O reflexo dos neurônios

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Há 20 anos a descoberta de estruturas cerebrais chamadas neurônios-espelho trouxe novas perspectivas às pesquisas sobre funcionamento cerebral, em especial no que diz respeito às bases da cognição social e das interações – incluindo a maneira como lidamos com nossa própria culpa e também com as atribuições de responsabilidades aos outros quando algo não corre bem.

Essas células foram encontradas por acaso em 1994 pelos neurocientistas Giacomo Rizzolatti, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese, pesquisadores da Universidade de Parma, na Itália. Eles constataram que a simples visão de ações alheias ativava as mesmas regiões do cérebro do observador, que eram estimuladas quando o próprio indivíduo realizava a ação.  Por isso dizemos que o bocejo é contagioso: vemos uma pessoa ter esse gesto à nossa frente e imediatamente a imitamos. Também recorremos, às vezes até sem nos darmos conta, a esse efeito especular ao alimentar uma criança pequena: “automaticamente” abrimos a boca e, na maioria das vezes, o pequeno faz o mesmo, o que lhe garante mais uma colherada.

Pesquisadores acreditam que simular mentalmente as ações de outros seja um componente fundamental da empatia, muito útil na criação de vínculos afetivos. Um novo estudo, porém, sugere que nossos neurônios-espelho também podem ser implacáveis no julgamento de atitudes alheias. Um estudo recente publicado no periódico PLoS ONE revela que os imitadores não refletem todas as pessoas de maneira igual: eles fazem distinções – e “preferem” pessoas física e culturalmente semelhantes a nós. Num desses experimentos, pesquisadores pediram a 17 jovens adultos judeus que revisassem as biografias e fotografias de oito pessoas que se pareciam fisicamente com os participantes.

Metade dos personagens, desempenhados por atores, foram identificados como neonazistas. Os voluntários relataram forte aversão aos personagens antissemitas, mas não aos outros. Em seguida, os participantes passaram por exames de ressonância magnética funcional enquanto assistiam a um vídeo de cada personagem.

Os pesquisadores se concentraram no córtex ventral pré-motor – região tipicamente ativa quando realizamos uma ação ou vemos alguém fazê-lo – e descobriram que neurônios dessa região eram estimulados de maneira diferente quando as pessoas observavam personagens que consideravam, em algum grau, agradáveis ou detestáveis. A estes últimos, foram facilmente atribuídas culpas por atos repulsivos e cruéis, mesmo sem indicações objetivas de que os houvessem cometido.  Ou seja: se estivessem em julgamento, teriam sido considerados culpados – ainda que fossem inocentes.

Fonte: Mente e Cérebro

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