Conceitos Básicos I: Paradigma Respondente – O Reflexo Incondicionado

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    Quando estiver quente, muito provavelmente você irá suar. O suor é um mecanismo biológico de adaptação, comum a todos os seres humanos. Sua função é resfriar o corpo diante de altas temperaturas. Espera-se ainda que seu corpo comece a tremer no frio intenso. Este é outro mecanismo biológico de adaptação comum a todos de nossa espécie – os tremores aquecem, mesmo que pouco, o organismo. Indo além, é comum aos seres humanos intactos – aqueles biologicamente saudáveis (Leonardi e Nico, 2012) – passarem por experiências como:

    Som alto e repentino – Sobressalto

    Estímulo sexual (nudez, por exemplo) – Excitação Sexual

    Situação de ameaça – Taquicardia, sudorese, tremor

    Descida repentina – Frio na barriga

    Luz forte – Contração da pupila

    Seio na boca do bebê – Sucção

    Cada uma destas reações possui uma utilidade em nossa vida. Conforme explicam Moreira e Medeiros (2007), elas correspondem a uma espécie “preparação mínima” para que o organismo consiga sobreviver no mundo e começar a interagir com ele.  A esta preparação, que todo ser humano possui independente de aprendizagem (Baum, 2008;), chamamos de “Reflexo Inato” ou “Reflexo Incondicionado” (Moreira e Medeiros, 2007).

    A palavra “Reflexo” aparece nos textos técnicos da Análise do Comportamento com um significado bastante diferente daquele de seu uso cotidiano.  No dia a dia falamos de “reflexo” quando nos referimos a pessoas rápidas, como um artista marcial capaz de se defender de vários socos (“reflexos rápidos”) ou um motorista que consegue evitar um acidente. Na Psicologia Comportamental o termo é usado para descrever uma relação em que uma mudança específica no ambiente elicia uma resposta particular no organismo, conforme ilustrado pela figura abaixo:

    É importante dizer ainda que o “reflexo” não existe enquanto uma instância de qualquer natureza, tão pouco corresponde à reação do organismo a um estímulo. Reflexo é o nome dado à relação entre a mudança no ambiente (estímulo) e a alteração no organismo (resposta). Esta relação é unilateral: o organismo não afeta o ambiente, mas em lugar disso, é afetado por ele.  Nela, cada estímulo ambiental elicia uma (ou umas) resposta (s)  específica (s) – por exemplo, a luz forte é capaz de eliciar a “contratação pupilar”, mas em hipótese nenhuma irá eliciar “sucção”.

    Existe uma variedade tão grande de comportamentos reflexos que seria impossível descrever todos eles aqui. Ainda assim, vale listar alguns dos mais comuns, descritos por Martin e Pear (2009) no quadro abaixo:

    Reflexos
    Figura 2: Lista de Comportamentos Reflexos. Fonte: Martin e Pear, (2009, p. 203)

    Uma característica em comum entre estes e os outros reflexos é que, invariavelmente, são de cunho fisiológico. De acordo com Leonardi e Nico (2012), é possível que esta característica explique o pouco interesse dos Analistas do Comportamento pelo tema, bem como o alcance limitado do paradigma na explicação de comportamentos mais complexos.  Ainda nestas condições, é importante estudá-los. Conforme explicam os autores, o reflexo está presente na análise de qualquer situação concreta e ocorre de forma simultânea a outros tipos de comportamento, interagindo com eles e influenciando-os, de forma que, na prática, fica difícil separar. A título de exemplo, observe a tirinha abaixo:

    Calvin
    Figura 3: Calvin Caindo da Cadeira/ Respondentes de Susto. Fonte: Latteblues.

    Calvin está sentado, estudando tranquilamente. De repente sua cadeira vira. Ele dá um sobressalto e grita “ôôô Uêêêpa!”. Este foi o reflexo: cadeira virando – sobressalto/susto. Ao mesmo tempo em que ele ocorreu, diversos outros comportamentos mais complexos também aconteceram. Provavelmente Calvin pensou em alguma coisa, como “Socorro!!!”; tentou proteger o rosto (último quadrinho) e pode ainda ter tentado agarrar a mesa ou olhado para os lados. Não fosse o “susto” que levou, provavelmente Calvin teria demorado mais a reagir.

