Pode-se falar em uma neutralidade dentro da clínica analítico-comportamental?

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Anteriormente escrevi sobre algumas terapias de terceira onda que discutem ativamente valores dentro do processo terapêutico. O tema gerou um pequeno debate sobre a neutralidade dentro do setting terapêutico, portanto, acho que vale a pena discutir um pouco mais sobre este tema.

Neutralidade e o Código de Ética

Logo de cara nos esbarramos com um problema sério: o que estamos chamando de “neutralidade”? Esse rótulo é abrangente e pouco operacionalizado. Poderíamos ir atrás de definições nas mais diversas abordagens psicológicas. Entretanto, independentemente da abordagem, a discussão sobre neutralidade sempre irá perpassar pelo código de ética da nossa profissão. Vejamos o que ele diz:

“Art. 2º Ao psicólogo é vedado:

b) Induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais;

c) Utilizar ou favorecer o uso de conhecimento e a utilização de práticas psicológicas como instrumentos de castigo, tortura ou qualquer forma de violência;

e) Ser conivente com erros, faltas éticas, violação de direitos, crimes ou contravenções penais praticados por psicólogos na prestação de serviços profissionais;

i) Induzir qualquer pessoa ou organização a recorrer a seus serviços”

Estes não são os únicos artigos que falam sobre uma conduta parcial do terapeuta, porém para os fins deste texto, eles abordam a opinião do código de ética sobre o tema. Portanto, uma atitude não neutra do terapeuta seria tentar convencer (direta ou indiretamente) o seu pacienta para um determinado posicionamento. Isso parece óbvio, mas talvez não seja tão simples assim.

Uma sociedade estratificada

Vivemos numa sociedade estratificada. Cotidianamente escutamos falar sobre “classes A, B, C…”, mas, teoricamente, uma sociedade de mercado como a nossa possibilitaria a mobilização social, i.e., a passagem de um sujeito de uma classe para outra. Mas na prática, nossa sociedade é quase tão rígida quanto uma sociedade de castas.

Dentro da hierarquia social existe um pequeno grupo que está no poder e determina as contingências de reforçamento que estão em vigor. Holland (1973/1977) faz uma ótima analise da forma como a classe dominante tenta controlar os outros membros da sociedade. As agências de controle descritas por Skinner (1953) serviriam para a manutenção da situação previamente definida por este sistema construído para atender esta minoria.

A psicoterapia enquanto agência de controle não foge a isto. Ela atende a demanda desta classe dominante. A nossa demanda é formada – em sua maioria – pelas pessoas que por algum motivo entraram em conflito com o sistema: a criança que não atende as notas exigidas pela escola; o sujeito introvertido que não consegue se socializar com o grupo; o profissional que não produz o que é esperado para o seu cargo, etc. Muitas das vezes o terapeuta pode se abster de abordar diretamente este conflito. Em outros casos, a maneira como a intervenção é programada pode se embasar em um juízo de valor tácito. Holland (1978) descreve a utilização de técnicas baseadas em reforçamento positivo em intervenções para o tratamento de disfunção erétil, e a utilização de controle aversivo para a modificação de “condutas sexuais consideradas desviantes”.

Mesmo em situações que a priori poderiam ser consideradas vantajosas para a maioria, pode-se esconder um acesso, ainda maior, a certos reforçadores para a classe dominante. Holland (1973/1977) relata a mudança do controle aversivo para a utilização de reforço positivo na instrução e treino dentro do exercito norte-americano. Esta medida que beneficiou os soldados não foi implantada apenas por isso, na verdade ela diminuía o contracontrole por parte dos soldados e ajudava na modelagem do repertório destes, o que atendia diretamente as necessidades daqueles que estavam acima na hierarquia militar.

Neutralidade e Behaviorismo Radical

Um comportamento não surge no vácuo. O modelo de seleção pelas consequências salienta que cada indivíduo tem uma história comportamental idiossincrática e que cada comportamento tem um significado único. Isso fez com que pudéssemos limar as explicações internalistas (vontade, desejo, motivação, etc.). No seu lugar colocamos explicações contextuais. Segundo esta proposta as contingências dariam conta da explicação de qualquer comportamento. Infelizmente isso não torna o nosso trabalho muito mais fácil: o número de variáveis que controlam o comportamento é bem grande e a história de seleção pode se estender por um tempo longo.

