Darwin e Skinner I: Algumas anotações sobre variação

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Polêmicos, controversos, divisores de águas. Perseguidos, rechaçados e muito criticados, Darwin e Skinner possuem várias comunalidades. Um é considerado por muitos o assassino de deus na biologia. O outro, classificado como o frio detonador da mente humana na psicologia. Ao proporem a exclusão das explicações que estabelecem instâncias imateriais como responsáveis pela origem e manutenção da vida e do comportamento, esses cientistas abriram portas para o desenvolvimento de avançados programas de pesquisa que mais tarde trariam grandes benefícios para as ciências naturais, médicas e humanas.

No entanto, para além de compartilhamentos pessoais, as influências do primeiro sobre o segundo são marcantes e visíveis no arcabouço teórico skinneriano (Pitol Trager & Laurenti, 2013). Skinner propôs que o ambiente contemporâneo possui um efeito seletivo sobre o desenvolvimento individual (de um modo funcionalmente equivalente ao qual o ambiente ancestral possuiu sobre o desenvolvimento das espécies). O princípio do reforçamento destina-se a descrever o controle ambiental sobre a ontogênese, assim como o princípio da seleção natural sobre a filogênese (Donahoe, 1984). Em Selection by Consequences (Skinner, 1981), por exemplo, Skinner explana o delineamento teórico selecionista abarcando as três dimensões da composição do repertório comportamental de um organismo. O artigo The Evolution of Verbal Behavior (Skinner, 1986) é outro exemplo. Nele, Skinner expõe suas especulações acerca de como o comportamento verbal pode ter evoluído, essencialmente calcado sobre a teoria evolucionista darwiniana. Inúmeros outros trabalhos de Skinner demonstram claramente suas bases evolucionistas, principalmente aqueles publicados após 1945 (segundo Moxley, 1999).

Assim sendo, nosso objetivo aqui será traçar algumas anotações sobre similaridades conceituais e funcionais entre os dois autores concernentes à variação e seleção. Nossas anotações serão dividias em dois textos abordando estes dois temas, respectivamente. Iniciaremos expondo a dimensão conceitual na teoria da evolução por seleção natural e posteriormente na teoria comportamentalista de seleção por consequências.

Variação na Teoria da Evolução por Seleção Natural

A disponibilidade da variação é imprescindível para o processo evolutivo, um pré-requisito. As variações que permitem a singularidade de cada indivíduo, que o tornam diferente de todos os outros, constituem uma característica de todas as espécies que se reproduzem sexualmente (Mayr, 2001). Na teoria da evolução, a variação (ou variabilidade) refere-se à gama de diferenças entre as características (o fenótipo) ou diferentes organismos dentro de uma população reprodutora (Donahoe, 2012; Mayr, 2001). Nas palavras de Wilson (2007): “Indivíduos como eu e você diferimos em quase tudo que pode ser estudado (em termos biológicos), tal como altura, cor dos olhos, ou a rapidez em sentir raiva” (p.17). A noção de variação está para a noção de diversidade, dentro de uma população de indivíduos.

De acordo com Mayr (2001), o fenótipo é um termo utilizado para designar o conjunto de características morfológicas, fisiológicas, bioquímicas e comportamentais por meio das quais podemos distinguir um indivíduo de outros da mesma espécie. Essa diversidade de características (variabilidade de fenótipos) origina-se durante o desenvolvimento do zigoto, desde a fecundação do óvulo até a idade adulta, e é resultado da interação do genótipo (constituição genética de um indivíduo, herdada de seus pais) como o ambiente. Algo importante ainda ressaltado por Mayr (2001) é que uma mesma carga genética pode produzir características individuais bastante diferentes em ambientes distintos.

Darwin se preocupou bastante com as questões relacionadas à origem da variação, mas não alcançou respostas satisfatórias. Foi apenas no século XX que os estudos avançados em genética possibilitaram responder as dúvidas do evolucionista. A integração da proposição darwinista de seleção natural com a teoria mendeliana de hereditariedade é o que ficou conhecida como a síntese moderna da biologia (Huxley, 1942). Descobriu-se então que o material genético controla a produção dos tecidos de um organismo e todos os seus atributos, o fenótipo. Este é o resultado da interação do genótipo com o ambiente durante o desenvolvimento do organismo. As variações produzidas no fenótipo pelo material genético do indivíduo em diferentes condições ambientais possuem uma amplitude, a qual é denominada norma de reação. Desta forma, uma planta, por exemplo, pode crescer mais e produzir mais galhos se tiver a seu dispor maiores quantidades de água e produtos fertilizantes (Mayr, 2001).