    A análise dos Comportamentos Reflexos deve levar em conta, ainda, três princípios listados por Moreira e Medeiros (2007) e explicados abaixo:

    – Lei da Intensidade e Magnitude

    A lei da intensidade-magnitude estabelece que “a intensidade do estímulo é uma medida diretamente proporcional à magnitude da resposta” (Moreira e Medeiros, 2007, p.22), ou seja, quanto mais forte o estímulo, mais forte a resposta. Por exemplo, quanto maior a surpresa, maior o susto.  Quanto mais quente, maior a quantidade de suor. Quanto maior a voltagem no choque, maior o sobressalto. Na tirinha de Calvin, quanto mais rápido a cadeira virasse, maior seria seu susto.

    – Lei do Limiar

    Moreira e Medeiros (2007) explicam que “para todo reflexo existe uma intensidade mínima do estímulo necessária para que a resposta seja eliciada” (p.23). Em outras palavras, não é qualquer estimulação que irá provocar o reflexo. Há a necessidade de uma intensidade mínima para que isso aconteça. Um som baixo, por exemplo, ainda que repentino, pode não ser capaz de provocar um sobressalto. Um som alto e repentino, por sua vez, pode fazê-lo. Na tirinha, se a cadeira tivesse virado muito devagar, Calvin poderia não ter se assustado e simplesmente se levantado dela.

    – Lei da latência

    A lei da latência fala sobre o intervalo de tempo entre a apresentação do estímulo e a ocorrência da resposta (Moreira e Medeiros, 2007). Se, por exemplo, uma resposta ocorre três segundos após a apresentação do estímulo, dizemos que ela teve uma latência menor do que outra que demorou 5 segundos. Uma variável que interfere diretamente na latência da resposta é a intensidade do estímulo apresentado. Quanto mais intenso ele for, mais rápido a resposta ocorre – ou seja, menor é sua latência. A exemplo disso, pense em uma superfície quente. Quanto mais quente ela estiver, mais rápido a pessoa sentirá dor.

    Além destas três leis, o estudo dos comportamentos reflexos requer a compreensão de outros aspectos,  como os efeitos de eliciações sucessivas da resposta, aprendizagem de novos reflexos, generalização, extinção e recuperação espontânea, contracondicionamento e dessensibilização, condicionamento de ordem superior, entre outros, que serão tratados em artigos futuros. Por agora, é o bastante saber que o Reflexo Incondicionado forma, junto ao Reflexo Condicionado, o Paradigma Respondente da Análise do Comportamento.

     

    REFERÊNCIAS

    Martin, G. & Pear, J. (2009). Modificação de Comportamento: o que é e como fazer. Tradução organizada por N. C. Aguirre & H. J. Guilhardi. 8ª Edição Revisada. São Paulo: Roca.

    Moreira, M. B. e Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed.

    Leonardi, J. L., & Nico, Y. (2012). Comportamento respondente. In: N. B. Borges & F. A. Cassas (Orgs.), Clínica analítico-comportamental: Aspectos teóricos e práticos (pp. 18-23). Porto Alegre: Artmed

    Baum, W. M. (1999). Compreender o behaviorismo: ciência, comportamento e cultura. Porto Alegre, Artmed.

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    Psicólogo com especialização em Terapia Comportamental pelo ITCR (Campinas, SP), formação em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) e FAP (Terapia Analítica-Funcional) pelo Instituto Continuum (Londrina/ PR) e aluno do curso de formação em DBT (Terapia Comportamental Dialética) do Behavioral Tech | A Linehan Institute (Seattle, EUA). É sócio-diretor da Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento, em Patos de Minas/ MG, onde atende a adultos em terapia individual e de casais, coordena grupos de estudos sobre Terapias Comportamentais e fornece supervisão clínica a outros terapeutas comportamentais. Coorganizou dois livros de Terapia Comportamental: Terapia Comportamental: Dos Pressupostos Teóricos às Possibilidades de Aplicação (Esetec, 2012) e Depressão: Psicopatologia e Terapia Analítico Comportamental (Juruá, 2015). É fundador e diretor geral do Comporte-se: Psicologia e Análise do Comportamento.
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