O ensino de novos repertórios comportamentais a crianças com transtornos do espectro autista

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Segundo Goulart e Assis (2002), o autismo foi exposto pela primeira vez como Autismo Infantil Precoce por Kanner (1944), que empregou o termo para caracterizar a condição clínica de um grupo de 11 crianças que apresentavam limitações no relacionamento com outras pessoas e com objetos, além de desordens no desenvolvimento da linguagem, além de apresentar comportamentos repetitivos e estereotipados, e a maioria, apresentava ecolalia e inversão pronominal. 

Essas crianças tinham problemas em aceitar mudanças de ambiente, além de preferência por objetos inanimados. A denominação autismo se referia aos comportamentos característicos de isolamento e auto estimulação que essas crianças apresentavam.
Kanner observou que os pais de crianças autistas eram, em sua maioria, de classe média alta e demonstravam uma atitude passiva nos cuidados com suas crianças, o que fez com que acreditasse que era o comportamento dos pais que causava a condição autista. Além disso, havia relativa imprecisão (que permanece ainda hoje) quanto às quais fatores, biológicos e/ou psicológicos, seriam responsáveis pelo espectro autista.
Segundo o site Terra*, no Brasil existem cerca de 2 milhões de pessoas com autismo. Dentre várias características do espectro autista (isolamento social, dificuldades de comunicação…) uma das mais difundidas e que mais podem causar manifestações de preconceito ou medo, são os movimentos estereotipados, pois na maioria das vezes estes comportamentos não condizem com o contexto social que a criança está inserida.
Mas como lidar com este fator? Muitos profissionais e pais não sabem lidar com tais comportamentos e muitas vezes utilizam-se da punição para extinção destes comportamentos. Segundo Skinner (2006) a punição não extingue o comportamento, ele não é realizado apenas na presença do agente punidor. Sendo assim torna-se ineficaz para extinguir comportamentos.
Segundo Goulart e Assis (2002) o DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), o DSM-IV-TR (2000) apresenta o autismo (Transtorno Autista) como um Distúrbio Global do Desenvolvimento caracterizado por prejuízos comportamentais que são agrupados em três categorias principais: comprometimento da interação social, comprometimento da comunicação, e padrões restritos, repetitivos e estereotipados de comportamento.
A lista de critérios diagnósticos para o transtorno apresenta quatro critérios para cada uma dessas categorias. Para receber o diagnóstico de Transtorno Autista, o paciente deve reunir pelo menos 6 dentre os 12 critérios, respondendo ao número mínimo de critérios estabelecido para cada categoria, com início dos sintomas anterior aos três anos de idade.
Essa tentativa de caracterizar as características do espectro autístico é importante, principalmente para os trabalhadores da área de saúde, porém essa sistematização pode limitar o diagnóstico do autismo, principalmente a espera pela a idade de três anos para se fechar um diagnóstico, e homogeneizar os portadores do espectro autista.
Como qualquer indivíduo cada portador do espectro autístico é diferente entre si e cada um tem uma história de vida diferente o que contribui também para manutenção dos comportamentos estereotipados e na aquisição de novos comportamentos.
Segundo Martin e Pear (2009), Ivar Lovaas (1996) junto com outros pesquisadores tem desenvolvido tratamentos comportamentais para crianças autistas, concentrando-se em ensinar comportamentos sociais, desenvolver repertório verbal, tendo como resultado, que 50% das crianças com menos de trinta meses que foram submetidas ao tratamento, puderam frequentar sala de aula referente a sua idade escolar, sendo utilizado em sete das dez províncias no Canadá.
De acordo com Miguel (2005), o departamento de Saúde do Estado de New York concluiu que métodos oriundos da análise do comportamento são essenciais para o tratamento de indivíduos diagnosticados com espectro autista, e a academia nacional de ciências dos EUA concluiu que o maior parte de estudos bem documentados utilizaram métodos comportamentais.
