Dependência química: filosofia, ciência e espiritualidade nas clínicas brasileiras

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As drogas psicoativas fazem parte da história da raça humana há um longo período¹. Porém, recentemente, o número de mortes causadas por abuso com álcool e drogas, além do número de pessoas que se denominam “dependentes químicos”² preocupa principalmente por causa de dois fatores:
– a quantidade de clínicas de internação, no Brasil, que utilizam uma literatura científica comportamental é extremamente baixa, dando preferência por abordagens mais filosóficas e religiosas (veja análise abaixo);
– e, portanto, as metodologias de tratamento utilizadas nessas clínicas ainda são ineficientes;
Pesquisando as 10 clínicas de internação mais populares do Brasil, percebe-se que:
– todas tratam o problema como uma doença;
 – metade delas menciona “tratamento espiritual” em sua metodologia de tratamento;
 – 20% exigem um tempo mínimo de internação padronizado;
 – mais da metade das clínicas menciona como necessários para o êxito no tratamento: vontade, conscientização, coragem, desejo e sentimento de superação;
– apenas uma delas cita tratamento comportamental em sua metodologia;
Considerando que as irmandades anônimas (Alcoólicos/Narcóticos Anônimos) funcionam a partir de premissas filosóficas e religiosas³ e, até onde delimitam suas áreas de atuação, funcionam perfeitamente – como grupo de autoajuda, de apoio mútuo, referências de pessoas com histórico de dependência semelhante etc – os objetivos das áreas científicas que abordam o problema, principalmente a psicologia e a medicina, seria tratar o problema sob outro prisma. Entretanto, não é exatamente isso que se observa na prática dessas clínicas.
Uma das abordagens mais referidas nos centros de reabilitação, como o Modelo Minnesota, se propõe a ser uma mistura de teorias psicológicas com espiritualidade (FREIRE, 2005), além de unir ciência com filosofias de autoajuda e religião. Analisemos alguns conceitos importantes abordados por profissionais em clínicas de recuperação de dependentes químicos:
A vontade de parar de usar
O que é vontade? O que é desejo? Se entrarmos numa discussão filosófica e conceitual podemos passar dias diferenciando se “desejo” é mais forte que “vontade” numa discussão cíclica. O dicionário Michaelis (2009) afirma que vontade é: “A principal das potências da alma, que inclina ou move a querer, a fazer ou deixar de fazer alguma coisa.”
O desejo de usar é mais poderoso
que o desejo de parar?
Essa é uma conceituação fraca para fins científicos. Como um profissional pode se ater á vontade do indivíduo se a própria dependência causa uma condição de necessidade de usar a substância cada vez mais? (PEREIRA, 2001)
Porém, o “querer” pode ser um conceito científico quando é definido como: o que o ambiente tem de melhor para oferecer para um indivíduo que decidiu parar de usar drogas do que para outro que continua utilizando. Ou, em linguagem comportamental: como os reforçadores se tornam mais poderosos para os abstêmios e menos reforçador para um usuário ativo? (MIGUEL, 2000)
Geralmente, essa “vontade de parar” é estimulada a partir de reforçamento negativo (bem, você perdeu sua família, sua esposa, seus filhos, seu patrimônio, tudo por causa das drogas…)
A terceira tradição dos Alcoólicos/Narcóticos Anônimos afirma que o único requisito para ser membro do grupo é o desejo de parar de usar álcool ou drogas. Para um grupo de ajuda mútua a terminologia é válida, pois não há muito espaço para aprofundamento conceitual quando existem milhares de pessoas buscando ajuda.
Porém, a ciência possui tal tempo (e responsabilidade) para não trabalhar em cima de conceitos vagos. A vontade de parar não pode ser um requisito essencial para um tratamento exitoso. Talvez funcione em um estado avançado do tratamento, quando o paciente, já desintoxicado, tem a possibilidade de alterar o seu ambiente, tornando-o mais reforçador para seus novos hábitos de ex-usuário e, assim, pode expressar seu “desejo”, baseado em contingências menos ilusórias, de continuar ou não o seu tratamento.
Culpa e responsabilidade: uma doença que atinge o caráter
Se a dependência química é uma doença que, segundo o DSM-V (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais), em um de seus critérios de classificação, faz o indivíduo ter “desejo persistente ou incapacidade de controlar o desejo”, como a pessoa pode ser responsável por seus atos ou mesmo por seu tratamento?
