ou seja, os primeiros trabalhos de Skinner antecedem a publicação do seu livro, além do que muito dos neobehavioristas publicaram seus livros após os anos 40. (Moore, 2008) Portanto, historicamente temos Watson como o pioneiro, em seguida várias pessoas tentando avançar com o estudo do comportamento humano. Mesmo que Tolman e Hull tenham alcançado cargos acadêmicos anos antes de Skinner, pode-se dizer que as teorias neobehavioristas e a teoria skinneriana são contemporâneas.

***

Schultz e Schultz (1991/1969) ao contrapor o impacto na história de indivíduos e dos contextos, afirma que apesar de história costumar dar grande importância para os indivíduos, estes só conseguiram deixar suas marcas porque o contexto permitia que eles fossem escutados. Não é a toa que diversos pensadores não fizeram sucesso em sua época natal, apenas para ter suas ideias redescobertas anos depois. Tentei descrever brevemente o contexto em que Skinner surgiu. Apesar de não ter chegado ao tema do isolamento, acredito que esse primeiro passo é fundamental para entender as decisões que ele irá tomar na elaboração do seu projeto. No texto que se seguirá tentarei apresentar as idiossincrasias skinnerianas que se não levaram propriamente, no mínimo contribuíram, para o isolamento da análise do comportamento do resto da psicologia e de outras áreas afins.

ZYK
O velho Zing Yang ficou chateado por não ter sido mencionado.

 

 

Referências

Carvalho Neto, M. B. (2001). B. F. Skinner e as explicações mentalistas do comportamento: uma análise histórico-conceitual. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo.

Kantor, J. R. & Smith, N. W. (1975). The Science of psychology: an interbehavioral survey. Chicago: The Principia Press.

Marx, M. H. & Hillix, W. A. (1973). Sistemas e teorias em psicologia. São Paulo: Cultrix (trabalho originalmente publicado em 1963).

Moore, J. (2008). Conceptual foundations of radical behaviorism. New York: Sloan Publish.

Schultz &Schultz (1991). A história da psicologia moderna. São Paulo: Cultrix (trabalho originalmente publicado em 1969)

Watson, J. B. (2007). Behaviorism. New  Brunswick: Trasaction Publishers. (trabalho originalmente publicado em 1924).

COMENTE VIA FACEBOOK

2 COMENTÁRIOS

  1. Texto muito interessante. Apesar da história contada ser relativamente conhecida para quem já pegou disciplinas como História da Psicologia, o autor recontou de forma inovadora. Estou ansioso pela parte 2!

DEIXE UM COMENTÁRIO