Anteriormente (e ainda em alguns setores da ciência) discutia-se se certas características de um organismo constituíam-se inatas (produtos exclusivamente resultantes de atividades genéticas) ou adquiridas (efeitos da exposição ambiental). Entretanto, as pesquisas realizadas nos últimos cem anos demonstraram que quase todos os atributos de um organismo são afetados por ambos os fatores. Isto significa que as populações cuja reprodução é sexuada possuem duas fontes de variação superpostas: a do genótipo (uma vez que em uma espécie sexuada não existem dois organismos iguais) e do fenótipo (uma vez que cada genótipo possui uma norma de reação distinta) [1]. Diferentes normas de reação podem produzir comportamentos bastante diferentes nas mesmas condições ambientais (Mayr, 2001; Ridley 2003). As bases genéticas de variação incluem mutação (modificações nos alelos provocadas por agentes externos, tais como químicos ou radioativos), recombinação (integração de alelos durante a reprodução), deriva genética (amostragem randômica de alelos, especialmente no nível molecular) e fluxo genético (migração de genes entre populações) (Donahoe, 2012).

Variação na Teoria Comportamentalista de Seleção por Consequências

Já para a o Behaviorismo Radical, o conceito é fundamentalmente diferente. Aqui, o termo é utilizado para designar as diferenças dentro de uma população de comportamentos (repertório comportamental) de um único indivíduo. Hunziker e Moreno (2000) ressaltam que a variabilidade comportamental pode ser função de diversos processos como, por exemplo, estados fisiológicos alterados pelo uso de substâncias químicas, lesões ou pela contração de alguma doença. Ademais, em organismos intactos, a variação comportamental pode ser função de processos resultantes da interação do organismo com seu contexto. Esses pesquisadores apontam que o termo “variação” pode ter duplo atributo, ora referindo-se ao fenômeno da variabilidade, ora designando o processo de surgimento de um comportamento novo.

A distinção entre as populações, sobre as quais a seleção opera, é um dos principais pontos de divergência entre o estudo do comportamento de organismos individuais em Análise do Comportamento e o estudo de grupos de organismos nas psicologias normativas [2]. As psicologias normativas utilizam metodologias de análises que comparam comportamentos de indivíduos dentro de determinados grupos, método este herdado dos procedimentos de pesquisas realizadas por biólogos. Dawkins (1983), por exemplo, delineou o conceito de fenótipo estendido para se referir às características comportamentais de um organismo (forma como um pássaro constrói um ninho, como uma aranha faz sua teia, e as questões envolvidas na migração de aves, por exemplo). Assim, a noção de variabilidade para as psicologias normativas, como a Psicologia Evolucionista, por exemplo, permanece a mesma daquela estabelecida dentro da biologia – diferentes fenótipos estendidos (comportamentos) dentro de uma população de indivíduos. Difere-se assim da Análise do Comportamento, uma vez que o conceito nesta perspectiva se refere às diferenças comportamentais (topografia e função) dentro de uma população de comportamentos (repertório comportamental) de um único indivíduo.

De acordo com Donahoe (2012), a principal fonte de variação comportamental está na história de reforçamento de um organismo. Entretanto, se nos perguntarmos como este processo ocorre, como se inicia e de onde vem, certamente encontraremos dificuldades para responder. Sabe-se que o potencial de um reforçador para selecionar um comportamento é limitado pela extensão de variações disponíveis (Skinner, 1981), e assim qualquer elemento que produza variações contribui para o condicionamento de novos operantes. Dentre a comunidade de analistas do comportamento, discute-se sobre os diversos efeitos do reforço, sendo um deles o aumento da repetição da resposta. Se um comportamento é reforçado, aumenta-se a probabilidade de ser emitido em condições futuras semelhantes àquelas em que o condicionamento ocorreu. Mas de onde viria o material da seleção? Seria possível reforçar a atividade de variação em si? Neuringer (1993) foi o primeiro pesquisador a demonstrar que os mesmos reforçadores que fortalecem respostas individuais podem também produzir a variabilidade necessária, e que essas duas funções do reforçamento podem funcionar simultaneamente. Isto significa que quando uma resposta operante é condicionada, o reforçamento funciona não somente para fortalecer a resposta individual, mas ao mesmo tempo para engendrar a variabilidade da qual a resposta emerge (Neuringer, 2002). Estudos brasileiros (e.g., Hunziker & Moreno, 2000; Hunziker, Lee, Ferreira, Silva, & Caramori, 2002) têm confirmado experimentalmente os achados demonstrados por Neuringer (1993).

Um dado importante ressaltado por Hunziker et al. (2002) é o da importância da história de reforçamento sobre a variabilidade comportamental. Considerando a imprevisibilidade e a originalidade das contingências, o desenrolar de eventos no ambiente demandará sempre a emissão de novos comportamentos, novas variações, tal como afirmara Skinner (1957):

no comportamento verbal, como em todo comportamento operante, formas originais de resposta são suscitadas por situações às quais uma pessoa não foi anteriormente exposta. A origem do comportamento não é diversa da origem das espécies. Novas combinações de estímulos aparecem em novas situações, e as respostas que as descrevem podem nunca ter sido dadas antes pelo falante, ou lidas ou ouvidas por ele na fala de outrem. Há muitos processos comportamentais que geram mutações, as quais são então submetidas à ação seletiva das contingências de reforço. Nós todos produzimos novas formas – por exemplo, neologismos, misturas, palavras portmanteau, observações espirituosas que envolvem distorção e erros de fala rápida. (pp.88-89).

