Deixando 2015 pra depois? Sobre metas de início de ano e procrastinação.

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“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra adiante vai ser diferente”.

Esse trecho de um poema (Cortar o Tempo) atribuído a Drummond descreve um pouco o que algumas pessoas geralmente fazem a cada doze meses. E como confirmação disso, percebemos que por acreditarem tanto que tudo começa outra vez a cada inicio de ano, estabelecem uma nova lista de objetivos. Alguns ainda do ano anterior, outros que são sonhos e aqueles que talvez nem sejam possíveis de realizar. Juntamente com as festas, os planos e as promessas aparece também a esperança de que o ano que chega vai ser melhor que o anterior. Ainda que nada ou poucas coisas mudem pelo simples fato da mudança numérica no calendário, esta convenção acabou se tornando um ótimo incentivo para começarmos de novo, fazer diferente e termos a sensação de renovação. Mesmo que saibamos que não é necessário esperar o ano novo para realizar mudanças em nossa vida. E mais que isso, o ano novo não muda a vida de ninguém se não nos comportarmos em prol de mudanças. Mas, infelizmente nem sempre isso acontece. Prova disso é a quantidade de pessoas que fizeram promessas ou resoluções de fim de ano e já deixaram de lado.

 Por que é tão difícil manter uma resolução de fim de ano?

1471092_567746566627901_1494410634_nGeralmente, a dificuldade está relacionada ao controle das contingências que não estão alinhadas aos planos traçados. A princípio, para se cumprir com as resoluções ou mesmo evitar frustrações é necessário que os objetivos sejam possíveis de se realizar. Por exemplo, se você estabelece como meta passar no vestibular, é importante estabelecer qual curso pretende e de que forma vai estudar para conseguir ser aprovado. Se vai fazer cursinho, quais os melhores horários e locais para estudar, os materiais adequados etc. Quanto mais o objetivo estiver alinhado com as possibilidades de execução, mais chances tem de se concretizar. Sem organização, planejamento adequado e metas possíveis, é comum haver a famosa procrastinação. E também pode ocorrer alguma frustração quando se percebe o não cumprimento dos objetivos de inicio de ano.

 Mas, por que procrastinamos?

procrastinação

O termo Procrastinação está relacionado ao adiamento de tarefas e representa uma classe de comportamentos presente nos mais diversos ambientes ou condições de estímulo: educação, saúde, trabalho, entre outros (Grandi, 2014). Quando procrastinamos geralmente nos engajamos em outras tarefas que não tem a menor relação com a tarefa que deveria ser realizada. Algumas com consequências que reforçam positivamente nosso comportamento e outras negativamente, mas sempre a curto prazo e com alguma função. Segundo Skinner, quando “dizemos que o comportamento deve ter um sentido ou um significado, queremos dizer que variáveis independentes devem estar operando em nosso comportamento.” (Skinner, 1984, p.371). Desta forma, é importante ressaltar que os comportamentos relacionados à procrastinação não são necessariamente uma característica generalizada, isto é, um indivíduo pode procrastinar em determinados ambientes e não em outros (Grandi, 2014).

Pesquisas apontam que variáveis como: baixa tolerância a frustração, comportamento de fuga/esquiva de situações com maior possibilidade de falhas, pouca tolerância diante de situações aversivas etc; contribuem para o desenvolvimento de um padrão de comportamento procrastinador (Kerbauy e Hamasaki, 2001). A história de contingências também é um fator que colaborou para o desenvolvimento de um padrão comportamental de procrastinação, no entanto não é suficiente para mantê-lo, pois este se mantém a partir das contingências presentes. Outro ponto importante sobre o comportamento de procrastinação é a ausência do repertório de resolução de problemas e de autocontrole. Em alguns casos, o indivíduo simplesmente não sabe como resolver o problema ou organizar suas atividades para começar a colocá-las em prática, dessa forma o comportamento de autocontrole acaba por não entrar em ação também. Skinner, (1953/2007, p.252) define autocontrole quando “o indivíduo vem a controlar parte de seu próprio comportamento quando uma resposta tem consequências que provocam conflitos – quando leva tanto a reforço positivo quanto a negativo”.

2015 pra valerO indivíduo que apresenta repertório de autocontrole abre mão de uma consequência em curto prazo pela consequência em longo prazo. Ao contrário do comportamento de procrastinação, em que o individuo prioriza a consequência a curto prazo. Nesse sentido o comportamento fica sob controle de variáveis que apresentam consequências imediatas ao responder ou exigem um baixo custo de resposta, atividades concorrentes que envolvem consequências reforçadoras em curto prazo, como por exemplo ficar rindo das postagens dos seus amigos no Facebook ou ficar papeando no WhatsApp ao invés de estudar para o vestibular. Em longo prazo geralmente há consequências reforçadoras também, no entanto, é necessário que haja repertório de autocontrole e uma organização clara das atividades para que não ocorra a procrastinação.