É possível citar todos os 11 critérios do DSM para invalidar a possibilidade do indivíduo de ter qualquer tipo de responsabilidade por seus comportamentos ou por sua recuperação:
– uso em quantidades maiores ou por mais tempo que o planejado;
– desejo persistente ou incapacidade de controlar o desejo;
– gasto importante de tempo em atividades para obter a substância;
– fissura importante;
– deixar de desempenhar atividades sociais, ocupacionais ou familiares devido ao uso;
– continuar o uso apesar de apresentar problemas sociais ou interpessoais;
– restrição do repertório de vida em função do uso;
– manutenção do uso apesar de prejuízos físicos;
– uso em situações de exposição a risco;
– tolerância;
– abstinência.
Se se tratando de comportamentos, uma clínica de reabilitação (e, posteriormente, a sociedade) devem simular contingências ambientais nas quais o comportamento de “usar drogas” seja desestimulado e qualquer outro comportamento seja estimulado: estamos socialmente preparados para tratar os dependentes químicos?
O dependente precisa ser treinado a voltar à convivência social, principalmente nas áreas mais afetadas pelo abuso de drogas: inabilidade social, problemas de comunicação, ansiedade e outros (SANTOS, 2012).
Iniciativas contra a internação de dependentes químicos inaptos temporariamente para o convívio social mostram-se contraproducentes e ineficazes em uma sociedade que não oferece estrutura para tratamento em domicílio. Veja o vídeo abaixo do Conselho Federal de Psicologia contra as internações:
Drogas e sociedade
A discussão realizada no vídeo acima é de que a internação (seja compulsória ou voluntária) quebra os laços sociais do indivíduo.
Ora, como um dos critérios utilizados no DSM-V é justamente “o uso apesar de apresentar problemas sociais ou interpessoais”, a pessoa em dependência grave já está com os laços sociais quebrados. O que se deve fazer, primeiramente, é treiná-lo isoladamente para que ele possa, em seu retorno à sociedade, desenvolver e aprimorar suas habilidades sociais. Além de identificar as causas envolvidas em seu comportamento, evitando possíveis recaídas e possibilitando a modificação do contexto natural da pessoa.
Percebe-se que o tratamento de dependentes químicos, no Brasil, é permeado de superstições, contradições e paradoxos. Políticas públicas ineficientes, um Conselho de Psicologia que, aparentemente, segue uma pauta política e atrasada para tratar uma doença extremamente complexa e difícil.
Há ainda muito a ser estudado e pesquisado na área pois, como mostra Garcia-Mijares e Silva (2006), mesmo estudos científicos mostram dificuldades e paradoxos para explicar diversos comportamentos envolvendo a dependência química, apesar de já existirem muitos avanços.
É preciso mudar o paradigma dos tratamentos atuais. Quem se atreve?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
¹ Drogas: 5 mil anos de viagem (LOPES, Marco Antônio. Super Interessante. São Paulo, 2006. <http://super.abril.com.br/ciencia/drogas-5-mil-anos-viagem-446230.shtml>. Acesso em: 10 julho 2014).
² Mortes por drogas crescem 60% no Brasil em 14 anos (BOREKI, Vinícius. Gazeta do Povo. Londrina, 2011. <http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1203846>. Acesso em: 10 julho 2014).
³ Os 12 passos de Narcóticos Anônimos. <http://www.na.org.br/os_12_passos_de_narcoticos_anonimos.html> Acesso em: 12 de julho 2014).PEREIRA, Amanda Schreiner. WURFEL, Rudiane Ferrari. O uso de maconha como estratégia de redução de danos em dependentes de crack. Aletheia no.34 Canoas abr. 2011.
FREIRE, Eliana. O Modelo Minnesota. Caderno de Fé e Cultura – Psicologia e Espiritualidade – número 47 – julho 2005 – Pontifícia Universidade Católica e Centro Loyola de Fé e Cultura.
GARCIA-MIJARES, M.; SILVA, M.T.A. (2006) Dependência de Drogas. Psicologia USP, 17(4), 213-240.
MIGUEL, Caio F. O Conceito de Operação Estabelecedora na Análise do Comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa Set-Dez. Western Michigan University: 2000.
SANTOS, Roberta Lorena Pereira dos; BARROUIN, Mônica Silveira. Identificação e análise das possíveis contingências de manutenção do comportamento de drogadicção. Faculdade de Psicologia Unidade São Gabriel. Belo Horizonte: 2012.

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