Quanto à estrutura da variabilidade, cada resposta operante é na verdade uma instância de uma classe, com cada membro da classe exercendo o mesmo efeito sobre o ambiente (Skinner, 1959). Neuringer (2002) explica que quando a resposta de pressão à barra de um sujeito experimental é reforçada, a classe operante é definida pelo fechamento do microinterruptor (pressão à barra), e mesmo o sujeito usando a pata dianteira esquerda, a pata direita, a boca ou a cabeça, a resposta é tão eficaz na produção do reforço como qualquer outra. Entretanto, se as contingências de reforçamento especificam determinada resposta dentro da classe selecionada, o reforço só será liberado quando a resposta especificada for emitida (o que se denomina reforçamento diferencial).

Finalizando…

A interação gene-ambiente produz diversos fenótipos (anatômicos, fisiológicos e comportamentais) (Donahoe, 2012; Mayr, 2001; Ridley, 2003; Neuringer, 2002). De acordo com Neuringer (2002), genes e ambientes também fornecem outro nível de diversidade: a variabilidade operante. Há muitas fontes de variabilidade operante, incluindo eventos ambientais randômicos, controle de estímulos condicionados a contingências vividas no passado, cada uma dessas fontes derivando em última instância de influências genéticas e ambientais. Entretanto, Neuringer (2002) cita a possibilidade de fontes de geração estocástica da variabilidade comportamental. Segundo este autor, na medida em que a variabilidade operante está baseada em fontes estocásticas, os resultados comportamentais não podem ser previstos a partir do conhecimento dessas fontes. Isto significaria que os organismos evoluíram por comportarem-se de modo imprevisível. O conhecimento da natureza estocástica do operante e de como ele é controlado direciona-se a uma visão de mundo que difere da genética e do determinismo ambiental. De acordo com Moxley (1999), a Análise do Comportamento daria abertura, a partir da obra skinneriana, tanto à visão moderna de ciência (determinista), quanto à pós-moderna baseada no modelo de indeterminismo científico. Para Laurenti (2012), os modelos científicos “situam a Análise do Comportamento em tramas conceituais incompatíveis” (p. 375). Alguns autores dão suporte ao primeiro Skinner (e.g., Carrara, 2004; Guimarães & Micheleto, 2012; Strapasson & Dittrich, 2011; Tourinho, 1999) e outros ao segundo (e.g., Abib, 1999; Laurenti, 2009, 2012). Mas qual seria o ponto de vista mais apropriado para a ciência do comportamento? Quais as implicações da escolha de determinado modelo científico para a análise do comportamento e sua aplicação? Como a opção por um desses paradigmas influenciaria o conceito de variabilidade comportamental?

No próximo texto, conversaremos sobre seleção.

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Notas:
[1] E os gêmeos? Ainda que gêmeos idênticos possuam a mesma carga genética, as variações e eventos do ambiente exercerão diferentes influências sobre eles (Ridley, 2003).

[2] Por “psicologias normativas” entendem-se as abordagens psicológicas que se utilizam de métodos estatísticos de análises de amostras populacionais. A expressão “normativa” faz referência ao gráfico de representação de curva normal.
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Referências

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Carrara, K. (2004). Causalidade, relações funcionais e contextualismo: algumas indagações a partir do behaviorismo radical. Interações, 9(17), 29-54.

Dawkins, R. (1983). The extended phenotype: The gene as the unit of selection. Oxford: Oxford University Press.

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Wilson, D. S. (2007). Evolution for everyone: How Darwin’s theory can change the way we think about our lives. Random House LLC.

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Tiago Zortea
Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde atuou como pesquisador-bolsista do Ministério da Educação pelo Programa de Educação Tutorial em Psicologia. Possui mestrado em Psicologia pela mesma instituição na área de Evolução e Etologia Humana (Bolsista CAPES). Possui formação em Terapia Comportamental pelo Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR) e atua em consultório particular no trabalho com crianças, adolescentes e adultos. Atualmente é pesquisador de PhD na University of Glasgow (Escócia, Reino Unido), membro do Suicidal Behaviour Research Laboratory, onde pesquisa sobre comportamento suicida e práticas parentais. É membro da British Psychological Society e revisor do periódico Archives of Suicide Research (International Academy of Suicide Research). Trabalha com os seguintes temas/áreas: Suicídio; Comportamento Suicida; Autolesão; Prevenção ao suicídio; Práticas parentais; Psicologia Clínica; Análise do Comportamento; Etologia Humana; Investimento Parental.
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