II GUERRA MUNDIAL, GUERRA FRIA E A ANÁLISE DO COMPORTAMENTO ENTRA NO JOGO: Psicologia Comportamental do Esporte

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Em artigos anteriores para a coluna de Psicologia do Esporte, aqui no comporte-se, foram abordados alguns poucos exemplos de como a Análise do Comportamento se insere na área do esporte e, também, foram apontados algumas características do desenvolvimento da Psicologia do Esporte dentro da história da Psicologia – até 1930 – e influencias dos “pais” da Psicologia na construção dessa sub área da Psicologia ou sub área das Ciências do Esporte , já que os primeiros estudos se deram em faculdades de Psicologia e também nas faculdades de Educação Física. Os textos podem ser acessados aqui e aqui , o artigo a seguir é uma continuação dos fatos históricos que marcaram a construção da Psicologia do Esporte.

“Com as mudanças sociais ocorridas entre a década de 30 e 50 a psicologia do esporte se desenvolveu de modo lento, porém constante. O laboratório de Griffith sucumbiu ao período da grande depressão na economia americana na década de 30 e, devido aos acontecimentos na Europa e por ordem dos regimes da época, os estudos não eram publicados ou não eram desenvolvidos de fato”

Para Jarvis (2006) a grande depressão americana na década de 1930 foi a responsável pelo fechamento do laboratório de Coleman Griffith, ao qual se atribui o status de “Pai” da Psicologia do Esporte. Já Moran, Walker e Craig (2011) apontam que o fim das verbas destinadas ao laboratório de Griffitth pode ter ocorrido devido a Robert Zuppke – influente técnico da Universidade Illinois – não ter visto os benefícios das pesquisas do Psicólogo em seu time.

As informações sobre o desenvolvimento da Psicologia do Esporte entre 1930 e 1960 são divergentes. Para Shaw, Gorely e Corban (2005), Vealey (1999), Jarvis (2006) e Maher (2005) durante esse período houve uma pausa na produção de conhecimento dessa área, e nada de relevante surgiu dos laboratórios. Porém, mesmo com a pausa no desenvolvimento acadêmico, a psicologia do esporte saiu dos laboratórios e começou a fazer parte dos trabalhos realizados com equipes e times da época. Griffith, por exemplo, trabalhou por alguns anos no time de baseball Chicago Cubs (Green, 2003).

Por outro lado Gould e Volker (2014) e Weinberg e Gould (1995) o período entre as décadas de 1930 a 1960 é o período conhecido como “Preparação para a Disciplina” ou “Preparação para o futuro”, onde a Psicologia do esporte passou a ser estudada de modo mais amplo por vários pesquisadores, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, diferentemente de seu inicio entre 1890 e 1920 onde poucos se dedicavam ao desenvolvimento de conhecimento da área.

A Psicologia do Esporte também esteve presente na segunda guerra mundial, onde psicólogos que contribuíram para o desenvolvimento da área prestaram consultoria para os militares. Walter Miles investigou a adaptação visual imediata dos pilotos a escuridão quando faziam utilização de óculos de lentes da cor vermelha. Colleman Griffith serviu como diretor de programas de treino especializados para estudantes militares na Universidade de Illinois (Kornspan, 2009).

Entre os anos de 1945 e 1964 houve um aumento do número de laboratórios de Psicologia do Esporte nos Estados Unidos, ligados diretamente às Universidades de Berkeley (Califórnia), Pensilvânia e Indiana. Neste período, segundo Vieira e outros (2010) os estudos foram influenciados pelo Behaviorismo de Watson, que Skinner divulgava nos EUA.

Um dos responsáveis pelo desenvolvimento da Psicologia do Esporte Norte Americana durante esse período foi Franklyn Henry da Universidade de Berkeley – Califórnia, onde, além de desenvolver estudos, foi responsável por treinar educadores físicos que mais tarde também passaram a desenvolver programas de pesquisa (Weinberg & Gould, 1995), Enquanto maior parte do trabalho de Henry era voltado para aprendizado e controle motor, alguns de seus estudantes passaram a se dedicar ao estudo da personalidade e performance. Entre as décadas de 40 e 50, segundo Gould & Voelker, psicólogos e educadores físicos discutiam formas de sobre como a psicologia aplicada especificamente aos atletas poderia ajudar no aumento de performance.

Já na Europa, segundo Jarvis (2006) a psicologia do esporte ressurgiu logo após a segunda guerra mundial. Para Gould e Voelker (2014) nesse período a psicologia do esporte foi fortemente influenciada pelas mudanças socioculturais da época. Os jogos Olímpicos, a Guerra Fria e a corrida espacial influenciaram e impulsionaram o desenvolvimento da área.