Todavia, o analista do comportamento não pode assumir este tipo de hipótese explicativa, sem assumir a responsabilidade inerente deste posicionamento: o seu comportamento também está sendo controlado. Se você está dentro de uma empresa, você está submetido a sua cultura; se você está dentro de uma universidade, você está submetido às agências de fomento (Holland, 1973/1977). Não seria muita ingenuidade achar que apenas o terapeuta fugiria à esta regra?

Neutralidade e Terapia

Se imaginarmos o posicionamento caricato de um terapeuta que tenta convencer o seu cliente a panfletar em nome de uma causa, então é fácil de dizer que o terapeuta deve ser neutro. Infelizmente, a rotina não deixa muita margem para caricaturas. O que fazer quando uma pessoa se submete a abusos do seu conjugue por que não quer voltar para a casa do seu pai e sofrer abusos dele? E quando uma pessoa sofre devido um rótulo (e é claro, as contingências estão por trás deste rótulo) construído pelo grupo dominante? Entre tantos outros exemplos.

Dar informações ou debater interpretações, mesmo que da maneira menos diretiva possível, pode ser considerada uma postura verdadeiramente neutra? O terapeuta escolhe o que explorar, ele ativamente seleciona que devolver para o seu cliente e, inegavelmente, influencia nos estabelecimentos de relação dentro do gabinete. E isso não vai de encontro com os artigos do código de ética. Existe uma diferença entre uma postura crítica por parte do terapeuta e uma imposição de valores.

Enquanto a terapia for pensada como uma prática neutra, ela apenas será uma ferramenta de manutenção do sistema. Servindo para recolocar os desviantes de volta nos eixos pré-determinados. Holland (1977/1973), Moscovici (1979/2011) e Guerin (1957/2005), deixam bem claro que a uma prática de mudança social efetiva não pode ser pré-moldada e desconsiderada do contexto. E o contexto aqui não se restringe ao contexto do paciente, mas também ao contexto da própria prática.

Dentro deste raciocínio, o papel do terapeuta é empoderar o seu cliente e criar –junto dele, e não, para ele – formas de analisar o ambiente em que está inserido. Negligenciar este debate é jogar para debaixo do tapete variáveis que controlam diretamente o comportamento dos indivíduos. Guerin (1957/2005) afirma que, desde que feito de maneira ética, intervenções visando mudanças sociais (do grupo ou do individuo) em sua maioria são inofensivas, e fazer algo a respeito de problemas sociais dolorosos ou perigosos é melhor do que se abster.

Conclusão

O tema da neutralidade é um assunto polêmico e de extrema importância dentro da clínica. Ele está diretamente relacionado com a postura ética que o terapeuta deve assumir para com o seu cliente e para com a sociedade. Uma atitude verdadeiramente neutra não é só difícil de ser posta em prática, como também vai de encontro com a proposta da análise do comportamento. O Behaviorismo Radical é uma teoria revolucionária (no sentido de em prol de uma revolução, e não de inovadora). Holland (1973/1977) defende que o seu produto deve ser uma tecnologia de luta e que sirva à maioria. Talvez a psicoterapia tenha se distanciado disso em algum ponto do caminho, devido a sua origem no gabinete. Entretanto, este distanciamento não é necessariamente um fim em si, ele pode mudar. Holland (1973/1977) diz que a sociedade revolucionária deve ser planejada, ela não surgirá do nada. Assim também deve ocorrer com a terapia.

Referências

Guerin, B. (1957/2005). Handbook of interventions for changing people and communities. Nevada: Context press.

Holland, J. G. (1973/1977). Servirán los principios conductales para lós revolucionários? Em: Keller, F. S. & Ribes-Iñesta, E. Modificación de conducta: aplicaciones a la educación. México: Ed. Trillas. PP.265-281.

Holland, J. G (1978). Behaviorism: part of the problem or part of the solution. Journal of Applied Behavior Analysis, 11(1), pp. 163-174.

Moscovici, S. (1979/2011). Psicologia das minorias ativas. Rio de Janeiro: Ed. Vozes.

Skinner (1953/1981). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.

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