Green (s.a) afirma que Análise do comportamento é uma abordagem científica natural para o entendimento do comportamento e a utilização de métodos analítico-comportamentais para transformar comportamentos antissociais para comportamentos socialmente relevantes produzem resultados de maneira significativa.
Segundo Green (s.a) o uso da Análise Comportamental aplicada para o autismo baseia-se em diversos passos:
1- avaliação inicial;
2- definição de objetivos a serem alcançados;
3- elaboração de programas/procedimentos;
4- ensino intensivo,
5- avaliação do progresso.
O tratamento através da análise do comportamento é constituído, pela experimentação, registro e mudança contínua. A lista de objetivos a serem alcançados é definida pelo profissional, juntamente com a família com base nas habilidades iniciais do indivíduo. Assim, o envolvimento da família e das pessoas que tem participação no cotidiano da criança é fundamental.
Os comportamentos a serem incrementados e comportamentos problema a serem reduzidos são definidos em termos observáveis e medidos cuidadosamente através de observação direta, com verificação independente por observadores secundários. Uma avaliação inicial é conduzida para determinar habilidades que o indivíduo já possui em seu repertório e aquelas que necessita desenvolver sendo analisados em componentes menores e sequenciados de acordo com o desenvolvimento, ou do comportamento simples para o comportamento mais complexo. O intuito é que cada individuo desenvolva habilidades que possam permitir que esse indivíduo seja independente e bem-sucedido dentro do possível a longo prazo.
Uma série de métodos analítico-comportamentais são utilizados para fortalecer habilidades existentes e formar aquelas ainda não desenvolvidas. Isto envolve arranjar para que o portador de espectro autista tenha diversas e repetidas oportunidades para aprender e praticar habilidades durante cada dia, com reforçamento positivo farto. Uma forma de arranjar contingências de aprendizagem consiste de um adulto apresentar uma série de tentativas para a criança, cada uma tendo um sinal ou dica específica ou instrução por parte do adulto apresentando uma conseqüência pelo adulto a depender da criança.
Tais arranjos são chamados tentativas discretas, e são essenciais para desenvolver muitas habilidades importantes em crianças com autismo. Pesquisas relatam que do contrário, as habilidades tendem a não generalizar. Comportamentos não adaptativos (como por exemplo, comportamento estereotipado, auto lesivo, agressão) não são reforçados.
O progresso é medido frequentemente, usando métodos de observação direta, cada comportamento apresentado pela criança é registrado de forma precisa para que seu progresso possa ser avaliado.
Segundo Miguel (2005), o uso de consequências positivas é utilizado inicialmente, entretanto o objetivo é que, com o tempo as consequências naturais produzidas pelo próprio comportamento sejam suficientemente poderosas para manter a criança aprendendo, principalmente no que diz respeito às AVD’s (atividades de vida diária) o que poderá inseri-las de fato no meio social onde vivem, podendo frequentar diversos ambientes sem que haja constrangimentos a família e a própria criança, que acaba sofrendo maior discriminação devido a seus comportamentos considerados antissociais.
Fernanda Cerqueira Bomfim
*http://noticias.terra.com.br/brasil/videos/brasil-tem-cerca-de-2-milhoes-de-criancas-autistas,358054.html
REFERÊNCIAS
GOULART, Paulo; ASSIS, José Grauben Alves de. Estudos sobre autismo em análise do comportamento: aspectos metodológicos. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva.  2002, Vol IV.
B.F SKINNER. Sobre o Behaviorismo. 10 ed. Editora Cultrix, 2006.
MARTIN, Garry; PEAR, Joseph. Modificação do comportamento. O que é e como fazer. Áreas de Aplicação. Uma visão Geral. Roca, 2009. Cap. 2, pag 23 -24.
MIGUEL, Caio. Análise Aplicada do Comportamento. Disponível em :< https://sites.google.com/site/desvendandooautismo/aba—analise-aplicada-do-comportamento>, Acesso em: 17 de fevereiro de 2012.
GREEN, Gina. Análise Comportamental Aplicada ao Autismo. Acesso em: 17 de fevereiro de 2012.

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