De fato a procrastinação pode atrapalhar um pouco, se não muito, alguns planos e atividades diárias. Mas se a “arte” de procrastinar está causando problemas, pode ser a hora de começar o ano um pouco mais organizado. Vou tentar ajudar com algumas dicas básicas para isso:

O método GTD (Getting Things Done ou fazer as coisas, em tradução livre) é uma técnica bastante útil na organização de atividades diárias. Este método pode auxiliar em diversos setores da vida, como: trabalho, estudos, planos para viagens, projetos entre outros. O método GTD é dividido em quatro etapas, que devem ser seguidas para que a organização seja bem sucedida: Coleta, Processamento, Ação e Revisão. São utilizados algumas ferramentas digitais e aplicativos que podem ajudar a quem quer colocar em prática o método GTD. Alguns deles são:  WorkFlowy, Google Keep,  Pocket, MindMeister, SimpleMind, Evernote,  Remember The Milk, Todoist, Wunderlist, Asana.

Para saber mais sobre o Método GTD

10 aplicativos que vão potencializar o uso do método GTD no seu dia a dia

Outros aplicativos:

Wunderlist, app ajuda a organizar tarefas (para Android e iOS) e os calendários Fantastical (para Mac), e Google Calendar (no browser e no Android), que auxiliam na organização de atividades e enviam alertas.

Geralmente algumas tarefas se tornam especialmente difíceis quando temos nossos amigos nos chamando no WhatsApp, notificações surgindo no Facebook, a timeline do Twitter rodando sem parar e uma infinidade de conteúdo para acompanhar. Se ficar sem checar essas redes é incontrolável para você, experimente essas ferramentas externas.

O WriteRoom (Windows e Mac) bloqueia a tela do computador para que fique acessível somente atividades relacionadas à escrever. O LeechBlock (Firefox) e o StayFocused (Chrome)  bloqueiam determinados sites por um período de tempo. O RescueTime ajuda a alertar quando precisa de uma pausa para o descanso.

É importante que, com ou sem ajuda de aplicativos, as tarefas ainda que pequenas sejam realizadas. Por isso procure não procrastinar as tarefas mais curtas. Coloque como regra: se uma tarefa demorar menos de dois minutos para ser feita, deve ser feita na hora. Pois se forem acumuladas aumentarão cada vez mais e podem se tornar um convite à procrastinação.

Vale lembrar que a programação das contingências devem ser bem organizadas, de forma que sejam esvanecidas (retiradas gradualmente) com o tempo para que você não se torne tão dependente assim de agendas ou aplicativos. O ideal é que tenhamos uma rotina saudável, adquirindo autonomia e que o próprio realizar de nossas atividades seja naturalmente reforçador. Em alguns momentos esse seguimento de regras, uso de métodos e aplicativos pode se tornar um pouco cansativo, mas se você não estiver conseguindo fazer naquele momento, não insista. Respeite seu tempo e seus limites, faça outra atividade, se for o caso. Permita-se procrastinar com qualidade, para esfriar a cabeça. E se cobre menos. O mais importante é ter consciência da prioridade que algumas atividades têm e realizá-las com organização e tranquilidade para que sejam positivamente reforçadoras.

ano novo Sendo assim, encerro com o restinho do poema que comecei este texto e  “(…) para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. A esperança renovada. Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir.Todas as músicas que puder emocionar. Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida. Gostaria de lhe desejar tantas coisas mas nada seria suficiente. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo a sua felicidade!”

E acima de tudo, desejo que 2015 seja um ano repleto de realizações e quase nada de procrastinações! Feliz Novo Ano!

Referências:

Grandi, P. (2014). Depois eu faço. Entendendo a Procrastinação. Comporte-se. Disponível em:  http://comportese.com/2014/03/depois-eu-faco-entendendo-a-procrastinacao/. Acesso em Fev. 2015.

Hamasaki, E.I. de M.; Kerbauy, R.R. (2001). Será o comportamento de procrastinar um problema de saúde? Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. São Paulo, v.3, n.2, dez.

Revista Galileu. Disponível em: http://revistagalileu.globo.com/Life-Hacks/noticia/2013/12/como-comecar-o-ano-sem-procrastinacao.html. Acesso em Fev. 2015.

Sanches, T. (2013). 10 Aplicativos que vão potencializar o uso do Método GTD no seu dia a dia. Escola Freelancer. Disponível em: http://www.escolafreelancer.com/aplicativos-para-o-metodo-gtd/. Acesso em Fev. 2015.

Skinner, B.F. (1953/2007). Ciência e Comportamento Humano. Tradução de João Carlos Todorov e Rodolpho Azzi, São Paulo: Ed. Martins Fontes.

Skinner, B. F. (1984). Contingências do reforço: uma análise teórica. Tradução de Rachel Moreno. 2.ed. São Paulo: Abril Cultural.

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