O contexto histórico das guerras e as competições esportivas entre os países adquirem um papel fundamental no desenvolvimento da Psicologia do Esporte enquanto área da ciência. Embora as Olimpíadas, por exemplo, tenham sido criadas com a intenção de pacificar através do esporte, as potências mundiais viram ali um palco para demonstração de força ideológica. As 1ª e 2ª guerra mundial não foram marcadas somente pela competição bélica e econômica. Na Europa a União Soviética levantava a bandeira do socialismo, na Alemanha o Nazismo de Hitler buscava mostrar, também, a força e suposta superioridade física da raça ariana, adicionando outras áreas na corrida pelo status de soberano politico e econômico do globo. Nessa época as Olimpíadas passaram a ser vistas como espaço para demonstração dessa soberania, através do sucesso esportivo dos atletas desses países. Nos anos seguintes, com a época da guerra fria, é interessante notar que entre a década de 40 e a década de 60 houve um aumento expressivo dos laboratórios de estudo da Psicologia do Esporte, justamente na época mais acirrada da Guerra Fria, entre Estados Unidos e União Soviética. Parte desses estudos vem da corrida espacial e desenvolvimento de métodos de treinamentos para astronautas. Cuba, até hoje, utiliza parte do conhecimento produzido durante a corrida espacial como método de treinamento de atletas. Esse avanço vem em conjunto com as mudanças sociais. Na 1ª guerra houve grande necessidade de desenvolvimento rápido e avanços tecnológicos, já o contexto da 2ª guerra e a guerra fria fez o esporte adquirir o status de fenômeno social.

Nos anos 50, as pesquisas realizadas pelos soviéticos, inicialmente desenvolvidas para astronautas tornaram-se de grande validade para os atletas, pois, em conjunto com procedimentos da Psicologia do Esporte, vieram a ser grande referência para o trabalho nas décadas de 1980 e 1990 (Rubio, 2003). Grande parte do sucesso da psicologia do esporte desenvolvida na união soviética vem do desenvolvimento paralelo dos trabalhos de Avksenty Cezarevich Puni e Petr Antonovic Rudik. Os trabalhos da Psicologia do Esporte Soviética desde seu inicio foram voltados para o desenvolvimento de uma sistematização de treinamento buscando o alto rendimento para a competição (Stambulova et all, 2006)

A institucionalização da Psicologia do Esporte – e seus desdobramentos – iniciaram-se em 1965 quando foi criada a Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte tendo como primeiro presidente o italiano Ferrucio Antonellli. Inspirados pela Sociedade Internacional de Psicologia do Esporte, outros países fundam sociedades para agrupar os estudiosos da área. Em 1966 a Associação Norte Americana para a Psicologia do Esporte e Atividade Física, 1967 –Sociedade Britânica de Psicologia do Esporte e Sociedade Francesa de Psicologia do Esporte, 1969 – Sociedade Canadense Para Aprendizagem Psicomotora e Psicologia do Esporte e Associação Alemã de Psicologia do Esporte. O primeiro volume do International Journal of Sport Psychology é lançado em 1970 (Gould & Voelker, 2014; Gill & Reifsteck, 2014)

Segundo Martin & Tkachuk (2000) e Martin e Thomson (2011) os primeiros autores a publicar em Psicologia Comportamental do Esporte foram Rushal e Pettinger (1969), o estudo foi uma comparação entre diferentes contingencias de reforçamento em um time de natação. Porém, ainda segundo os autores, e como salienta Cillo (2002) o marco na área foi a publicação do livro “O desenvolvimento e controle do comportamento no esporte e educação física” – The Developmental and Control of Behavior in Sport and Physical Education – em 1972. O livro escrito pro Brent Rushall e o educador físico Daryl Siedentop, apresenta uma série de programas comportamentais para modelar e manter comportamentos no contexto competitivo do esporte. Em 1974 a primeira pesquisa em Psicologia do Esporte publicada no Journal of Apllied Behavior Analysis, de Thom McKenzie e Rushall. No estudo foi demostrada a efetividade de um pacote de auto monitoramento para melhorar performance na pratica da natação. Ainda, segundo Martin e Thomson (2011) outros dois proeminentes pesquisadores em Psicologia Comportamental do Esporte foram Ron Smith e Frank Smill, onde, na Universidade de Washington, conduziram assessoramento e intervenções comportamentais em esportes juvenis. Assim, Rushall, Siedentop, Mckenzie e Smith foram os pioneiros em Análise do Comportamento aplicada aos esportes.

Como já abordado no primeiro artigo (hiperlink) desta coluna, o acesso à mensuração e manipulação das variáveis no contexto dos comportamentos humanos complexos, entre eles, o esporte, se deu a partir da publicação do Verbal Behavior de Skinner (1957), se tornando um salto nos procedimentos da analise do comportamento aplicado aos contextos extra laboratório, levando em conta a relevância social e a importância dos estudos para a resolução de problemas do dia a dia (Kazdin 1978; De Cillo 2000, 2002).

Atualmente uma das referências da área é Garry Martin, da Universidade de Manitoba, Canadá, em uma de suas maiores publicações, e grande referencial para profissionais, professores e estudantes (Scala, 2001), “Consultoria em Psicologia do Esporte: Orientações práticas em análise do comportamento” (2001) apresenta sistematicamente varias formas de intervenção em analise do comportamento e psicologia do esporte, reunidos ao longo de vários anos de estudos em conjunto com seus vários orientandos nos cursos em que foi professor. Além de roteiros de intervenção o autor apresenta também dicas de como o Psicólogo do Esporte pode se inserir e se manter no mercado de trabalho.

Nos próximos artigos, por fim, serão apresentados de fato estudos em Psicologia Comportamental do Esporte. A escolha por apresentar, de modo detalhado, o inicio da Psicologia do Esporte, e as configurações e mudanças sociais nos primeiros anos até a década de 1960 e 70 têm como objetivo mostrar ao leitor não somente a análise do comportamento nessa área e sim condições antecedentes que tiveram como consequência o desenvolvimento da área. Parte do desenvolvimento inicial, por exemplo, se deu por conta da demanda no esporte de alto rendimento como espelho politico dos diversos regimes vigentes. Atualmente, na Europa e América do Norte os estudos estão voltados para a vertente das politicas publicas de saúde da população, visto que os gastos governamentais com saúde para tratamento das consequências de uma vida sedentária e alimentação a base alimentos altamente industrializados, custam muito mais para os cofres públicos do que patrocinar estudos. O que para nós atualmente, pode ser condição antecedente para o desenvolvimento e aprimoramento, a nível nacional, de estudos voltados para esportes e políticas publicas de saúde e prevenção.

Referências

Cillo, E.N.P. (2002). Psicologia do Esporte: conceitos aplicados a partir da Análise do Comportamento. Em Adélia Maria dos Santos Teixeira (org.) Ciência do Comportamento: conhecer e avançar, volume 1, ESETec, Santo André/SP,119-137.

Gill, D., & Reifsteck, E. (2014). History of exercise psychology. In R. Eklund, & G. Tenenbaum (Eds.), Encyclopedia of sport and exercise psychology. (Vol. 8, pp. 341-346). Thousand Oaks, CA

Gould, D., & Voelker, D. (2014). History of sport psychology. In R. Eklund, & G. Tenenbaum (Eds.), Encyclopedia of sport and exercise psychology. (Vol. 8, pp. 346-351). Thousand Oaks, CA: SAGE Publications

Green, C. D. (2003). Psychology strikes out: Coleman R. Griffith and the Chicago Cubs. History of psychology, 6(3), 267.

Jarvis, M. (2006) Sport psychology: A student’s handbook. Routledge.

Kazdin, A. E. History of behavior modification: Experimental foundations of contemporary research. University Park Press, 1978.

Kornspan, A. S. (2009). Fundamentals of sport and exercise psychology. Human Kinetics.

Maher, C. A. (2005) (Ed.). School sport psychology: Perspectives, programs, and procedures. Routledge.

Martin, G. L. (2001) Consultoria em Psicologia do Esporte. Orientações práticas em análise do comportamento. Campinas, SP: Instituto de Análise do Comportamento.

Martin, G. L., & Thomson, K. (2011). Overview of behavioral sport psychology. In J. K. Luiselli & D. D. Reed (Eds.). Behavioral Sport Psychology: Evidence-Based Approaches to Performance Enhancement. New York: Springer.

Martin G.L, Tkachuk G.A. (2001). Behavioral sport psychology. In: Austin J, Carr J.E, editors. Behavioral sport psychology: Handbook of applied behavior analysis. Reno, NV: Context Press.

Moran, A., Walker, G., Craig, C.(2011) Key concepts in sport psychology. Sage.

Scala, C. T. (2001). Consultoria em psicologia do esporte: orientações práticas em análise do comportamento de Garry L. Martin, Campinas: Instituto de Análise do Comportamento (2001). Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 3(2), 83-84.

Shaw, D., Gorely, T., Corban, R. (2005) Sport and exercise psychology. Garland Science.

Stambulova, N. B., Wrisberg, C. A., & Ryba, T. V. (2006). A tale of two traditions in applied sport psychology: the heyday of Soviet sport and wake-up calls for North America. Journal of Applied Sport Psychology, 18(3), 173-184.

Vealey, R.S Psychology. (1999) In: Levinson, D; Christensen, K (Ed.). Encyclopedia of world sport: from ancient times to the present. Oxford University Press.

Vieira, L. F., Vissoci, J. R. N., Oliveira, L. P., & Vieira, J. L. L. (2010). Psicologia do esporte: uma área emergente da psicologia. Psicologia em Estudo, Maringá, 15(2), 391-399.

Weinberg, R. S., & Gould, D. (1995). Foundations of sport and exercise psychology. Champaign, IL: Human Kinetics.

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